terça-feira, agosto 09, 2005

Quanto é que você vale?

Para mim, os tipos que inventaram as médias escolares deviam arder numa fogueira. Ou isso ou eram obrigados a ver um programa do social. Entre um auto de fé e ver tias a comer croquetes como se não houvesse amanhã, venha o Diabo e escolha. Salvo seja, claro está.

O que não consigo entender é como é que as pessoas podem ser comparadas por um numerozinho com tanta facilidade. Faz-me confusão, é só percentagens, e tem tudo medo de se esclarecer. Querem coisa mais sem graça?
Eu cá até acho que roça o gay. Porquê? Simples: achar piada a um valor de zero a vinte já não é muito másculo em si, agora tu só vais para ali e para acolá com mais de xis, é francamente abichanado, não concordam?

Já imaginaram se este sistema escolar se aplicasse às coisinhas mais comezinhas do dia a dia?
Adoro a palavra comezinho. Faz lembrar almoço.

-Olhe queria uma mine e um pires de tremoços, se faz favor.
-Ai agora é assim, quero e dão-me? Ó amigo, quanto é que teve a Introdução aos Estudos Teologais para a Consciencialização da Ingestão de Imperiais e Tremoços?
-É o quê pá?
-É pá se não concluiu essa cadeira, 'tá feito. Qual foi a sua média do secundário?
-Hã?
-Pois, multiplica-a por 45%, adiciona 32% da nota da específica, mais 16% pelo comportamento, 9% pelos trabalhos de grupo e desconta 2% para o IRS. Se for superior ou igual a 12,3... olhe, tente a taberna rasca mais próxima.

Se é que ainda há coisa estúpidas com mais graça neste planeta, há coisas estúpidas com menos graça que sobram. Até pensar que uma nota faz uma pessoa melhor do que a outra, com mais carisma ou assim. Se calhar o Tino de Rans teve melhor média do que o Fernando Pessoa. É comparar o sucesso dum e do outro em Portugal...

Mas as médias não são só um sinal de popularidade hoje em dia. Elas são um autêntico marco de autoridade.

Jéssica Tatiana, vai arrumar o teu quarto.
-Não vou nada. A minha média é superior à tua, por isso arruma-so tu!
-Mas isso não vale, tu não fizeste específicas!
-Mesmo assim não vou.
-Olha que eu pego no chinelo, Jéssica Tatiana.
-Pegas pegas. Com essa nota a Biologia, vê lá se me tocas.

O mundo está condenado.

Sim, já perceberam que este meu post é um bocadinho menos uma aleatória dissertação disparatada e um bocadinho mais uma traumatizada dissertação disparatada. É que eu candidatei-me ao ensino superior há uns dias e nunca pensei que o processo fosse tão doloroso. Mais doloroso, quiçá, do que ver o Preço Certo em Euros com uma enxaqueca de se rebentaram as têmporas, e ter na mão um exemplar de sado-masoquismo para principiantes.
É que eu ainda não percebi muito bem o que fiz, só sei que mexi em papéis, escrevi o meu nome algures e pintei umas bolihas com números lá dentro.

Esperem...
Mexer em papéis?
Escrever o nome algures?
Pintar bolinhas com números lá dentro?

Não, eu acho que não me candidatei ao ensino pré-primário. Foi ao superior, não foi?

Este mundo está cada vez mais louco. Ou sou eu que estou cada vez mais são. Ou então nem por isso, anda tudo trocado.

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