quinta-feira, novembro 10, 2005

É o quê pá? IV

É disto que eu gosto. No outro dia, estava eu em amena cavaqueira com os meus colegas, quando uma miúda do meu curso disse uma coisa absolutamente aterradora.

A verdade é que eu mostrava-me chocado com o facto de ter descoberto que, feitas bem as contas, até Coca-Cola vendiam na Festa do Avante. Esta foi a observação que tive de volta:

"-Dah? Se calhar é a patrocinadora, não?"

Juro que nesse mesmo instante soou no interior da minha cabeça o jingle que dá no final dos sketches de "Os Batanetes".

segunda-feira, outubro 31, 2005

Diário de Caloiro II

Segunda-feira, 26 de Setembro de 2005 - Dia D
20:14
Neste momento estou ensopado, constipado e convenhamos, algo desconfortável. Mas eu explico porquê. Até posso explicar o porquê de neste momento o meu cabelo se assemelhar mais a uma bilis de porco.

Ok, estamos na manhã de hoje. Eu dirijo-me para a faculdade a pé (as minhas mãos, graças a Deus, já não cheiram a banha de porco), entro muito bem pelos portões dentro e encontro todas as pessoas que são do meu curso encostadas à parede e matematicamente numeradas. Junto-me a elas e reparo que o meu curso é essencialmente constituído por raparigas. Com uma percentagem razoável de giras. Já estou mais feliz. Graças a Deus pelo par cromossómico XX.

Estávamos nós tão contentes a ser marcados como peças bovinas e a ser tratados como tal, quando nos informaram que teríamos que dar um passeiozinho. Demos as mãos num puro acto de ioga e equilíbrio (sim, porque cada um de nós tinha que dar a mão ao que ia na frente com esta a passar por entre as pernas), e lá fomos nós.
Passadas duas horas de muita gritaria a roçar o obsceno e de muita mistela bebida, tivemos direito a uma refeição na cantina. Mas atenção, porque tivemos que comer dois bifes com puré só com uma faca. Devo dizer que momentaneamente senti-me uma versão humilhada mas bastante realista de Batusai, o esquartejador.

Passados mais alguns episódios envolvendo comida e miúdas giras (esta era só mesmo para captar a atenção... estas coisas funcionam), lá nos fomos pintar à creche mais próxima. Levaram-nos para um recinto cheio de miúdos de cinco anos e eles próprios fizeram questão de nos salganharem o corpo todo com as suas tintas removíveis com água. E eu entretanto fiz uma descoberta fantástica. As criancinhas de tenra idade têm na verdade um cruel instinto assassino. E perverso. Provas? Primeiro, elas não tinham sido ensinadas. Segundo, deixo aqui o meu diálogo com uma dessas criaturas do Inferno:

"-Olá! Então como te chamas?"
"-Cala-te! Abaixa-te!"
"-Oh, pronto, eu baixo-me! Então o que me vais pintar?"
"-Prossora, dá-me o verde!"
...
(silêncio enquanto que o puto me suja todo)
...

Cá está. Foi uma situação algo embaraçosa, mas o negócio não ficou por aqui. Como já tinha dito, as tintas eram removíveis com água, e os veteranos aperceberam-se disso. Solução? Levámos com dois quilos de laca, batôm e pó de talco em cima. Ah pois. E não nos queixámos.

Passada uma hora, iniciu-se um aconchegador desfile de oito quilómetros até Almada. Agora aqui é que me faltam palavras para descrever as duas horas e meia mais turtuosas dam minha vida. Estão a ver aquele filme, A Paixão de Cristo? Estão a ver aquela pequena cena em que é o próprio Messias a levar cacetada até ao calvário? Pronto, nós estávamos mais ou menos assim, mas sem cruz às costas, vestidos com batas e com latas atadas às pernas. E a gritar :"Ó LEGI, chupa aqui!", claro está. Eu acho que Jesus não gritava coisas dessas pelo caminho, por isso esta foi mesmo a parte mais inovadora, acho eu.
Chegados a Almada, demos um pulinho para a fonte. Aí é que eu gostei de estar no desfile: éramos para aí uns setecentos caloiros a mergulhar alegremente naquelas águas. Digamos também que aquilo não eram exactamente águas. Na realidade, a fórmula química daquela estranha substância era nada mais nada menos do que H2Cócó.
De qualquer das formas, aquele era um cenário verdadeiramente peculiar. Tambores de um lado, cânticos do outro, mais parecia uma revolução. Mas sem florzinhas.

Assim, encharcado e pintado, apanhei um autocarro para casa e cá estou eu a escrever no meu quarto. Apercebo-me agora de quem tem que lavar estas roupas sou eu, e isso faz-me mesmo sentir homesick.
Que cheiro é este? O outro colega de casa está a cozinhar pombo. Agora sim estou deprimido.


E pronto, este foi o relato dos meus primeiros dias enquanto reles, insignificante e mísero caloiro. Claro que as praxes não se resumiram a isto, mas devo dizer que no geral gostei. Afinal de contas fiquei a conhecer muitas pessoas e isso é sempre bom. Devo também dizer que fiz um esforço hercúleo para tentar entender a minha letra e copiar esta blasfémia toda.
Agora é vida nova. Tudo novo. Mas as ideias, essas mudam. E estão sempre cá, estúpidas como sempre!

domingo, outubro 30, 2005

Intelectualidade VI

Ele há jogos de palavras muito subtis:


in O Mirante 28 Out. 2005, edição Lezíria do Tejo


Mais comentários para quê?

sexta-feira, outubro 14, 2005

Diário de Caloiro I

Finalmente, após todas estas semanas de intensa adaptação universitária, tive tempo para escrever qualquer coisinha de mais consistente neste blogue de ideias completamente incongruentes.
O que se passou, e infelizmente ainda se passa, é que eu ando a tomar parte naquele tão afamado ritual de acolhimento para os recém-chegados do ensino secundário, les praxes. Para quem não sabe ou ainda não se apercebeu da minha falta no liceu de Almeirim, entrei agora para a faculdade. Não, não assaltei o bar da escola e fugi com o stock de folhados mistos, vim mesmo para Lisboa. Por isso sinto que tenho algo a dizer sobre os acontecimentos que ocorrem nas mais recentes três semanas da minha vida.
Eu não podia estar mais em desacordo com aquelas pessoas que dizem que praxe é hierarquia. De facto, vou usar este intrépido blogue para desmascarar essa insinuação: praxe não é, nem nunca sonhará sequer ser hierarquia. Praxe é simplesmente humilhação e subversão de todos os valores eticamente aceitáveis. Praxe é meter uma grande rolha na boca dessa gorda senhora que é a dignidade humana. Contudo, praxe é diferente de muitas coisas que as pessoas possam pensar. Praxe não é, por exemplo, uma sandes de queijo. E isso é que a distingue de muita coisa neste mundo.
Por essa mesma razão, publico agora e aqui o meu diário de sofrimento, comdamente separado em vários posts, que eu tenho mais que fazer.

Segunda-feira, 19 de Setembro de 2005 - Dia das inscrições:
23:30
Hoje, vai-se lá saber porquê, fui a primeira pessoa a inscrever-se. Quero dizer, aquilo era por ordem de chegada e eu por acaso cheguei em primeiro. Além de me marcarem como uma mera peça bovina (e isto é ser humilde), ensinaram-me um método linguístico completamente novo. Cada vez que me dirigissem a palavra, a única coisa que poderia afirmar era um poético grunhido. Mais nada. Mas o pior nem foi isso. Eu estava com a minha família, e a família normalmente apoia o coitadinho que está a sofrer. Sim, isso era o que se esperava. Aconteceu? NÃO. Enuqanto eu rastejava de joelhos a venerar veteranos e veteranas, a malta do meu fundo genético ainda se ria com a minha humilhação. Ó meu Deus.

A partir daí fiquei mais conhecido por BAAAH. Ou por cunhas, também vai-se lá saber porquê.
À tarde fui à procura de casa. Grande sorte, calhei num apartamente bem aceitável, no fim de ver bastantes e cujos hábitos de higiene muito ficavam a dever à palavra detergente. Tenho um quarto só para mim, e estou a partilhar a casa com mais dois tipos, ainda não sei quem são. Com um bocado de sorte não cheiram mal dos pés.


Domingo, 25 de Setembro de 2005 - Dia da chegada
22:15
Os tipos que moram comigo cheiram mal dos pés. Vá lá, estamos em quartos separados e eu já enchi o meu com aqueles ambientadores que a minha mãe trouxe de casa. Neste momento estou na minha cama e tudo o resto cheira-me a sabão de limpeza. Que frescura. Sou um tipo esquisito.
Há aqui um café ao pé da minha casa. Vou lá ver os ambientes.

01:30
As praxes já começaram. Conheci vários caloiros que como eu estão a morar ao pé da faculdade. O ambiente estava óptimo no café, até aparecerem uns veteranos com um ar inconfortavelmente tendente para o assassino. Obrigaram os meus recentes amigos a carregar móveis de madeira maciça do segundo andar para o rés-do-chão, e a mim a lavar 50 kgs de loiça que mais pareciam ter participado num ritual de sacrifício humano em tempos que já lá vão. Descobri depois de todo o meu empenho e coragem que o veterano abusador em questão era de Matemática, e sendo eu de Engenharia Química e Bioquímica, ele não estava autorizado praxar-me, segundo umas regras invisíveis que uns tipos com anos a mais por lá fizeram.
Quero matar alguém, mas não hoje que estou cheio de sono. Vou pôr isso na minha agenda. Mas não agora, que não me quero lembrar da fatídica limpeza de pratos.

02:03
As minha unhas ainda cheiram a banha de porco. Meu Deus, tenho que ir lavá-las pela trigésima vez. Bolas.

sábado, outubro 08, 2005

Intelectualidade V

Se há facto que que eu sempre julguei certo é que não se pode criticar a liberdade estilística assim à papo-seco. Se a oralidade difere da escrita, então o comezinho afasta-se e muito do puro trabalho intelectual.
A ver estes exemplos que encontrei apenas no espaço de uma semana, tenho que gritar a alto e bom som para todo o mundo me ouvir:

Ele há coisas poéticas.



in panfleto aleatório


in O Mirante 28 Set. 2005, edição Lezíria do Tejo


Ça, c'est beau.

quarta-feira, setembro 21, 2005

É o quê pá? III

Os nossos militares andam profundamente revoltados com o Presidente da República por não permitir que estes façam greve e mais, por promulgar várias medidas que não estão nada a favor dos responsáveis pela defesa nacional.

Na mesma semana, a TVI lança mais um reality show com "figuras públicas portuguesas", desta vez a brincarem à tropa.

A pergunta que deixo no ar é pura e simplesmente esta:

Não querem bater mais no ceguinho?

terça-feira, setembro 13, 2005

Expressão Escrita

Imagina como foi a vida da fadazinha do país do Sol

Uma vez, num certo país chamado País das Neves, havia uma fada que era um pouco tonta porque em vez de facetar os cristais de gelo que a rainha das fadas lhe mandava facetar preferia ir patinar nos lagos gelados com os seus patins de prata até que um dia deixou derreter os cristais com um pálido raio de Sol.
Zangada, a fada-rainha expulsou a pobre fada do País das Neves.
Então, a fadazinha partiu levando consigo os seus véus, os patins de prata e a varinha de condão.
Passou por picos nevados, florestas brancas até que chegou a um país que já não devia ser o País das Neves pois só havia verduras.
Então, ela foi-se apresentar à fada Rainha daquele país e contou-lhe a sua triste história.
-Está bem, podes ficar. - disse a fada Rainha. - Mas terás por companhia a fadazinha Rosa. Ela ensinar-te-á tudo o que aqui há.
-Concordo em absoluto, Sua Majestade!
Então, a fadazinha Rosa conseguiu habituá-la na sua vida no País do Sol.
Como a fadazinha se habituou depressa conseguiu ganhar as eleições à rainha do País do Sol.
Então, a antiga rainha disse-lhe:
-Parabéns fadazi... rainha fada. Tu mereces porque te esforçaste!
Então, a nova fada Rainha viveu o resto da sua vida feliz a comandar o País do Sol.

David Trincão, 5 de Março de 1997 (8 anos)


Isso mesmo. A criança doentia que escreveu isto foi nada mais nada menos do que eu mesmo, tirando a parte da criança, claro está. A imaginação dos mais novos, particulamente a minha, é perturbante. Bem, por onde devo começar?
Estilisticamente este texto é incomparável, nomeadamente na anaforização da palavra então e na insistência do uso de facetar, que é um verbo que não se ouve todos os dias. Como vi a melhor oportunidade para o poder utilizar, fiz questão de o fazer duas vezes seguidas, que era para deixar a coisa bem sublinhada.
Depois há um certo mistério latente em como o pálido raio de sol chegou ali e derreteu os cristais sem mais nem menos. Mas como eu tinha 8 anos, muito provavelmente achei que era melhor cortar no suspense para não estragar a progressão da narrativa.

Gostaria contudo de dar especial destaque à felicidade da fadazinha aquando na cadeira do poder e para a minha fantástica noção do sistema político vigente numa monarquia:
Como a fadazinha se habituou depressa conseguiu ganhar as eleições à rainha do País do Sol.
Cá está. Dez anos depois vejam só no que deu.

segunda-feira, setembro 12, 2005

Intelectualidade IV

Hoje fui ver um filme, era ele o House of Wax. Devo dizer que a prestação da Paris Hilton é no mínimo invulgar, já que surpreende o facto de esta vez ela estar mais vestida do que nas suas outras actuações. Digamos que a sua componente humana nesta obra é um bocado mais artística e um bocado menos física.

quinta-feira, setembro 08, 2005

Só cascalho

Eu costumo saber muitas coisas, sendo a maior parte delas mais opinada do que propriamente aprendida. O problema é que estava completamente sem tópicos nenhuns, pelo menos até às quatro da tarde do dia de hoje.

O que aconteceu, meus intrépidos e escassos leitores, é que em cerca de 20 rápidos segundos a minha mente, que até então se encontrava na mais solitária escuridão, iluminou-se, e mais, ofuscou-me a mim mesmo. Eu fiquei de tal maneira encandeado que parecia que tinha visto uma explosão. E isto porque vi, já que presenciei o impresenciável: as torres de Tróia a irem à vida.

O 11 de Setembro não cessou o gosto de se ver destruição, nem pouco mais ou menos. Portugal queria mais, estilo reality show.
Se não pudesse ser com sangue, então seria com explosões.
Se não pudesse ser com terroristas, então seria com um representante do governo português.

E nisto eu encontro três razões mais uma (bónus) para achar que isto foi extremamente peculiar, que é uma palavra que a gente desta terra inventou para não se dizer foleiro. Em Portugal este tipo de eventos costumam chamar-se peculiares.

Primeira razão: houve aquela redoma toda de marketing à volta do acontecimento, a que imploro a alguém que me esclareça o facto de ser assim tão importante mandar dois mamarachos abaixo. Chamem-me inculto, porque não sei que aquilo foi um grande investimento no tempo da Maria Cachucha que não resultou, e coitadinha, tanta gente investiu...
Só posso responder :
-Pff! Eu fiz um investimento de 12 anos no ensino público e saí de lá mais parvo do que quando entrei. Alguém me quer aniquilar e filmar o acontecimento?

Segunda razão: aquilo é uma demolição. Uma demolição é costume ser apenas a desconstrução súbita de edifícios velhos. Então porque é que têm que haver lugares VIP? Bem, aquilo deve ser mesmo muito giro. Eu imagino os presentes:

"-Wow."
"-Sim senhoras..."
"-Olha, viste aquele bocadinho de cimento?"
"-É pá, isto sim, é entertainment."

Cá para mim os terroristas bem podiam contactar os media portugueses para avisar quando planeam dar cabo do coiro de alguém, preferencialmente dentro de um edifício, ainda mais preferencialmente se se puserem com explosivos pelo meio. É só telefonar a uma empresa de catering, tendo cuidado para seleccionar os melhores croquetes e que as gambas não estejam muito estragadas.

Terceira razão: os portugueses devem ser muito chiques. Alguém reparou que todas as comunicações estavam a ser feitas antes e após a destruição, não na língua de Camões, mas... EM INGLÊS? O tempo todo. Antes da implosão tinha-se qualquer coisa como:

"Everything's ready? All righ'!"
"Five, four three, two, one..."
KABOOM!

E de seguida ouviram-se mais umas falas, desta vez por puras almas lusas e às quais eu não apelidarei de grotescas, apelidarei apenas de agressivamente pós-modernistas:

"-ÉXCELENT!"
"-VÉRI GÚDE! VÉRI GÚDE!"
"-CÔNGRÁTCHULÂCIÓNES!"

Não só os técnicos eram ingleses, mas os próprios portugueses, talvez perplexados com todo aquele tumulto, desataram a falar estrangeiro. E não se calaram. Não me surprenderia nada se depois do dito espectáculo, já no indespropositado buffet ainda se ouvisse:

"-Oh, my God, I need a piss, and quick!"
"-These rissoles are very good."
"-I liked the explosion. Now I have to go home to smell my Maria's codfish."
"-It's a mini and a saucer of tremoços, please."

São estes pequenos momentos que não têm preço. Chamem-me o António Damásio para analisar esta gente, que pelos vistos assistir a explosões activa partes cerebrais relativas à linguagem que ninguém sabia.

E agora a Razão Bónus! :
Ok, estavam muitas câmaras a filmar o local em diversos ângulos: umas à frente, outras atrás, outras de lado. Mas todas de fora. O que me chamou a atenção foi o facto de terem colocado uma câmara DENTRO de um dos prédios para filmar 1 segundo de derrocada. Visto ter sido tão breve vou analisá-la frame por frame:

Frame 1 : Prédio intacto.
Frame 2 : Vê-se uma luz forte.
Frame 3 : Escuridão.

Fantástico. Cá está um bom uso para uma câmara. Prédio, luz, escuridão, câmara destruída.

De qualquer das formas fiquem atentos, porque a próxima implosão que houver vai-vos gastar a mioleira. A menos que sejam como eu, e se dediquem a coisas mais interessantes como a escrita desiquilibrada em blogues despropositados.

segunda-feira, setembro 05, 2005

É o quê pá? II

Após os trágicos "incidentes" vividos no sul dos Estados Unidos, no rescaldo da passagem do furacão Katrina, anda por aí muito boa gente a acusar o seu peculiar presidente de racismo.

Eu discordo. De facto, penso que George W. Bush considera que todos os homens nascem iguais em deveres e direitos, menos os criminosos, que por acaso são todos pretos.

domingo, setembro 04, 2005

Intelectualidade III

"Filho, eu não trabalho em serviço."
by rapariga da minha turma do 9º ano.


Nunca ninguém esteve tão perto da palavra honestidade.

Já da palavra urinol, mais ou menos.

segunda-feira, agosto 29, 2005

SU DOKUltura

O mundo está oficialmente louco.
Estamos só à espera que a Manuela Moura Guedes faça o seu veredicto, e pronto, estamos todos burocraticamente aptos para entrar no Júlio de Matos. Sem pré-requisitos nem 95 pontos nas específicas.

De facto, a sociedade ocidental ensandeceu completamente rendida ao jogo que os japoneses já utilizavam para fazer coisas tão variadas como brincar, passar o tempo, competir, aprender, contar, ler O Prenúncio das Águas de Rosa Lobato Faria, pintar as unhas e fazerem-se às miúdas. Falo do jogo que que pôs toda a gente a duvidar da sua capacidade de conhecer os números até ao nove, o Su Doku.

O Su Doku é um jogo que remonta ao século XVII, quando um tipo armado em esperto se lembrou de inventar uma coisa do género, baseada no posicionamento de soldados de diferentes infantarias. Como é óbvio, isto soa incrivelmente a sexualidade retraída, já que para um homem que imagina uma coisa destas, ele não devia ter acesso fácil a mulheres nem a ovelhas.
Nos anos 70 saiu num jornal nos Estados Unidos um conjunto de exercícios parecidos, mas como aí as pessoas provavelmente já tinham acesso fácil a mulheres e a ovelhas, não esquecendo os frascos de pickles, também não pegou muito.

Agora no Japão as coisas deviam ser diferentes. Com todas aquelas regras e disciplina, mulheres, ovelhas e frascos de pickles já estavam a uma distância considerável. E isso com certeza favoreceu a proliferação do Su Doku, que na língua do país do sol nascente significa qualquer coisa como "único número" ou "única contagem". E já agora, gostava também de informar metade deste país que Su Doku não tem muito a ver com Son Goku, já que este último era um super-guerreiro do espaço e o primeiro um super-guerreiro da última página do jornal O Público. E aquilo hoje em dia ganhou bastante terreno. Tanto que até eu sou mais uma vítima desse vício terrível.

Sim, eu e o Su Doku temos uma relação entre os ambos tal como o Jim Morrisson tinha com as drogas. Ácidos, haxe, coca, vão-se embora, que isto é muito mais viciante.

O que eu tenho vindo a pensar é numa série de ideias que possam diversificar este incrível passatempo. Um bom exemplo seria a de pôr grelhas de Su Doku no papel higiénico, mas daquelas fáceis, porque também não se pode gastar assim tanto tempo a dar cabo da mioleira. No fim, era só usar para o seu fim óbvio e deitar pela sanita fora.
Pensem bem nisto, porque até tem a sua parte poética. Estarmos mais de meia hora feitos parvos a colocar números para no fim os limparmos de forma veemente ao rabiosque e puxarmos o autoclismo é juntar duas formas de trabalho: o primeiro é trabalho de pensar e o segundo é trabalho de obrar.

O que é ainda de referir é a quantidade de diferentes Su Dokus que agora existem. Vamos a exemplos, uns mais prováveis que outros:

Su Doku Clássico
Su Doku Colorido
Su Doku Mini
Su Doku Mais
Su Doku Menos
Su Doku Mais ou Menos
Su Doku Assim Para O Coiso
Su Doku Sopa da Pedra
Su Doku Samurai
Su Doku Ninja
Su Doku Star Wars
Su Doku Sousa Gomes
Su Doku Expert
Su Doku Fácil
Su Doku Intermédio
Su Doku Entrecosto
Su Doku Big Mac (©)

Agora, ideias ilustradas! E não, eu não recebi isto por e-mail, fui eu que fiz. Aliás, nota-se pela qualidade. Eu nasci para o webdesign.

Su Doku para Loiras (Em qualquer espaço pseudo-humorístico, tem que haver sempre este velho cliché):


Su Doku para Revoltados Contra A Sociedade:


Su Doku para Obcessivos:


Sudoku para Pré-universitários (Obcessivos)


Su Doku para Cromos Da Bola:


Su Doku para Quem Quer Subir De Escalão Social À Força Toda:


Su Doku para Quem Tem A Mania Que Tem Que Ser Diferente:


Su Doku para Filosóficos:


Já têm as ideias, não têm? Agora é só pô-las em prática. Pelo menos devem ser mais interessantes do que, vamos lá ver, observar bichos-da-seda a comerem folhas de amoreira.


D'virtem-se!

quarta-feira, agosto 24, 2005

É o quê pá?

Ouvi dizer que José Cid sempre se considerou a mãe do rock português. Absorvam o significado disto. Isto deve ser daquelas coisas que toda a população devia estar informada.

Eu até acho esta afirmação extremamente profunda e curiosa, já que toda a gente também sabe que Homero foi a mãe da epopeia, o Bin Laden é a tia do terrorismo internacional e que dentro em breve Britney Spears vai ser pai de uma saudável criança.

terça-feira, agosto 16, 2005

Intelectualidade II

Estou no centro de recursos de Peniche.
Estou também rodeado de miúdos com brincos à Cristiano Ronaldo.

De repente, entra uma senhora que diz: "Bom dia."
Eis que oiço do fundo da sala : "Mordia?!"


Isto foi um poema tornado realidade.

quarta-feira, agosto 10, 2005

Surf's up

Os meus agradáveis tempos passados na praia a olhar bifas com seus olhos lânguidos e desejosos pelo meu toque sensual estão-me a dar a conhecer inúmeras reflexões vindas do fundo de mim mesmo. Começo sinceramente a pensar que o povo português conhece a moda. Aliás, o povo português é perito numa moda : a moda de só haver UMA única moda.
Como? Passo a explicar, tomando como referência três anos anteriores ao corrente. Perdão pelos possíveis anacronismos, mas estou mais para pensar em miúdas do que andar aí a lembrar-me de datas.


2000 - A moda dos telemóveis
Toda a gente tinha que ter um telemóvel. Quanto mais avançado melhor. Ao longo do tempo as coisas foram arrefecendo, e hoje em dia comprar um bem high-tech começa a roçar o etnografídico. Mesmo assim, a posse deste objecto é indispensável para se engatar e para ser ser assaltado na linha de Sintra.

Conclusão: está in falar ao telemóvel mas está out andar com muitas luzinhas no bolso.


2002 - A moda da Palestina (e salvem Timor!)
Tudo de lencinho ao xadrez, lembram-se? Hoje em dia quem o ainda usa é da Juventude Comunista Portuguesa ou então é bombista suicida.
As vigílias para a independência de Timor-Leste também ficaram muito em voga. Digo isto porque mal os tipos ficaram livres foram esquecidos.


Conclusão: está in lutar pela independência de quem sofre mas está out gostar de países do terceiro mundo.


2004 - A moda do patriotismo
O povo todo numa euforia do Euro resolveu aderir à colocação da nossa bandeira em todos os locais, algumas com uma certa influência oriental. Exaltar a pátria nunca fez mal a ninguém, menos aos americanos mas esses são as personagens do costume. O pior foi o súbito desaparecimento de tudo o que era orgulho nacional.

Conclusão: está in gostar de Portugal mas está out gostar de Portugal.


E agora em 2005, presenciamos algo avassalador: a revolta da criançada.
Enquanto há uns tempos era fashion ler a Playboy, agora é fashion ver os Morangos com Açúcar. Enquanto o auge do sexy era uma mulher de 30 anos, agora o auge do sexy é uma mulher de 12.
E enquanto o raggae, o surf e o bodyboard eram para quem verdadeiramente gostava e entendia o espírto, agora é para o povo todo, só para a figura. Será que vamos testemunhar, à semelhança do chamado desporto-rei, o aparecimento de cromos do surf?


Enganam-se aqueles que pensam que eu defendo um gosto pessoal, é verdade que aprecio esse tipo de desporto e também a música, mas como mero leigo, apenas e só. Porque quando se gosta verdadeiramente de uma coisa, tem que se perceber o que ela significa. E hoje em dia, mostrar uma prancha ou uns pés de pato tem tanto simbolismo como mostrar o relógio novo que se comprou que é tão giro e depois de amanhã compro outro que vai ser melhor.
Enquanto nação somos peritos nisso. É só mostrar, mas entender, está quietinho.


Conclusão: Sou um bocado crítico, não sou? Pelo menos percebo isso, e mais não digo.

terça-feira, agosto 09, 2005

Quanto é que você vale?

Para mim, os tipos que inventaram as médias escolares deviam arder numa fogueira. Ou isso ou eram obrigados a ver um programa do social. Entre um auto de fé e ver tias a comer croquetes como se não houvesse amanhã, venha o Diabo e escolha. Salvo seja, claro está.

O que não consigo entender é como é que as pessoas podem ser comparadas por um numerozinho com tanta facilidade. Faz-me confusão, é só percentagens, e tem tudo medo de se esclarecer. Querem coisa mais sem graça?
Eu cá até acho que roça o gay. Porquê? Simples: achar piada a um valor de zero a vinte já não é muito másculo em si, agora tu só vais para ali e para acolá com mais de xis, é francamente abichanado, não concordam?

Já imaginaram se este sistema escolar se aplicasse às coisinhas mais comezinhas do dia a dia?
Adoro a palavra comezinho. Faz lembrar almoço.

-Olhe queria uma mine e um pires de tremoços, se faz favor.
-Ai agora é assim, quero e dão-me? Ó amigo, quanto é que teve a Introdução aos Estudos Teologais para a Consciencialização da Ingestão de Imperiais e Tremoços?
-É o quê pá?
-É pá se não concluiu essa cadeira, 'tá feito. Qual foi a sua média do secundário?
-Hã?
-Pois, multiplica-a por 45%, adiciona 32% da nota da específica, mais 16% pelo comportamento, 9% pelos trabalhos de grupo e desconta 2% para o IRS. Se for superior ou igual a 12,3... olhe, tente a taberna rasca mais próxima.

Se é que ainda há coisa estúpidas com mais graça neste planeta, há coisas estúpidas com menos graça que sobram. Até pensar que uma nota faz uma pessoa melhor do que a outra, com mais carisma ou assim. Se calhar o Tino de Rans teve melhor média do que o Fernando Pessoa. É comparar o sucesso dum e do outro em Portugal...

Mas as médias não são só um sinal de popularidade hoje em dia. Elas são um autêntico marco de autoridade.

Jéssica Tatiana, vai arrumar o teu quarto.
-Não vou nada. A minha média é superior à tua, por isso arruma-so tu!
-Mas isso não vale, tu não fizeste específicas!
-Mesmo assim não vou.
-Olha que eu pego no chinelo, Jéssica Tatiana.
-Pegas pegas. Com essa nota a Biologia, vê lá se me tocas.

O mundo está condenado.

Sim, já perceberam que este meu post é um bocadinho menos uma aleatória dissertação disparatada e um bocadinho mais uma traumatizada dissertação disparatada. É que eu candidatei-me ao ensino superior há uns dias e nunca pensei que o processo fosse tão doloroso. Mais doloroso, quiçá, do que ver o Preço Certo em Euros com uma enxaqueca de se rebentaram as têmporas, e ter na mão um exemplar de sado-masoquismo para principiantes.
É que eu ainda não percebi muito bem o que fiz, só sei que mexi em papéis, escrevi o meu nome algures e pintei umas bolihas com números lá dentro.

Esperem...
Mexer em papéis?
Escrever o nome algures?
Pintar bolinhas com números lá dentro?

Não, eu acho que não me candidatei ao ensino pré-primário. Foi ao superior, não foi?

Este mundo está cada vez mais louco. Ou sou eu que estou cada vez mais são. Ou então nem por isso, anda tudo trocado.

terça-feira, agosto 02, 2005

Momento da citação subjectiva



William Shakespeare - A Midsummer Night's Dream - Act 3, Scene 1



Sim, é do anúncio das Levi's. Meu Deus, eu sou tão consumista.

quinta-feira, julho 28, 2005

Avistam-me?

Existe uma coisa que eu ainda não assimilei totalmente e já me está a fazer alguma espécie: é um fenómemo recente, é um fenómeno interessante. É o fenómeno das estradas portuguesas que veio para ficar.

É o colete retro-reflector pendurado no assento do condutor.


Hum, esperem, a parte do retro é um bocado assustadora. Não é que a coisa seja dos anos 60, apesar de o fazer lembrar.Também não é que eles tenham luzinhas ao pé do rabo, certo?
É verdade, por vezes a necessidade faz a ocasião, e não há veículo ligeiro algum que possua na sua rectaguarda coisas como aquele célebre autocolante do coelhinho da Playboy que não exiba o dito cujo: o colete do medo®! (Nome original e corajosamente inventado por mim, para o distinguir do malfadado colete retro-reflector.)

Explicação:
O colete do medo® é diferente do vulgar colete reflector, principalmente porque este último guarda-se bem dobradinho na bagageira do carro. O colete do medo não, esta coisa coloca-se no pendura do assento, muitas vezes do passageiro, para dar a entender que cumprimos as ordens, sim senhoras!
Confesso que este novo padrão cultural apanhou desprevenido quem achava que pelo menos nos assentozinhos dos nosso popós o terror não chegasse. Mas o terror chegou. Tal e qual como chegou quando inventaram a expressão saias laterais. É uma tristeza.
É verdade, alguém já alguma vez pensou na vergonha por que um carro deve passar quando o dono grita aos sete cantos do mundo "Olhem, pus umas saias laterais de Citröen Saxo no meu tuning!" Pensam que os carros não se sentem, no mínimo.... abichanados?
Agora a sério: saias em carros? O carro é uma coisa masculina. A pessoa faz a inspecção do carro. Do seu automóvel. Não da carro. Não faz sentido. É como comer Cèrelac com água, mesmo sabendo que é isso mesmo que as instruções dizem. (Os tipos que fazem papa não sabem nada.) Agora imaginem que as vossa mulheres e namoradas um dia resolvem torná-los sósias da Paris Hilton, e comentam com as amigas: "Olhem, pus umas saias frontais da Bershka, um top da miss Sixty, e uma botinha da Stradivarius no meu namorado modificado.Que bomba , não?Agora já tenho alguém para ir comigo aos saldos."
Ainda se sentem tão orgulhosos? Ah pois.

Bem, mas voltando ao inevitável tema dos coletes do medo®... para já tenho que dizer que a sua utilização é útil, principalmente durante a noite. No entanto, são para utilizar à noite. Só à noite. Quando está escuro. Não é de dia, porque de dia até o próprio Pierce Brosnan com um colete do medo® pode-se parecer um pouco menos com o James Bond e um pouco mais com o Zé Toino dos Frangos. E nem me falem dos encontros com este tipo de viaturas. Já imaginaram como será uma simples operação STOP agora que 78,54% da população portugesa aderiu à moda do belo do nylon sobre o assento?

Polícia:
"Bom dia sr. condutor, os seus documentos, fáchavore"
Condutor devidamente equipado: "Com certeza sr. guarda. Quer ver o colete reflector?"
Polícia: "Não será necessário. Já reparei que o possui pendurado no seu assento, no do passageiro e no de trás, atado à volta de uma boneca insuflável."
Condutor devidamente equipado:"Pois, mas repare, eu visto-o! Eu visto-o!"
Polícia: "Ó meu amigo não é preciso!"

Condutor devidamente equipado:"É é! Olhe eu a vesti-lo! Olhe! Agora eu todo nú só com o colete vestido,?! Agora sim, cumpro a lei!"

Lá está. Agora toda a gente cumpre a lei. Já não há bandidos. Será que estar completamente alcoolizado é menos grave do que não ter colete do medo®? Ou melhor, mostrar que tem vários coletes do medo®? Meu Deus, vão acabar com as campanhas de sensibilização sobre acidentes rodoviários e vão começar com campanhas de uma espécie de El Corte Inglês para venderem coletes feitos pelos mais variados estilistas. O modelo Fátima Lopes com certeza só deve tapar a carrapeta dos mamilos. É melhor no Verão.

Outra coisa que deu grande polémica foi a confusão de cores, marcas e feitios antes da lei ser posta em prática. Afinal, um colete dos chineses não é permitido porquê? Digam-me! É porque diz made in China? Mas qual é a peça de roupa portuguesa que não diz made in China? Será assim tão pior que as bandeiras nacionais co pagodes? Acho mesmo que vamos ter de andar todos nus só com os coletes. Isto para estarmos devidamente assinalados.

Apesar de tudo, a presença de uma enorme intelectualidade nesta indumentária é indiscutível: acho que há qualquer coisa fascinante no... não direi pimba, direi antes aportuguesadamente kitsch, que é para não me chamarem excessivamente crítico. Afinal de contas, usar um colete do medo® é negar a sensualidade de cada um de nós: quem é que pode parecer minimamente estiloso com tal saiote saído de um episódio de Os Malucos Do Riso ao peito? Ninguém. Nem mesmo a Jessica Alba. Ok, talvez haja excepções. Foi para isso mesmo que as regras foram feitas. Quanto a mim, por enquanto prefiro um colete reflector normalzinho a um desaustinado colete do medo®! Livra!

The million dollar question

Há dias tive a oportunidade de ver no concurso Um Contra Todos da RTP a seguinte pergunta, bastante poética, a meu ver:

Que animal come com as patas?
1-O cão
2-O pato
3-O gato

A minha resposta?
Mesmo com aquele com, há uma certa brejeirice latente que interrompe um bocado o raciocínio. Estamos aqui estamos a fazer piadas sobre concursos de televisão.

Hum, esperem... ups, acho que já cheguei a esse nível.

Também, com tanta questão já posta, o que hão-de inventar eles a seguir?

Qual das seguintes frases pode figurar numa edição do jornal 24 Horas?
1-Anda cá, qu'as mama-sas!
2-Come over here, that you'll boobies them!
3-Dirige-te ao local onde me encontro neste preciso momento, que eu vou usar os meus dotes para a violência física contra a tua pessoa.

quinta-feira, junho 30, 2005

Como uma virgem (salvo seja)

É verdade que muitos de nós apresentam alguma... não digo aversão, digo antes, curiosidade repulsiva, em relação à música popular portuguesa, vulgo música pimba. Eu sou uma dessas pessoas.
O que eu tenho vindo a reparar é que este sentimento é impressão nossa. Quantos de nós ainda caem no erro de pensar que tais coisas só existem na nossa língua, na pátria de Fernando Pessoa? Ou que lá porque uma música é cantada em inglês, é mais profunda? Desenganem-se, que eu desta venho desmistificar de uma vez por todas o segredo da música ligeira.

Vamos a exemplos?

Vamos a exemplos:

No outro dia estava eu a estudar pacificamente Biologia, quando oiço este grande êxito daquele não menos conceituado José Malhoa, vindo da telefonia do meu vizinho:

E todo a malta gritou,
E até o padre ajudou,
"Aperta, aperta com ela!"...


Execrável, no mínimo, não parece? Mas isto é só ao princípio. Ora interpretemos isto em inglês:

And all the people shouted,
And even the priest helped,
"Squeaze, Squeaze her tight!"


Já fica mais profundo. Vamos agora estabeçecer um paralelismo entre esta música de José Malhoa e vejamos... a de Madonna. Eu sinceramente acho que estes dois artistas têm muita coisa em comum, já que Malhoa e Madonna começam com a mesma letra. M. Lá está. Alguns dos versos de Music são como se seguem:

Hey Mr. DJ put a record on
I wanna dance with my baby
And when the music starts
I never wanna stop,
It's gonna drive me crazy

Music, makes the people come together, yeah!
Music, mix the bourgeoisie and the rebel!

A-a-a-acid rock!


Que na língua de Camões fica qualquer coisa do género:

Hey, sr. D.J. põe lá um disco
Eu quero dançar com o meu bebé
E quando a música começar
Eu nunca quero parar,
Vai-me pôr doida

Música, faz a malta ajuntar-se, sim!
Música, mistura a burguesia e o rebelde!

P-p-p-pedra ácida!


Eu confesso que até admiro uma artista como a Madonna. Agora o que eu nunca faria era aconselhá-la a cantar em português. É que por estes lados, se as pessoas vêem alguém a dizer que pretende dançar com o seu bebé, comentam. E as pessoas de cá são muito linguarudas.

Admito também que a parte da pedra ácida é um bocadinho rebuscada, mas era para dar mais ênfase à questão. O que sinceramente não consigo assimilar é a concepção da hierarquia social aqui presente. Só há burguesia, e depois o rebelde.

Reparem que na cantiga de José Malhoa temos quatro figuras fulcrais: a malta, o padre, "ela" que tem de ser apertada, e o sujeito lírico. Em Music só temos a burguesia e o rebelde. O bebé e o DJ também existem, mas esses não contam porque não interessam na luta de classes.
Mas se queremos aprofundar ainda mais as diferenças, há que ter em conta os versos seguintes de Aperta, aperta com ela:


A banda sempre a tocar
O povo todo a bailar
Aperta aperta com ela


Fantástico. A banda aparece aqui como que uma revelação e o povo já baila, enquanto o "eu" aperta. Eu gosto destas músicas narrativas, a pessoa está ali parece que a ouvir contar uma história, se bem que me parece um bocadinho surreal. Há coisas que não fazem muito sentido, mas provavelmente devem sê-lo assim.

Nós apertámos os dois
Então aí é que foi
Aperta aperta com ela

Amor, amor pois então
Começou nossa paixão
Nesse baile de verão


E aqui está. Esta é uma das mais significativas produções musicais no âmbito da lírica portuguesa, e a meu ver transmite-nos mensagens tão inesquecíveis como o padre que "ajudou". Não sabemos bem o quê, nem como, mas o padre ajudou.

José Malhoa não está a insinuar que era tão tanso que teve que ser o pároco da sua localidade a encorajá-lo a fazer-se à moça, certo?

Eu espero que não, por isso é melhor fazer que não entendo que o padre não ajudou. Deu uma dica, pronto.

Agora, meus senhores e minhas senhoras, Ashlee Simpson:


You can dress me up in diamonds
You can dress me up in dirt
You can throw me like a line-man
I like it better when it hurts

Oh, I have waited here for you
I have waited...

You make me wanna la la
in the kitchen on the floor
I'll be a french maid
Where I'll meet you at the door
I'm like an alley cat
Drink the milk up, I want more
You make me wanna
You make me wanna scream


Em inglês já se faz ideia, mas vejamos como fica em português. E quando digo português não digo português versão miúdas com menos de 16 anos que possuem photoblogs. Mas falarei disso noutra altura.

Tu podes-me vestir em diamantes
Tu podes-me vestir em sujidade
Tu podes-me atirar como uma coisa
Eu gosto mais quando aleija

Oh, eu esperei aqui por ti
Eu esperei...

Tu fazes-me querer lá lá
Na cozinha, no chão,
Eu serei uma empregada francesa
Onde te vou encontrar à porta
Sou como uma gata vadia
Bebo o leito, quero mais
Tu fazes-me querer gritar


Pois é, mas ver a irmão mais nova de Jessica Simpson a querer fazer lá lá é no mínimo supreendente. E confesso que me agrada a ideia da gata vadia: é... arrojada. Acho que me vou tornar fã de Ashlee Simpson.

De qualquer das formas, após a análise destes pequenos excertos de algumas músicas que se podem ouvir no quotidiano, posso concluir que o povo português é extramamente previsível: não estou a ser, nem quero ser anti-patriótico, mas não sei se já repararam que nós temos um comportamento igualzinho não só nos sons que ouvimos, mas também na roupa que vestimos, na comida que compramos, nos detergentes que usamos, e até nos amigos com quem andamos. Roda tudo à volta do invólucro, quando na realidade é exactamente a mesma coisa por dentro.

Quero dizer, com os amigos já é um bocadinho diferente.

Mas na pornografia não, por exemplo.

A pornografia é um ramo artístico em que eu acho que as discriminações mais se aplicam. Afinal, porque é que Giovana, a colegial, é melhor que Sheyla, a garota gulosona? Hã?
É porque a última, por ser gulosa, deve ser obesa? Isto tem que se interpretar tudo no seu contexto, não pode ser assim.

Depois deste desesperado momento de esquizofrenia sexual, acabo assim este post sobre música. Tudo a ver, não acham?
Este blogue está cada vez mais enriquecedor. Começa-se com José Malhoa, acaba-se com ídolos do Sexy Hot. Até era capaz de continuar, mas é melhor parar, que isto já vai muito à frente.

Concluindo, cada vez que ouvirem uma musiquinha, seja ela ligeira, seja ela pop, atentem na letra. Poderão encontrar mensagens úteis para a vida. Eu aprendi a apertar com ela.

...

Meu Deus, falar em apertar com ela no fim de se falar de sexo, já é abusivo, no mínimo. Over and out.

sábado, junho 25, 2005

Há palavras que não deviam desaparecer

Venho por este meio expressar o meu mais profundo sentimento de defesa para com alguns dos vocábulos que, infelizmente, se encontram em sérias vias de extinção. Ou nem por isso.
É verdade, tenho repararado que há palavras que estão a deixar de ser ouvidas nos nossos dias, e esta cruel ostracização, no meu mais sincero ponto de vista, é profundamente injusta.
Muito boa coisinha nunca seria o que é se não fossem as palavras que lhe deram origem. Origem essa como a palara "arrebentar". Por esta razão, depois de algumas semanas de pesquisa em vários dialectos (alguns mais etnografídicos que outros), consegui encontrar verdadeiros tesouros da língua portuguesa. E, meus poucochinhos leitores, aproveito este glorioso momento para vos pedir, melhor, para vos implorar, que não deixem nunca morrer estas expressões.

Podemos começar com uma palavra que eu gosto muito.Eu gosto muito de muitas palavras, mas esta é muito bonita, é a palavra carrapeta.
A própria sonoridade de carrapeta é mágica: é que a tudo o que seja menor que um cotonete podemos chamar isto com a maior das descontracções.

Exemplo 1:(este dito por uma simpática etnografídea da minha turma)
"No outro dia gamaram as carrapetas das jantes do carro do meu namorado!"

Exemplo 2:
"Bem tentei consertar a lâmpada, mas tinha a carrapeta estragada.
"Não queres dizer o casquilho?"
"Pois... isso. A carrapeta, prontos."

Temos também a expressão açambarcar, que é uma coisa linda.
De acordo com o dicionário, esta alegre palavrinha significa acumular mercadorias em grande quantidade para provocar a sua falta no mercado e vendê-las depois por preço elevado. Monopolizar, digam antes.
O pior é que na actualidade muito pouca gente monopoliza. Quero dizer, monopoliza, só que eu pelo menos só o faço quando preciso, ou seja, quando estou a jogar ao jogo que se chama Monopólio. E não é todos os dias, nem todas as pessoas estão dispostas a isso, já que eu acho que é preciso muita falta de amor próprio para se deixar representar em jogo por coisas como um ferro de engomar, uma bengala, ou um outro brinde do bolo rei. Eu pelo menos não estou.
Agora imaginemos que açambarcar começa também a significar coçar as partes baixas. Acredito que a partir deste momento muitos grandes empresários começem a falar de açambarcar à séria e que muitas das multinacionais já o façam com todo o orgulho.
Construir um império económico inteirinho por puro açambarcamento não deve ser pêra doce.

Arrebita e bardajona são dois termos engraçados, e que na minha opinião não se podem separar. Se uma pessoa diz a palavra arrebita numa frase, 99,98% das hipóteses indicam que, mais tarde ou mais cedo, vai usar a palavra bardajona. É fatal como o destino.

Exemplo:
"Aquela modelo arrebita bastante, pena é ser tão bardajona."


Muito provavelmente devem-se estar a questionar como raio me vou eu lembrar destas expressões. E eu digo-vos. É fácil. Não precisei assim de tanta investigação: eu vejo o "Fiel ou Infiel".
É que neste "pograma" as pessoas falam como se ouvia no tempo em que a revista Gina ainda era famosa. Para dizer a verdade, eu acho que os grandes estudiosos da gramática não devem dormir nas Sextas-feiras à noite, tão desertinhos que devem estar para ouvir novas construções, e assistir a uma verdadeira ressurreição de palavras nunca mais ouvidas.
É que são verdadeiras cataratas de insultos uns a seguir aos outros. Para comprovar a fonte de toda a minha inspiração, deixo aqui um excerto do discurso de um suposto namorado traído.

Exemplo:
"Olha para aquilo! Olha para aquilo! Bardajona! Porcalhona! Queres é que to apalpem!Arrebita-so pouco, arrebitas! Queres é mexerem-te nas mamas! Olha! Eia! Eu tas digo ó minha vaca leiteira, eu tas digo! Olha, já está só a mostrar a carrapeta ao outro! Porca!"


Carrapeta. Cá está. E é assim, cabe-nos a nós, e a alguém com sotaque abrasileirado, perpetuar estes conjuntos fonéticos que tanto nos identificam. Mai' nada!

terça-feira, maio 24, 2005

O Guia Essencial Para A Piada Fácil, ou Silêncio Avassalador Para Totós

Resolvi começar a escrever, depois de tanta (infeliz) experiência própria, um manual da ajuda para todo o pessoal que por aí anda; em especial aquele pessoal que que é muito chalaceiro, e ainda mais em especial aquele pessoal que acha que o futsal é, sem sombra de dúvida, o desporto mais completo e com mais fair-play. Esses serão os meus leitores-alvo para esta teoria.
Isto de ter leitores-alvo é algo embaraçante, quando só cerca de 2 pessoas (a contar comigo) lêem o meu blogue: a outra pessoa é a que no próprio dia teve o azar de se encontrar com a minha pessoa, levar um amasso, e finalmente ler aqui algumas coisas. Ah, e já agora, nenhuma delas se encaixa neste grupo: as pessoas a quem eu falo nem sequer têm pachorra para ler isto, logo este é definitivamente um artigo com uma variante algo "metafísica pela anti-metafísica". O meu blogue está a subir de nível intelectual, upa upa.
Continuando...
Meus leitores-alvo e não-alvo, que melhor maneira de entreter um serão aborrecido a ver o "Preço Certo em Euros", do que um conjunto de concisas e bem apimentadas piadas fáceis?
A piada fácil (piadis facilis) ou piada seca (piadis secus) é um conceito que já predomina desde o começo da História da Humanidade. Muito provavelmente, começou a ficar uma coisa popular quando o então imperador romano, Caio Júlio César, se lembrou de contar uma história jocosa entre um escravo e um elefante a dançarem num vomitorium. A resposta não se demorou, e aliás, é por isso mesmo que conhecemos César como o imperador morto à traição com uma faca espetadinha no meio das costas.

Contudo, a grande expansão da piada fácil é devida ao exponencial desenvolvimento humano durante o século XX, que facilitou também o surgimento de pseudo-elitistas que tinham a mania de inventar “piadas difíceis”, adoptando este neologismo ainda considerado incorrecto. Esta distinção, cujos limites confesso desconhecer em exactidão, muito provavelmente deu-se quando se começaram a fazer piadas sobre supositórios (grandioso tema de piadas fáceis) e sobre o livro “Memorial do Convento”, de José Saramago (grandioso tema de piadas difíceis).

Qualquer piada seca divide-se em quatro partes, ou momentos discursivos, lógicos:
1º- O tradicional “Oiçam lá esta!";
2º- A explicação propriamente dita;
3º- O riso forçado por parte do narrador, normalmente uma gargalhada vaga tipo “AHAH!”;


E finalmente, o momento discursivo crucial, que marca só por si o centro de toda a piada fácil. Sim, meus senhores, é o memorável
4º- Silêncio Avassalador.

A parte mais importante, ou melhor, o objectivo da piada fácil é o silêncio avassalador. Não há momento triste que não presencie um, e maneiras de lá chegar não faltam.
Para rematar a minha tese, gostaria de finalmente aqui deixar alguns exemplos de piadas fáceis, que poderão ser extremamente úteis para a próxima vez que quiserem igualar a vossa qualidade humorística à dos “Malucos do Riso”.

Devirtem-se!

O médico diz para o paciente: “Então ó meu amigo, o que é que lhe dói?”
Diz o paciente. “Ó s’outor, nada!”
Ao que responde o médico: “Nada?! Ah, quem nada não se afoga!”

“Como é que se chama um gato?”
“Não se chama, chamam-no!”

“Quanto é que é uma lâmpada mais outra?”
“Duas!”
“Não, uma iluminação dupla!”

Um homem vai ao talho e pergunta:
“Desculpa, tem orelha de porco?”
Ao que o homem do talho responde: “Não, você é que parece ter, com esse brinco gay!”

“O que é que um peixe diz para o outro?”
“Estou apeixonado por ti!”

Ok, chega de suplício, ou ainda tenho que pagar uma indemnização ao Blogger por violar um espaço cibernético com comentários desrespeitadores e profundamente perturbantes.
Mesmo assim, atrevo-me a acabar de vez (ou para dizer em inglês, que é mais coiso e tal, to go out with a bang) com esta jóia de piada fácil, sugerida pelo meu professor de Biologia:
"Qual a semelhança entre uma bola de basquetebol e um tijolo?"
"Ambos saltam, excepto o tijolo."

Esta sim, criou um silêncio avassalador, não criou? Mission Accomplished.
Eu já mandei a minha piada fácil hoje! E você?

quinta-feira, maio 19, 2005

The Cat Killer!

Animais de todo o mundo, oiçam-me!

Anda por aí alguém que vos quer matar!
Anda por aí alguém que vos quer maltratar!
Anda por aí alguém que vos quer drogar!
E esse alguém tem menos de metro e meio!


Este aviso é para todos os seres do reino Animalia no geral; em particular aqueles que fazem miau, cospem bolas de pêlo e fazem chichi no telhado. É sempre bom estarmos prevenidos e esta tese é estritamente fundamentada, logo é de plena confiança, meus fiéis amigos felídeos.

Acontece que há uns dias atrás tive a oportunidade de conhecer o alter ego perturbador de uma rapariga da minha turma, que, segundo a mesma,

"Os gatos vadios é daqueles animais que a gente podemos fazer coisas."

Ela faz coisas com os gatos vadios. E eu tremo só de pensar que coisas.

Estávamos todos em mais uma alegra aula de Matemática, quando, no meio da aula, se ouve algo tão relacionado com a representação geométrica dos números imaginários no plano de Argand como:

"No outro dia apareceu-me lá um gato vadio e eu envenenei-o. Foi bué da
fixe."


Pelos vistos, um inocente gatinho andava esperançado de encontrar algum conforto na casa daquela humana. Mas o que encontrou foi algo muito longe do humano: deparou-se em frente de uma autêntica maníaca, que o fez engolir uma cápsula inteira de Nolotil pela goela abaixo. Eu ainda acho que ela lhe deu aquilo pela via oral. Nem quero pensar se ela se atreveu a inserir o medicamento pela outra extremidade. É arrepiante apenas a consideração.
O efeito do Nolotil não foi muito tardio: passados 2 minutos, "assim que aquilo lhe caiu na língua", o mamífero começou a babar-se que nem eu a ver uma miúda gira.
Ok, é mentira. Eu não me babo. Por favor não fujam de mim na rua, miúdas giras.
Resultado, o gato estava total e completamente mais para lá do que para cá. Mas acham que a minha intrépida colega cessou a sua tortura sadística? Não, tirem o cavalinho da chuva! Ela não se fez rogada lá porque o gato já estava atordoado. Largou-o

"no meio das vinhas, aquilo devia lá ter cobras..."


Muito sucintamente...
Quem é que neste mundo se lembra de drogar um gato a soltá-lo no meio do matagal? Quem, meu Deus, quem?!
Isto é uma vergonha, isto é um escândalo, isto são uns desavergonhados. Normalmente aqueles medicamentos usam-se para tirar as dores. Nas PESSOAS. O Nolotil é para tirar as dores nas pessoas. Agora drogar o pobre de um animal com analgésico para o pós-operatório?! Isto pensa-se? É um crime hediondo.
Surpreendentemente, e contra todas as espectativas, o gato não morreu. Soube há uns dias que ele voltou a aparecer, e segundo a agora pseudo-ilibada assassina,

"o gato 'tava a sangrar pela pilota, e tomates, nicles"

...
Reflictam nesta afirmação.
...
Estou a falar a sério. Procurem bem o conteúdo disto.
...
Confesso que demorei algumas horas até conseguir descodificar a mensagem. O código linguístico deste espécime é bastante imperceptível, pensam o quê?
De qualquer das formas, há cinco minutos finalmente me apercebi que ela estava a referir-se ao reaparecimento do gatinho sim, mas também ao desaparecimento de alguns dos orgãos do sistema reprodutor da pobre criatura. Só me apeteceu chorar.
Este post foi escrito em honra de todos os Miaus que são esquecidos, abandonados, torturados, atropelados, obrigados a ouvir música pimba, etc..

segunda-feira, maio 16, 2005

Intelectualidade

O bacalhau quer alho.
É o melhor tempero.
Quem comer alho
Fica rijo como um pêro.


E depois ainda dizem mal dos nossos poetas.

sábado, maio 07, 2005

Top 5 das coisas mais tristes

Eu acho que um blogue não é um blogue sem um Top 5 escolhido ao calhas pelo seu intrépido e resoluto autor. Os Tops 5 têm sempre aquele quê de demonstrar um pouco a personalidade de quem os elege. Mas no meu caso, isto não se aplica. Nem um bocadinho.
A razão é que eu vou aqui deixar, pela primeira vez, um Top 5 dos seres com a vida mais triste deste mundo. Sim, eu sei, nos tempos que correm não são poucos, há bastantes candidatos a esta lista maravilhosa.
Mas as selecções são isso mesmo. E se os americanos conseguem fazer coisas como invadir países só por causa do petróleo, os americanos que são americanos, então eu sou capaz de fazer um Top 5 das criaturas mais tristes à face da Terra. Olaré.
Aqui estão:

Em 5º Lugar: O SUPOSITÓRIO
Este é um clássico. Qualquer piada fácil terá sempre que acrescentar o conceito de supositório. Logo aí a vida deste é triste. Mas para sermos mais analíticos, há que reparar que este objecto sofre que se farta.
Começa-se logo pelo sítio por onde entra. Supostamente é para ajudar o nosso sistema imunitário, só que a sua recepção não é propriamente a mais arejada nem a mais luxuosa.
Eu, se fosse um sistema imunitário, recusava terminantemente toda e qualquer ajuda que viesse... por ali. É gozar com a cara de qualquer organismo vivo. Não há outras maneiras? As injecções servem para quê?
A própria forma do supositório é mesmo para nos irritar. Sim, aquilo tem a forma de um foguetãozinho como que se nos estivesse sempre a lembrar onde o devemos pôr. É um autêntico ultraje.


Em 4º Lugar: OS TORNOZELOS DO COME-AS TODAS
O Come-as Todas é um ser já bastante infeliz de si mesmo, mas os seus tornozelos são os que mais sofrem. A pergunta é óbvia:

Mas porquê?


Porque não há dia, faça chuva, faça sol, faça lusco-fusco, que aqueles tornozelos etnografídicos não estejam cobertos com umas fluorescentes e repimpantes meias brancas. E isso é bastante chocante. Principalmente quando essas mesmas meias exibem aquele típico brasão das duas raquetes de ténis cruzadas, de cor encarnada, para combinar com os seus sapatos castanhos escuros. Eu ainda estou para pesquisar a verdadeira fonte genesíaca daquele símbolo tão tradicional.
Por esta razão, os tornozelos do Come-as Todas merecem ser considerados o 4º ser mais infeliz.


Em 3º Lugar: O CAPITÃO IGLO
Resolvi colocar esta personagem no Top porque o Capitão Iglo é um autêntico vencido da vida.
Tenho que confessar que em pequeno era um daqueles miúdos que acreditava que o Capitão Iglo nunca morria. Mais do que acreditar que a súbita e frequente mudança de aspecto do alegre capitão era totalmente aleatória e impressão minha, era uma convicção. Agora que penso nisso, é um bocado sem lógica nenhuma, mas pronto.
Eu penso que o Capitão Iglo é um infeliz porque, se para o mundo dos douradinhos ele era capitão, para o resto do mundo nunca passou de uma imagem publicitária. E isso é angustiante. Afinal de contas andou ali um tipo a dar a cara e a trabalhar no duro durante anos a fio e nem uma medalhazita. Pensam que manter a paz no mundo dos congelados é fácil? Acham que travar o conflito entre as ervilhas e as batatas pré-fritas é a mesma coisa que ir ali à esquina e voltar? Não, meus amigos, não, e tanto trabalho que teve o grande Capitão Iglo que nem na marinha deve ter sido alistado. Por isso merece estar no Top 5 dos seres mais infelizes, em 3º lugar.

Em 2º lugar: OS FILÓSOFOS EXISTENCIALISTAS
Esta, apesar de tudo, é um bocado óbiva. O existencialismo é uma corrente de pensamento que basicamente, é para quem não tem mais nada em que pensar.
Hey, é só a minha opinião, vale o que vale.
Isto porque para mim, os filósofos existencialistas são grandes intelectuais, só que são grandes intelectuais com uma grande falta de sexo. Como é que eu sei estas coisas?
Tomemos o Jean-Paul Sartre, por exemplo. Era um grande pensador, mas se repararem com alguma atenção em alguma foto deste verdadeiro galã, ele tinha um olho virado para Coruche e outro virado para Santarém, e isso não devia ser propriamente sexy. Ora o que é que o nosso amigo faz?
"-Olha, deixa eu cá pensar na angústia que é ter condicionantes impostas no rumo da minha vida. Não me vou revoltar com o facto de as miúdas não olharem para mim, não senhora. Vou-me antes revoltar com o conceito de Deus, e com a eterna e insuperável impotência do Homem aquando comparado às leis que regem todo o Universo. Bolas."
E pronto, têm um filósofo existencialista. No fundo, tudo o que eles querem é sexo. Dêm sexo aos filósofos existencialistas. Enquanto não dão, estes ficam com o 2º lugar do Top 5 dos seres com a existência mai'triste. Perceberam, existência? Hum, esqueçam, piada fácil.

E em primeiríssimo lugar....

O BONECO DO MULTIBANCO
Este é defintivamente a criatura com a vida, se é que a tem, mais angustiante e encarcerada de todas.
O boneco do multibanco vive num pequeno ecrã, e é obrigado a apresentar-se sempre com um sorriso na sua boca 2-D. "Por favor introduza o seu cartão", "Por favor digite o seu código", "Por favor seleccione a quantia que pretende levantar." O boneco do multibanco é um escravo. Faz tudo o que lhe mandam fazer e nem resmunga, não ganhando absolutamente nada em troca. Quando a máquina está encravada, lá é obrigado a fazer uma cara tristemente enternecedora. E sofre em silêncio.
Apesar de tudo, o que choca mais nisto é o facto de, se ele adivinhasse que em cada quarteirão há uma personagem igual a ele, sem tirar nem pôr, ainda ficaria mais deprimido.
E porque raio é que não há nenhum sindicato para os bonecos do multibanco? Eles não merecem? É que ainda por cima nem direito a reforma devem ter. Em vez de descansar, são postos na Reciclagem do Windows.
Isto é um apelo, meu leitor: trate os bonecos dos multibancos com jeitinho, pergunte pela mulher e filhos, se é que ele os pode ter, a próxima vez que quiser consultar o seu saldo.

E pronto, assim acaba o Top 5 das criaturas mais infelizes deste mundo. Se quiserem um Top 5 das criaturas mais felizes, é fácil, são eles em primeiro lugar ex-aequo:

- O tipo que anda com a Christina Aguilera;
- O tipo que anda com a Paris Hilton;
- O tipo que anda com a Lindsay Lohan;
- O tipo que anda com a Lucy Liu;
- O tipo que anda com as gémeas Olsen.


Façam os vossos Tops! É sempre giro. Ou nem por isso. Sejam é felizes!

quarta-feira, abril 27, 2005

É o fim das monarquias!

Como não podia deixar de ser, após mais umas celebrações do lendário 25 de Abril, tinha que aparecer mais uma igualmente lendária teoria.
Afinal é para isso mesmo que os blogues existem: é para escrever, dar ar de pseudo-intelectualóide quando na rua se disser: "Eu tenho um blogue", e para assar farinheiras. Sim, é verdade.
Se se sentirem curiosos de como é possível assar farinheiras utilizando nada mais que um blogue e um ecran de computador, mandem-me e-mail. Se souberem mesmo como, mandem-me e-mail na mesma porque eu adoraria descobrir.

Apesar de tudo isto, já alguma vez imaginaram se o 25 de Abril nunca tivesse existido? Vá, pensem bem.
No outro dia estavam umas pessoas na televisão a dizer que o 25 de Abril foi o fim das monarquias, e outras a dizer que foi a independência de Portugal. O que eu proponho é analisar esta situação:

Ora bem, pela lógica, se nunca tivesse acontecido a tão afamada revolução dos cravos, cada vez que nos tivéssemos de dirigir a um superior hierárquico, teríamos que o tratar por vós. Pior, andávamos todos por aí a falar espanhol. Ou marroquino.

Isso sim, seria mau, porque nunca terámos acesso àquela palavra que é tão só nossa, que representa na perfeição o estado de espírito lusitano, e as nossas esperanças num futuro melhor. Estão a ver qual é,não estão? É claro que sim. É a tal. A bela palavra desenrascar.

E se o 25 de Abril nunca tivesse sido, nunca teríamos feriado nesse dia. E estragar um potencial fim-de-semana prolongado é algo chato. Ninguém gosta de ficar sem uma pontezita.

Bom, mas agora gostava de fazer o meu relato pessoal, não da revolução em si, porque nasci uns bons 17 anos depois, mas do meu conhecimento acerca dos factos.
A minha primeira descoberta em relação ao 25 de Abril de 1974 foi na 3ª classe, em que finalmente descobri que os foguetes que se lançavam não era propriamente porque o meu pai fazia anos, era porque alguma coisa se tinha passado nesse dia. Eu lembro-me da minha professora dizer que "Antes do 25 de Abril as pessoas não podiam falar", e disso me constrangir profundamente.
As pessoas antes do 25 de Abril para mim eram surdas mudas. Literalmente. Há coisas que as crianças de 8 anos não percebem completamente, mas pronto, não podiam falar, não podiam falar. Deviam ser estilo aqueles tipos irritantes que pintam a cara de branco e imitam as pessoas.
Outra bela memória da qual me recordo mais ou menos bem foi de a alegra tutora nos informar de que "Antes do 25 de Abril havia guerras", e de eu perguntar "Então e agora?", e um avassalador silêncio se instalar em toda a sala de aulas. A resposta mais concisa foi "Não faças barulho ou levas com a cana".
Digamos que as minhas primeiras experiências com os conceitos de 25 de Abril e de liberdade de expressão foram um bocadinho confusas.

Mas já alguma vez imaginaram o que seria de coisas tão importantes para a nossa identidade cultural, como reality shows, se não se pudesse fazer nem dizer por aí à tonta tudo o que se quisesse?
Onde é que ouviríamos coisas tão belas como "Bardajona!" ou "Ganda porca, andastes foi a meter os palitos ao teu marido!"? Porque estas coisas são poesia meus caros, estas coisas SÃO poesia. E não devem nunca ser ignoradas.
E porque é que dizem que a censura acabou se não se pode fazer sexo louco em público? Se fosse feito por miúdas giras, eu e mais grande parte da população masculina deste país agradecíamos. Se isto não acontece ainda temos censura. É a vida.

Bem, de qualquer das formas, na minha opinião ainda há muita coisa que se poderia modificar, na medida em que ainda andam por aí muitas coisas que podem comprometer a nossa liberdade pessoal. E se fosse por mim os palmiers recheados iam à vida. Mais nada.

sábado, abril 09, 2005

Filosofia útil

Para qualquer um de nós, a mais insignificante das coisas pode conter uma grande mensagem. Há quem ache que a Natureza pode transmitir grandes ensinamentos. No meu caso, apesar da Natureza ter uma boa parte da minha reflexão interior (ou nem por isso), penso que consigo sempre entender ali qualquer coisa no que toca a coisas como estendais de roupa voltados para a rua. Mas primeiro vamos reflectir:

Qual é o sentido disso?


É precisamente por não haver nexo nenhum em observar aleatoriamente estendais de roupa, que eu mesmo vou esclarecer mais esta disparatada tese. Afinal, acho que qualquer mortal se questiona, a dado ponto da sua vida, qual será a verdadeira essência de um par de cuecas de tamanho XXL viradas do avesso a ondular ao vento, qual bandeira nacionalista.
Primeiro, há que conhecer o modelo típico, voltado para a rua. Eis as características mais comuns:

1º - Um par de meias brancas. A meia branca é quase um símbolo nacional, senão mesmo um padrão de identidade. Qualquer estendal que se preze necessita de pelo menos uma meia. É um bem incontornável;
2º - As belas das cuecas "Extra Extra Large", de homem ou senhora. Se estiverem seguradas por uma mola amarela e outra azul ainda melhor. Dá mais cor;
3º - Um chachecol de um clube de futebol. Pode nem estar molhado. Pode até mesmo lá estar só para a figura, mas há que mostrar as preferências em tudo na vida;
4º- Um peluche, uma corrente de bicicleta, um bocado de mangueira, qualquer coisa assim. É curioso, mas encontramos sempre as coisas mais impensáveis pelas varandas das ruas fora;
5º- Um avental com letras a dizer : "GOSTO DE SEXO".

Este cinco componentes combinados produzem efeitos inigualáveis. E eu acho que aquilo é uma espécie de código Morse. Só que do estilo roupa interior.


Esta analogia foi algo infeliz, não foi? Estes são pensamentos um bocadinho para o infelizes. Mas eu tenho que os escrever. É a vida.
A minha teoria é, como já repararam, que nós podemos retirar as mais belas mensagens através dos estendais de roupa. Algumas roçam o poético, outras nem por isso. Já me atrevi a imaginar se se aplicasse todo o universo "estendalense" à linguagem do dia a dia. É curioso, o que seria das bases militares?

"- Alfa 1, Alfa 1, daqui Águia Prenha. Têm cueca cor-de-rosa para aterrar. Repito, Alfa 1, têm cueca cor-de-rosa para aterrar. Over"

E da política?

"- Boa noite. O excelentíssimo senhor primeiro ministro autorizou os planos meia rota e cinta apertada. Daquela loja que vende iogurtes e detergentes ao virar da esquina."

Hum, não me parece. Muito sinceramente, não me parece.
Quer-se dizer, no fundo, no fundo, isto não é uma crítica aos estendais de lado algum. Até porque os estendais de roupa personalizam sempre as casas por fora, e mostram o que está por dentro. A menos que se faça tuning de estendais, e aí a ideia torna-se assustadora, e entramos num campo de estética algo complicado. Começarmos a ver luzinhas de néon roxas a piscar no meio de soutiens é realmente perturbante.

De qualquer das formas, se na próxima vez que, ao andarem na rua, repararem nesta pièce de resistance da arte de pendurar roupa algo molhada, pensem no que podem significar umas ceroulas estendidas. Nunca se sabe até que ponto se pode retirar conselhos que possam ser úteis para o resto da vida. E para o resto do minuto também.
Isto sim é filosofia útil.

Ah pois!

Ontem, dia 8 de Abril, tive uma oportunidade única.
Não, não foi apalpar o rabo da Britney Spears. Foi quase tão bom quanto isso.
Acontece que fui ver o espectáculo ao vivo do Gato Fedorento. E adivinhem o quê.

O Quê?


Calma, primeiro, vou falar do espectáculo propriamente dito: estava muito bom mesmo. Quase tão bom como o rabo da Britney Spears (O que é que querem, agora que pensei nisso a ideia não me sai da cabeça! Bolas!). Devo dizer que a capacidade de improvisação daqueles tipos é inigualável, e que qualquer um dos seus sketches ao vivo é fantástico. E tinham umas bailarinas jeitosas, o que ajudava. Contando com a filha do produtor e tudo.

Quando o espectáculo acabou, fui à caça de autógrafos, e claro, aproveitei para zucrinar (que é uma palavra bem bonita) as cabeças deles, para visitarem o meu blog. Afinal, "eles são os meus fãs"!

Aqui ficam os depoimentos:






Ah, e tal!

domingo, março 13, 2005

30 por uma linha... vamos pensar...

Sempre me meteu muita confusão a frequência e a descontracção com que a maior parte das pessoas utiliza uma expressão que na minha opinião é no mínimo... duvidosa.
Mas que raio de força sobrenatural deve mover a população, nomeadamente a que fala português, a dizer...
Trinta por uma linha.
É que não se vê mesmo em mais lado nenhum. Só em Portugal.
Querem provas? Alguma vez ouviram falar de "thirty for one line", ou "trente par une ligne"? Não. Claro que não, ó pessoal. Não faz sentido, é estilo estarmos em casa sozinhos, mas fechar a porta da casa de banho para se ir mudar a água às azeitonas. Há coisas que não fazem sentido e esta expressão é definitivamente uma delas. Quanto mais não fosse num restaurante chinês, mas também tlinta pol uma linha não é coisa comum de se ouvir, penso eu.

Mesmo assim, eu, que fabricar teorias é a minha especialidade, atrevo-me (e meus leitores, isto é inédito) a explicar todo o processo e todo o conceito deste mundo que é o trinta por uma linha.

Primeiro... de onde vem? Qual a sua origem?
Não me venham historiadores nem estudiosos dizer mentiras: eu penso que das duas uma: ou surgiu em tempos pré-históricos, ou então emergiu com o aparecimento da música pimba.
Porquê? Qualquer uma das hipóteses é válida porque nas duas há a frase "Eu gosto de mamar nos peitos da cabritinha". Só que numa é por questões de sobrevivência, e na outra é porque o Quim Barreiros parece estar estranhamente fixado nos seios de um mamífero. Isto é lógico. E coiso.

O segundo porquê poderá ser definitivamente a razão do número trinta.
Podia ser 567 por uma linha. Podia ser 45 por uma linha. Mas NÃO. O próprio 31 está reservado para quando acontece uma grande confusão. É 30 por uma linha, e não há mais hipótese. Será que eles burocratizaram a expressão no Registo Civil?
Vamos supor um diálogo:
Progenitora em pânico: "-Olha, o Joãzinho partiu a sala toda! Fez 30 por uma linha!"
Outra pessoa: "-3o por uma linha. Tens a certeza?
Progenitora em pânico: "-Tenho."
Outra pessoa: "-Não terá sido antes 23 por uma linha?"
Progenitora em pânico: "-Não, foi 30. Trinta por uma linha. É o que consta no artigo 16º de 05/2003. Se fosse 23 estaria de acordo com os dados do artigo 7º de 04/1997."
Outra pessoa: "-...Ok."

Ainda por cima trinta por uma linha soa algo a slogan para vender armas automáticas. "Kalashnikov, mata trinta por uma linha!"
Ou a deixa de filme pornográfico:
"Sarona, me faz trinta por uma linha, sua gostosona!"

De qualquer das maneiras, e em qualquer um dos casos, parece permanecer uma questão no ar, que vocês com certeza agora irão pensar:
"-Epá, este tipo é um génio. Dêem-lhe um Pulitzer. Ou o Nobel. Como é que ninguém se lembrou disso?"
E é a mais pura das verdades.
Imaginemos que o talhante lá do supermercado fez trinta por uma linha para amanhar o frango.

Ok, só que... trinta por uma linha... DE QUÊ?
Esperem...

O talhante toma drogas pesadas?
Esta visão é aterrradora. E a pergunta no mínimo inquietante.

Já agora, alguma vez imaginaram um próximo blockbuster americano com a celebrizada frase?
"-Oh Mary!"
"-Oh John!"
"-Oh Mary, I've done thirty for one line just to be with you!"
"-Oh John... you've done thirty for one line... of what?"
Wait...
Does John take heavy drugs?


Conclusão: Há que manter uma extrema precaução com o trinta por uma linha. Se não tivermos cuidado, garanto-vos, a maldita expressão irá dominar a nossa civilização. E tudo acabará suspeito de tomar drogas pesadas. Ou isso ou acusado de ver demasiados realitty shows.

Coidade, coidade!

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Uma bela noite em Braga

De todos os mais esquisitos e recônditos bares que alguma vez visitámos em todo este vasto Portugal, devo dizer que a disco que frequentámos na nossa noite de Carnaval em Braga, dia 7 de Fevereiro de 2005, era no mínimo... peculiar.
E peculiar porquê?

Eram cerca das 10 horas da noite quando andávamos perdidos que nem aqueles tipos que vendem Bíblias de porta em porta. Andávamos, andávamos, desesperados por aconchego. Oh para nós.
E o que vimos passada meia hora a caminhar desesperadamente por uma cidade nortenha?
Uma discoteca.
Gosto desta palavra, vou repetir:
Discoteca.
Ok, já chega.
Era um night-club chamado Populum. Populum esse que estava com dezenas de pessoas à porta, desertinhas por entrar.
Desertinhas por entrar numa discoteca às 10 e meia da noite.
E nós : “’Tá bem.”. E lá entrámos.
Dez belos Euros foram gastos na entrada. Mas acho que a senhora que lá estava me confundiu com o Rei de Portugal, porque quando eu lhe perguntei se podia levar umas serpentinas que estavam em cima do balcão, ela respondeu-me “Podeis levar à vontade”.
Tratou-me por vós. Isso sim, é respeitinho.
Havia uma velhota da minha rua que me dizia que eu de perfil podia ser facilmente confundido com o D. Afonso Henriques. Pelos vistos tinha razão.

A simpatia dos empregados lá era evidente, porque para me servirem uma Coca-Cola apenas tive que esperar 45 minutos. Achei a empregada que me serviu ligeiramente matulona, e algo horrorosa, mas ignorei, porque nos estávamos todos a divertir, e porque ver a professora Marie a sambar loucamente não tinha preço.

Eram para aí 1 e 20 da manhã quando o DJ, mascarado a qualquer coisa que não sei bem identificar, começa a passar O-Zone. Ora quem lê o meu Blog sabe muito bem a minha opinião acerca destes… artistas. Bem, adiante.
E o que aparece ao som de Despre Tine, ao mesmo tempo que a pista de dança se enche de luzinhas e flashes de todas as cores?
Duas bailarinas vestidas de coelhinhas, feias como o pecado, e gordinhas que nem chibos.
E nós : “’Tá bem.”.
E eis quem acompanha as duas meninas? Um daqueles tipos bem musculados e oleosos, com a bela da tanga verde-alface-fluorescente.
E nós : “’Tá bem.”.
Nem todos, mas pronto.

No entanto, começámos lentamente a apercebermo-nos de como o ambiente na discoteca se estava a começar a transformar.
Primeiro, na minha opinião, para uma média, havia demasiados homens vestidos de mulher por metro quadrado, mesmo para uma noite de Carnaval.
Segundo, começámos a olhar para os tipos que dançavam na pista. Tipos esses que se roçavam uns nos outros, e que se começaram a roçar em nós.
E nós : “Já não ‘tá bem.”.

Digamos que o ambiente se começou a tornar... de sexualidade algo questionável. Mas não ficou por aqui. Não senhor. Qual não é o meu espanto, quando reparo que a rapariga feiosa que me tinha servido a Coca-Cola era… um homem. De saia travada.
Porque raio têm os homens portugueses esta mania de se mascararem todos de mulher no Carnaval?
Os homens portugueses tomam drogas pesadas?
Assustados, resolvemos então mudar de pista. Acto infrutífero, porque o outro lado ainda estava pior. E não esquecendo o facto da rapariga que tentou agarrar a Madalena, lá nos fomos embora. Isto tudo ao som de músicas moderníssimas como Tou nem aí e e êxitos de 1999 dos Safri Duo.
Eram 3 e meia da manhã quando finalmente nos demos por vencidos, e abandonámos tal sítio. Ao princípio era para fazermos um juramento de sangue para que nunca ninguém soubesse os horrores que residiam naquele espaço de lazer. Mas não resistimos, e no dia seguinte descosemo-nos. Até porque no fundo, divertimo-nos, convivemos, e passámos um bom bocado todos juntos. No bom sentido é claro, que é que já estão a pensar? Vamos lá ver vamos...

Preço de Entrada no Populum: 10€
Lata de Coca-Cola: 1€
Ver o Come-as Todas todo contente a dançar no meio de homossexuais: Priceless

segunda-feira, janeiro 24, 2005

O "Come-as Todas"

Comecei a escrever este artigo, não só por iniciativa minha, mas também a pedido de alguns colegas meus, que comigo partilham a fantástica oportunidade de observar todos os dias um exemplar assumidíssimo da subespécie humana mais conhecida da nossa turma. É que eu bem que ouvia dizerem-me tanta vez :
-"Oh David, põe mas é uma descrição como deve ser de um exemplo de Etnografídeo."
Choviam e-mails. E SMS’s.

Ok, não chovia nada.
Mas que me pediram, pediram, bolas.

Meus amigos, e que maior exemplar do verdadeiro
espírito Etnografídico que o célebre
"Come-as
Todas"
?


Ora bem...

O Come-as Todas é um tipo. Mas não é qualquer tipo. No outro dia sugeriram-me uma palavra que eu acho que lhe assenta que nem uma luva. O Come-as Todas é um Etnossexual.
Agora perguntam vocês: O que será um Etnossexual?
Claro que isto tem tudo a ver com o conceito inicial de Etnografídeo, mas aliado ao engate, estão a imaginar?

Um Etnossexual caracteriza-se pelo facto de ser um Etnografídeo convictíssimo, mas que no caso do Come-as Todas, leva os seus ideiais a um extremo. Estilo terrorista.
Sim, terrorista. Aquilo mete medo. E está sempre disposto a mostrar ao mundo o que são os seus notáveis bailharicos.

Para este espécime, nada é mais romântico e infalível que um bom poema SMS foleiro (Se não sabem a que me refiro, leiam o post de 21 de Outubro de 2004). Quadras que não envolvam "Amor amo-te muito e amar-te-ei como me amarás com todo o amor" caem estendidas no chão, porque definitivamente não são próprias para mandar às miúdas. Tem de ser qualquer coisa que faça reminiscência às origens, qualquer coisa deste tipo:
Ontem eu fui ao arneiro
Vi lá o mê c'nhado
Amor, amor regateiro
É teu bigode mal depilado.

E não só de poesia vivem os telemóveis destes fantásticos seres! Corações, Tweeties e Silvesters, Corações, Anjinhos, Corações, e ah!, a bela da fotografia de um carro artilhado, de preferência cor-de-laranja, fazem parte do gigantesco espólio multimédia que o Come-as Todas envia a toda a gente, por "Blutu", que é o que ele lhe chama. Toque polifónico do mais pimba que Portugal tem para oferecer incluído. Ele parece gostar muito deste tipo de sons.
Claro está que tudo nele muito viril, principalmente porque para este tipo, todas, mas mesmo todas as coisas no mundo são, numa palavra, abichanadas. As flores são abichanadas, o Sol é abichanado, o professor de inglês do 10º ano era abichanado.
Esperem.
O professor de inglês do 10º ano era MESMO abichanado. Mas não interessa.
Tudo o que tenha um encarnado um bocadinho mais claro já é um desafio à sua masculinidade. Chega para lá.
Quanto à apresentação deste exemplar, bem, meninas, façam-se já a ele! Acho que nenhuma miúda lhe deve resistir ao seu fantástico cabelo seboso.
Não, não é sedoso, é mesmo seboso. E pelo que ele diz, toda e qualquer mulher deve-se render a seus pés. Pés esse que não estão bem calçados sem uma inevitável meiinha branca. Olaré.
Como anda sempre com o penteado bem aperaltado e a calcinha ali bem apertada à bom macho ribatejano, esta raridade dos nossos dias tem, em poucas palavras, a mania do engate. Mas elevado a um nível catastrófico. E são aulas e aulas de infindáveis conversas de como as moçoilas são loucas com ele na cama. É como se voassem.
Isto não me admira, porque no fundo no fundo, o Come-as Todas pode ser considerado também uma vertente humana do papagaio. Fala, fala, fala, mas no fim, não come nada. Prova disso, só me consigo recordar da bela conversa que ele teve com a Madalena na aula de Matemática. Esta sim meu caros, é uma Conversa de Engate!


C.T.: "-Oh Madalena, gostas de strip-tease?"
Madalena: (Vira-se para trás) "-O quê?!"
C.T.: "- Já viste algum strip-tease?"
Madalena: "-Desculpa?!"
C.T.: "-Ah, e tal, era para ver se tu fazias um aqui para o pessoal, na próxima visita de estudo, que era para a gente ópois montarmos o bailharico."
...
(Silêncio avassalador)


Foi uma conversa interessante de se ouvir, foi.

Não há hipótese. É tiro e queda. Aprendam que ele não dura sempre. E viva a Etnossexualidade!

Quero dizer...
Cada um consigo.