O que eu tenho vindo a reparar é que este sentimento é impressão nossa. Quantos de nós ainda caem no erro de pensar que tais coisas só existem na nossa língua, na pátria de Fernando Pessoa? Ou que lá porque uma música é cantada em inglês, é mais profunda? Desenganem-se, que eu desta venho desmistificar de uma vez por todas o segredo da música ligeira.
Vamos a exemplos?
Vamos a exemplos:
No outro dia estava eu a estudar pacificamente Biologia, quando oiço este grande êxito daquele não menos conceituado José Malhoa, vindo da telefonia do meu vizinho:
E todo a malta gritou,
E até o padre ajudou,
"Aperta, aperta com ela!"...
Execrável, no mínimo, não parece? Mas isto é só ao princípio. Ora interpretemos isto em inglês:
And all the people shouted,
And even the priest helped,
"Squeaze, Squeaze her tight!"
Já fica mais profundo. Vamos agora estabeçecer um paralelismo entre esta música de José Malhoa e vejamos... a de Madonna. Eu sinceramente acho que estes dois artistas têm muita coisa em comum, já que Malhoa e Madonna começam com a mesma letra. M. Lá está. Alguns dos versos de Music são como se seguem:
Hey Mr. DJ put a record on
I wanna dance with my baby
And when the music starts
I never wanna stop,
It's gonna drive me crazy
Music, makes the people come together, yeah!
Music, mix the bourgeoisie and the rebel!
A-a-a-acid rock!
Que na língua de Camões fica qualquer coisa do género:
Hey, sr. D.J. põe lá um disco
Eu quero dançar com o meu bebé
E quando a música começar
Eu nunca quero parar,
Vai-me pôr doida
Música, faz a malta ajuntar-se, sim!
Música, mistura a burguesia e o rebelde!
P-p-p-pedra ácida!
Eu confesso que até admiro uma artista como a Madonna. Agora o que eu nunca faria era aconselhá-la a cantar em português. É que por estes lados, se as pessoas vêem alguém a dizer que pretende dançar com o seu bebé, comentam. E as pessoas de cá são muito linguarudas.
Admito também que a parte da pedra ácida é um bocadinho rebuscada, mas era para dar mais ênfase à questão. O que sinceramente não consigo assimilar é a concepção da hierarquia social aqui presente. Só há burguesia, e depois o rebelde.
Reparem que na cantiga de José Malhoa temos quatro figuras fulcrais: a malta, o padre, "ela" que tem de ser apertada, e o sujeito lírico. Em Music só temos a burguesia e o rebelde. O bebé e o DJ também existem, mas esses não contam porque não interessam na luta de classes.
Mas se queremos aprofundar ainda mais as diferenças, há que ter em conta os versos seguintes de Aperta, aperta com ela:
A banda sempre a tocar
O povo todo a bailar
Aperta aperta com ela
Fantástico. A banda aparece aqui como que uma revelação e o povo já baila, enquanto o "eu" aperta. Eu gosto destas músicas narrativas, a pessoa está ali parece que a ouvir contar uma história, se bem que me parece um bocadinho surreal. Há coisas que não fazem muito sentido, mas provavelmente devem sê-lo assim.
Nós apertámos os dois
Então aí é que foi
Aperta aperta com ela
Amor, amor pois então
Começou nossa paixão
Nesse baile de verão
E aqui está. Esta é uma das mais significativas produções musicais no âmbito da lírica portuguesa, e a meu ver transmite-nos mensagens tão inesquecíveis como o padre que "ajudou". Não sabemos bem o quê, nem como, mas o padre ajudou.
José Malhoa não está a insinuar que era tão tanso que teve que ser o pároco da sua localidade a encorajá-lo a fazer-se à moça, certo?
Eu espero que não, por isso é melhor fazer que não entendo que o padre não ajudou. Deu uma dica, pronto.
Agora, meus senhores e minhas senhoras, Ashlee Simpson:
You can dress me up in diamonds
You can dress me up in dirt
You can throw me like a line-man
I like it better when it hurts
Oh, I have waited here for you
I have waited...
You make me wanna la la
in the kitchen on the floor
I'll be a french maid
Where I'll meet you at the door
I'm like an alley cat
Drink the milk up, I want more
You make me wanna
You make me wanna scream
Em inglês já se faz ideia, mas vejamos como fica em português. E quando digo português não digo português versão miúdas com menos de 16 anos que possuem photoblogs. Mas falarei disso noutra altura.
Tu podes-me vestir em diamantes
Tu podes-me vestir em sujidade
Tu podes-me atirar como uma coisa
Eu gosto mais quando aleija
Oh, eu esperei aqui por ti
Eu esperei...
Tu fazes-me querer lá lá
Na cozinha, no chão,
Eu serei uma empregada francesa
Onde te vou encontrar à porta
Sou como uma gata vadia
Bebo o leito, quero mais
Tu fazes-me querer gritar
Pois é, mas ver a irmão mais nova de Jessica Simpson a querer fazer lá lá é no mínimo supreendente. E confesso que me agrada a ideia da gata vadia: é... arrojada. Acho que me vou tornar fã de Ashlee Simpson.
De qualquer das formas, após a análise destes pequenos excertos de algumas músicas que se podem ouvir no quotidiano, posso concluir que o povo português é extramamente previsível: não estou a ser, nem quero ser anti-patriótico, mas não sei se já repararam que nós temos um comportamento igualzinho não só nos sons que ouvimos, mas também na roupa que vestimos, na comida que compramos, nos detergentes que usamos, e até nos amigos com quem andamos. Roda tudo à volta do invólucro, quando na realidade é exactamente a mesma coisa por dentro.
Quero dizer, com os amigos já é um bocadinho diferente.
Mas na pornografia não, por exemplo.
A pornografia é um ramo artístico em que eu acho que as discriminações mais se aplicam. Afinal, porque é que Giovana, a colegial, é melhor que Sheyla, a garota gulosona? Hã?
É porque a última, por ser gulosa, deve ser obesa? Isto tem que se interpretar tudo no seu contexto, não pode ser assim.
Depois deste desesperado momento de esquizofrenia sexual, acabo assim este post sobre música. Tudo a ver, não acham?
Este blogue está cada vez mais enriquecedor. Começa-se com José Malhoa, acaba-se com ídolos do Sexy Hot. Até era capaz de continuar, mas é melhor parar, que isto já vai muito à frente.
Concluindo, cada vez que ouvirem uma musiquinha, seja ela ligeira, seja ela pop, atentem na letra. Poderão encontrar mensagens úteis para a vida. Eu aprendi a apertar com ela.
...
Meu Deus, falar em apertar com ela no fim de se falar de sexo, já é abusivo, no mínimo. Over and out.
1 comentário:
sem duvida uma grande análise ...:) gostei
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