quarta-feira, janeiro 24, 2007

Taco de basquetebol ou lá o que é

O jornalismo deve ser mesmo uma profissão lixada...

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Portugal... isn't that spanish for referendums?

Há poucas alturas do ano em que nos unimos em torno de causas comuns. Isto é, não contando o Natal. Nem a Páscoa. E as férias grandes. E os fins-de-semana, vá lá. Bem, mais ou menos unidos, uma das mais lindas causas de união entre os homens é aquela tão natural vontade de nos desancarmos uns aos outros ao pontapé por causa de referendos.
Eu digo referendos porque aparentemente o nosso país facilmente se aborrece se estiver muito tempo sem votar. Verdade seja dia, desde que o Big Brother acabou, a variedade também já não é muita. Hoje em dia já não há Vanessas Flavianas que dizem muitas vezes "prontos" para expulsar de casa e isso ressente-se na sociedade. O mero contribuinte dirige-se às cabines e mete uma cruz para escolher um dos três: o governo, o presidente ou o aborto. Até eu que só exerço o meu dever de cidadão há pouco mais de um ano já me habituei a isto. Honestamente, já chateia.

É por isso que este ano escolho o aborto.

SE ESTÁ A LER ISTO É PORQUE NÃO FOI ABORTADO.
Parabéns. Se consegue ler este texto é porque ou os seus pais não o abortaram ou você ainda não morreu com o bicho da Sida porque decidiu que o preservativo é uma barreira à natureza. De um certo ponto de vista, até o é. Os vírus mortíferos afinal fazem parte da Natureza. Sob o ponto de vista humorístico, José Castelo Branco também.

CONTRIBUIR COM OS MEUS IMPOSTOS PARA FINANCIAR CLÍNICAS DE ABORTO?
É mesmo um horror! E contribuir com os meus impostos para financiar bebedeiras de futebolistas? A Tagus está baratinha, não são precisos grandes salários... mas essa do aborto é que tocou cá no fundo. Bem fundo, lá perto do ponto G.

Ok, ok... estou a ser muito severo, é?

O SIM PELA RESPONSABILIDADE.
Sim, matei um futuro ser humano. Adoro esta responsabilidade. É tão fofa.

MOVIMENTO JOVENS PELO SIM!
Eu sou um jovem pelo sim. Quando estou numa discoteca a mostrar os meus incríveis dotes de sedutor, eu quero ouvir um sim. Mas isso não acontece, e é por isso que surge esta organização: desculpem, movimento dos jovens pelo sim, mas não se importariam de ir à minha faculdade adquirir miúdas giras? Miúdas que, independentemente do que se lhes aparecer à frente, digam sempre sim? Sim, até mesmo a gajos altos, muito magros e com a mania de lançarem piadas forçadas? Por favor, SIM!

Pumba, viram? O outro lado também não perdeu pela demora. Exactamente, o mais engraçado nisto tudo é que temos dois lados. Este lado, o não, e o outro, que é a alternativa. Parece tudo tão fixo e limpinho, não é? Esperem até chegarem os eufemismos... aí vêem que o contrário de não nem é sim nem é o o resto... é aquilo mais ainda.

Vamos lá ver exemplos do que o comum dos leitores poderá pensar e a sua consciência político-social replicar:


1)Sou contra o aborto.
"Ai não digas aborto que soa a morte. E ambos sabemos que se queres ser dos escuteiros não podes falar de morte. Diz antes pró-vida!"
Pronto, pronto, sou pró-vida.

2)Sou a favor do aborto.
"Ai não digas a favor do aborto porque a favor disso não é pessoa alguma e parece mal. Diz antes que és a favor da despenalização da interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas."
Iupi, sou a favor da despenalização da interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas.
"Ai esse nome é muito comprido. Faz como os americanos e vira pró-escolha, que é para não seres contra-vida."
Ai o caraças. Sou pró-escolha.


Agora, caro leitor, reflicta em dois pontos que me parecem essenciais: o primeiro é o facto de a voz da sua consciência político-social começar com um "ai" antes de cada frase. A minha opinião é que isso é um recalcamento qualquer e é melhor consultar um psicanalista. O segundo ponto prende-se com o ser-se contra ou ser-se a favor. Para quê só duas posições se temos aqui tanta terra para semear? Porque não o "Sim, desde que o bebé seja homossexual" ou o "Não, desde que o bebé não vá integrar no suposto Jet Set português"? Urge este tipo de esclarecimento, até porque o que deste país está a precisar é mais um degradé de opiniões acéfalas. Pelo que sei, aquela cena em Lisboa não chega.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Vou gritar-te uma coisa mesmo muito óbvia ao ouvido

Ontem à noite, no telejornal da Sic, constatei alegremente que a escritora portuguesa que mais vezes usa a palavra "imenso" (Margarida Rebelo Pinto) lançou mais uma compilação das suas crónicas.
Até aqui nada de mais: hey, eu não tenho nada contra a literatura light: nem toda a gente gosta de andar sempre a comer pain au chocolat. Às vezes um Bollycao compensa perfeitamente. Já um afiambrado nem por isso... mas este assunto está demasiado conversado e a qualidade ou falta dela na escrita de quem quer que seja, incluindo a minha, não está aqui em causa. É por isso que não me vou calar.

Ora a nova obra da literatura portuguesa chama-se "Vou contar-te um segredo", e apenas este pormenor apela a toda a minha atenção, que é uma coisa que só por si se deixa apelar por quase tudo o que mexe, especialmente títulos de livros em português. Assim, vou agora assumir um tom mais... intelectual. Para entenderem melhor a minha análise por favor imaginem-me com um grande bigode, sentado num sofá do século XIX, com um cachimbo numa mão, um copo de conhaque noutra e um charuto noutra.
Sim, leram bem, visualizem-me com um charuto numa terceira mão. Imaginar-me crítico literário não me impede de me imaginar como super herói mutante com três braços e correspondentemente com três mãos também, pois não? Acho bem. É que assim tenho no total quinze dedos para folhear páginas e páginas de inúmeros livros, para poder perceber melhor as coisas. É inteligência sem intelecto.
Adiante.


Ponto número um: o livro chama-se "Vou contar-te um segredo". É chique a valer, nomeadamente porque nem sequer é original. "Vou contar-te um segredo" resulta da tradução literal de um documentário sobre Madonna, "I'm going to tell you a secret". "Vou contar-te um segredo" é quase como se Margarida Rebelo Pinto começasse a cantar e dançar cheia de coreografias. "Vou contar-te um segredo" não se usa em Portugal, em detrimento do "Óve lá ó nha badalhoca". "Vou contar-te um segredo" parece que é coisa que só os estrangeiros dizem. E meus caros, como todos nós sabemos, tudo o que é estrangeiro é bom. Ainda mais se for traduzido.


Ponto número dois: há um ponto de ruptura no tipo de escrita da autora. Reparem que o sujeito poético parece falar para o leitor na segunda pessoa. Pese embora tratar uma pessoa por tu ser uma piroseira, um horror, o apelo parece ser mais interessante. É que toda a gente sabe que se quiser ser bem tem que tratar tudo e todos na terceira pessoa. O menino, a menina, o senhor do pão, o senhor Alberto, o senhor pénis, por aí. Tutear o possível comprador do livro não só é uma excelente estratégia de marketing como também uma maneira de mostrar ao mundo que se está mais acessível no diálogo. Parabéns.


Ponto número três: "Vou contar-te um segredo"? Que segredo, Margarida Rebelo Pinto? Que o livro tem folhas? Será que já não é super caturreiro apaixonar-se, sei lá, por um estranho e encontrar o amor num lugar insuspeito? Será que os homens afinal já não são todos uns filhos da p*ta nem uns c*br**s do c*r*lh*? E p*rque raio é q*e esto* a usar *steriscos n* meio das p*lavras, h*?


Resumindo, recomendo a leitura desta nova e empolgante obra. Contudo já devem ter a noção dos meus limites e por isso têm que me dar um certo desconto no que toca a recomendações literárias. Afinal de contas eu também recomendo o meu blogue. E já que estou numa de Professor Marcelo, também recomendo a leitura dos panfletos das testemunhas de Jeová, dos anúncios íntimos do Correio da Manhã e do jornal Destak. Ah, e também do título do jornal Sol (aquilo também é só uma palavra). Leiam, leiam, leiam, porque é a ler que a gente aprendemos a esquerevêr.

quarta-feira, novembro 08, 2006

L'état humain

Há quem diga que a minha geração é sobreprotegida e eu começo a concordar, embora relutantemente. Hoje à tarde descobri que no piso mais inferior do hospital de Santa Maria não funcionam as arrecadações do material de limpeza. Conseguem acreditar nisto? Eu fartava-me de ver as senhoras a irem lá abaixo buscar caixas muito grandes, mais nada me ocorria na cabeça. Foi graças à minha colega Carolina Palmela que fiz a extraordinária descoberta:

Eu: "-Olha, não te enganes a descer as escadas, senão ainda vais lá para baixo para as arrecadações dos materiais de limpeza. "
Carolina: "-Hã? Ah, sim limpezas, limpezas..."
Eu: "-Pois... qual é a piada? Não é lá que estão os produtos todos, as vassouras e essas coisas?"
Carolina: "-Não... David, lá em baixo funciona a morgue. O máximo que me pode acontecer ao descer as escadas é ver um morto."
Eu: "-O quê? A morgue? A morgue não funciona no hospital!"
Carolina: "-'Tás-te a passar? Claro que funciona... não me digas que nem sequer sabes o que é aquela chaminé..."
Eu: "-Aquela grande que deita fumo muito preto?"
Carolina: "-Sim..."
Eu: "-Sim, é a chaminé da cantina!"
Carolina: "-A cantina que existe ENTERRADA A 20 METROS DE PROFUNDIDADE?"
Eu: "-Então é o quê?"
Carolina: "-David... é o crematório."
Eu: "-O QUÊ? ELES TÊM UM CREMATÓRIO? Ó MEU DEUS!"
(Até à data ainda não cheguei a saber se a palavra "eles" se referia aos mortos ou à equipa do F. C. Porto.)


O meu mundo desabou. Completa e atrozmente. Ao ouvir estas palavras fiquei tão ou ainda mais atónito do que um deputado recém-eleito ao descobrir que afinal também existem serviços sociais na Assembleia da República.
Não sei o que fazer.
Nem o que pensar.

Será que sou um nadinha inocente demais para a minha condição de ser humano? Será que pertenço a uma geração que não tem bem a noção da presença da morte no quotidiano? Vou investigar e assim que obtiver respostas hei-de gritá-las ao Mundo inteiro. Isto logo assim que descobrir de que raio de gesso especial é que são feitos os ossos das aulas de Anatomia.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Inspiração Perigosa

Nelly Furtado deu uma breve entrevista à MTV Portugal na secção de artista do mês. Para quem não sabe o que é um Nelly Furtado, trata-se de uma cantora luso-canadiana. Isto quer dizer que a senhora em questão a cantar em português é um bocado para o coxa. Mas também não se pode ser bom a tudo, não é?
Ao que parece, Nelly afirma que ganhou a inspiração para o seu mais sexy álbum de sempre a brincar aos Legos com o filho. E eu acredito, ao contrário do que muita gente que colecciona cromos do Bollycao possa pensar.
De facto, acho que a ideia em si é bastante concebível. Quantos de nós não já se sentiram incrivelmente lascivos e sexy ao manusear brinquedos de crianças? Quantos? Exactamente: aqueles de nós que neste momento estão fechados na prisão e que, à medida que escrevo, levam tau tau por comportamento desviante. Mas não deixa de ser um pensamento refrescante. Uma brincadeirinha de criança, diga-se.

Afinal, eu até acho que a boneca da Anita me tem andado a fazer olhinhos ultimamente, aquela oferecida. Ainda vou ter de a mandar para o circo, ou para a quinta, ou para as compras, ou para a escola, ou para sei lá onde ela já andou. Vadia.

domingo, setembro 24, 2006

É pá mas o que é isto, pá?

A amada TVI resolveu neste dia passar um especial Big Brother com os melhores momentos da série que mudou a maneira de se fazer dinheiro em televisão. Esperem, eu disse o melhor? Pois, queria antes dizer... hum, os highlights. O estrangeirismo é sempre a forma mais subtil para mentir, não é?
O incrível neste especial é o facto de ter re-aprendido as mil e uma formas de insultar e humilhar alguém. Tenho a dizer que desejar que uma pessoa seja enviado para a entidade que a pariu, e sendo a profissão dessa senhora apanhar caruma com as costas, não é uma coisa pouco poética. É um quadro vivo.
Aliás, todo o processo de se mandar alguém à merda é um fenómeno que recorre a inúmeros artifícios de linguagem. As maneiras mais devastadoras não são para todos: até para a vilipendiação há elitismos, vistas bem as coisas. Com tanta evolução linguística, tem-se vindo a formar a hipótese da dificuldade de resolver os problemas com os meus inimigos (se é que tenha algum) eficientemente.

É pá, mas um pontapé mesmo no pescoço resolve tudo.
Obrigado, lixo televisivo!

terça-feira, setembro 19, 2006

Digam... AAAARGH!

Mudei de curso. Assim logo de repente porque me deu na real gana (ainda bem que na Internet o tempo só é controlado por mim).
Se a grande ordem cósmica o permitir um dia vou ser médico. Há quem diga que sim, há quem diga que não, há quem ria tanto que faça um bocadinho de chichi pelas calças abaixo. E sim, outras pessoas já me perguntaram qual a especialidade que gostava mais de seguir, e a minha pessoa respondeu o que qualquer outra pessoa de rapaz de 19 anos responderia: "a ginecologia parece ser um ramo interessante".
Mas comecei lentamente a mudar as ideias e já me decidi: ginecologia é boa mas farta, eu quero é ser um médico curandeiro, como o senhor do vídeo. E o que é que uma critaura dessas faz? Fácil: o médico curandeiro é o senhor que cura úrsulas, trabeculoses, hepatitasá... Ora vejam.



Mais alguma dúvida é só telefonar para o sítio onde curam a carne das vacas loucas, que é uma doença muito perigosa. Estou lá em part-time.

quinta-feira, agosto 31, 2006

E agora...

Plutão deixou de ser um planeta. Isso é porque a Simara já não é um asteróide?

segunda-feira, julho 31, 2006

A gaja duplicada

A pré-adolescente que acaba de se encontrar com o seu reflexo, num espelho em casa, tem no seu bilhete de identidade um nome pouco vulgar, nada menos que Kátia Alexandra Conceição, denominação que lhe tem causado algum pudor ao longo dos anos, especialmente entre os demais jovens que pensam que Cascais é que é fáchon. Com o Kátia e com o Alexandra até podia conviver a certo ponto, mas era o Conceição que mais armaguras lhe provocava, Conceição era nome de avó, ou de toureira, vá lá, daquelas que são bué antiquadas, Conceição não era bom o suficiente para combinar com Kátia Alexandra, Kátia para os amigos, Káti Beijinhos para o namorado. Surprendentemente, não era Rúben Flávio quem assolava o pensamento de Kátia Alexandra Conceição naquele momento, espantava-se a cara da moça ao ver à sua frente uma rapariga que, mais que sua gémea, poderia até ser o seu duplicado e lhe respondia exactamente com o mesmo tom, exactamente com o mesmo sotaque e exactamente com as mesmas palavras. E ainda que Kátia Alexandra Conceição não se apercebesse que estava a conversar consigo mesma, não deixava de lhe parecer intrigante uma semelhança tão grande. Como se chama, Kátia Alexandra Conceição, Impossível, esse é o meu nome, Também é o meu, e verá que não só nos nomes somos iguais, Como assim, Olhe em frente, somos a imagem no espelho uma da outra, É deveras impressionante, E também respondemos com as mesmas palavras, ao mesmo tempo, Eia. Kátia Alexandra Conceição 1 e Kátia Alexandra Conceição 2 estavam ambas embasbacadas com tamanha verosimilhança, não poderiam deixar passar esta oportunidade de reflexão, por mais despropositada que fosse. É difícil de acreditar nesta nossa igualdade, olhe que até na roupa, Os saldos da Bershka são sempre os mesmos, Pois é, faz pensar o que é afinal a identidade pessoal, Como nas novelas, Sim, e nos filmes, Que filmes gosta mais, Aqueles com actores americanos, Eu também, são os mais giros, Pois é, é a vida, Sim, cá estamos, Fresquinho, não, É a mudança da temperatura, Muito interessante, marcamos encontro, Sim, amanhã à mesma hora, porque depois tenho que ir ter com o Rúben Flávio, Quem é Rúben Flávio, mais uma cópia sua, minha, nossa, Não, é o meu namorado, O seu namorado também se chama Rúben Flávio, Sim, Sua cabra, nem acredito que até o gajo me roubastes, Olha, não tenho culpa de ser mais boa que tu, Estúpida, a ver se te espetas no chão e partes a cara toda, Então adeus, Adeus ó vai-te embora. Kátia Alexandra Conceição resolveu abandonar definitivamente o espelho e ir contar, estupefacta, o seu encontro ao namorado, por SMS porque tinha mensagens grátis, com muito drama e muitos LOLs à mistura.

terça-feira, julho 25, 2006

Cá se fazem, cá se pagam.

Esta é uma ode ao tipo que me anda a deixar mensagens anónimas pouco construtivas. Pensei no teu caso e resolvi falar sobre ti, mas em verso, não vá a depreciação estragar o momento. Cumprimentos à família.

A bichanesa anónima

Certa bichanesa sorri à janela,
coitada dela
mais pálida que uma aguarela.

Sorri ao amigo,
qual dama mais afamada,
ama o menino
e por menina quer ser tratada!

Trinca aqui e ali,
carninha dura gosta esta donzela,
morde aqui e belisca acolá,
sabe a leitinho esta nossa princesa.

Ai, como o amor é bonito,
nem o pequeno petiz é daí afamado,
lindo senhorito apessoado,
és do outro lado???

Certa bichanesa sorri à janela,
coitada dela
mais pálida que uma aguarela!

segunda-feira, julho 24, 2006

Die Verwandlung

Certa manhã, quando Tiago André acordou de um sonho inquietante, deu consigo metamorfoseado num monstruoso beto surfista. Estava deitado de costas, e ao tentar mexer o corpo constatou, horrorizado, que tinha queimaduras solares de terceiro grau por toda a pele e um fato de mergulho colado na virilha. Levou as mãos à cabeça e sentiu o cabelo abespinhado. Olhou à sua esquerda para o vidro da janela, viu que o seu cabelo normalmente moreno e bem cuidado estava agora louro-amarelado e com um corte algo efeminado. Entrou em pânico.
"O que é que me aconteceu?", pensou. Não era um sonho. O seu quarto, dantes original e de bom gosto, estava agora cheio de posters do Jack Johnson da Bravo e cartazes em jeito de tributo a tudo o que eram derivados de imitações de Bob Marley. À sua frente encontrava-se uma longboard roubada sabe lá Deus onde, com florzinhas havaianas a enfeitar. Olhou à sua direita, para a mesa de cabeceira e viu o seu bilhete de identidade. Não conseguiu ler bem, contudo Tiago André teve o horrível pressentimento de que já não se chamava Tiago André mas sim Tiago Maria. Agora já podia ser escuteiro também. Soltou um grito, desesperado, e por fim tentou acalmar-se. A sua família não o podia ver assim. Assim que os seus pais olhassem para a parede pintada com uma folha de Cannabis sativa com a legenda Legalize, sabendo bem que Tiago André, agora Tiago Maria, não passava de um tosco que se queria armar em fixe, iriam ficar boquiabertos. E assim que reparassem no seu novo estilo, iriam deixar de o tratar como um ser humano e passar a discriminá-lo pelo cordeiro portuguesinho que se havia tornado.
Tinha conseguido converter-se numa cópia maricas de si mesmo. Estava condenado.
Tiago Maria decidiu então saltar pela janela e enfiar-se no casting mais próximo para os Morangos com Açúcar. De entre os trágicos finais possíveis, este seria de todos o mais justo.

sexta-feira, julho 07, 2006

"Coisa dji póbri"

Como já tive oportunidade de expressar diversas vezes neste blogue, gosto muito da produção nacional a nível televisivo. Chamem-me um viciado no surrealismo, mas eu devoro telenovelas, especialmente as da TVI: para mim elas arrumam os Monty Python a um canto.
Depois da minha insignificante análise da Floribella, chegou a vez de uma aproximação profunda ao universo de Tempo de Viver, a nova aposta do canal televisivo que tantas maravilhas nos dá como o programa do Goucha.
Diz que o novo conto popular mistura terrorismo internacional com a luta de classes em Portugal. Sei que no meio disto tudo entram os ataques do 11 de Setembro em Nova Iorque, de acordo com a novela morreu lá UMA pessoa, cuja mala perdida é muito importante para o enredo, e que mais tarde vai reaparecer. Enfim, são coisas da vida, não são? Gostava de poder dizer mais sobre este assunto tão pertinente. A verdade é que não há nada para dizer. Pulp Fiction, alguém? Enfim, vamos mas é falar da minha Maria Laurinda.

Que coisa é essa, Maria Laurinda? - perguntam agora vocês. - É um secador de cabelo? Isso come-se? E eu digo: Não, é uma pessoa. E ao mesmo tempo também não é um secador de cabelo. Se bem que a parte do comer tem bastante sentido. A Maria Laurinda, ou Laura, como prefere que lhe tratem os seus amigos do country club, é uma mazona. Menina rica mimada, poderão pensar ao princípio... mas nem por isso: a família dela é pobrezinha e por isso Maria Laurinda faz-se passar por rainha da Sabóia, de forma a não se identificar com a gentinha. Claro que isto tudo faz sofrer o seu clã, sempre com a lágrima ao canto do olho: afinal de contas isto é uma coisa à portuguesa.
A verdade é que a Maria Laurinda manipula as pessoas. A Maria Laurinda é cínica. A Maria Laurinda não olha a meios para atingir os fins. A Maria Laurinda é terrível. E os diálogos dela também. Melhor, todos os diálogos de Tempo de Viver são terríveis, daí meterem muito medo e eu gostar tanto da Maria Laurinda.

Atenção: o trabalho da actriz Margarida Vila-Nova, que interpreta o papel desta personagem, não está aqui posto em causa. O cruzar e descruzar de pernas numa cena pseudo sensual encabeçada pela Benedita Pereira é que talvez possam estar. Pelo menos um bocadinho. É que há um filme, pouco conhecido talvez, chamado Instinto Fatal. Estão a ver qual é? É aquele com aquela actriz americana também pouco conhecida, a Sharon Stone, sabem? É que há lá uma cena que é algo parecida. Mas os americanos também imitam tudo. Até vão ao futuro para imitar melhor, vejam lá bem.
Numa nota final sobre o enredo, vi uma cena em que um senhor bem posto na vida se agarrou ao jardineiro (como já expressei antes, é um tema da moda) e depois à Maria Laurinda, no fim de fugir à mulher. Perceberam alguma coisa? Eu também não. Isso, mais do que a mala perdida nas Twin Towers, é outro grande mistério.

Enfim, quanto mais episódios vejo, mais me apercebo de que a guerra entre estações televisivas afinal não é só de audiências: também roda à volta de ideologias. A Floribella diz que é rica em sonhos e pobre em ouro, mas não importa. Já a Maria Laurinda prefere morrer do que ter de trabalhar num supermercado. Estou cerebralmente exausto de tentar seguir estes dois marcos intelectuais antagónicos. Afinal o que é que é bom? Marx, neste momento , deve estar a dar voltas no túmulo. E a pensar que "coisa dji póbri" é esta, também.

terça-feira, junho 27, 2006

Intelectualidade VIII

Neste momento estou num dos PC's públicos da minha faculdade. Vim consultar o meu e-mail, mas qual não foi o meu espanto quando reparei que estava acompanhado por um pacote de iogurte vazio com uma colher a sair de lá. Está mesmo à minha frente, ao lado do monitor.
Que bom.

Por um lado, é sempre agradável verificar que os marrões do departamento de Matemática se andam a alimentar bem. Por outro lado, o pensamento de que alguém antes de mim se alambazou ao mesmo tempo que pôs as mãos neste teclado é terrífico. Acho que vou parar de escrever agora. Ai vou vou.

terça-feira, maio 30, 2006

E ainda dizem mal da esquerda portuguesa?

NASCE PARTIDO DOS PEDÓFILOS NA HOLANDA

BRUXELAS, 30 MAI (ANSA) - O primeiro partido declaradamente pedófilo, que nasce hoje na Holanda com o objetivo de liberar a pornografia infantil e as relações sexuais entre adultos e crianças, se chamará NVD (Amor ao próximo, Liberdade e Diversidade).
"Educar as crianças significa também acostumá-las ao sexo. Proibir deixa as crianças mais curiosas", afirmou Ad Van den Berg, 62 anos, fundador do partido, em entrevista ao jornal holandês Algemeen Dagblad.
Segundo Van den Berg, a imagem dos pedófilos foi desonrada pelo escândalo do assassino de crianças belga Marc Dutroux e acredita que, ao se lançar na política, esta pode, ao contrário, melhorar.
No programa do NVD não há apenas pornografia infantil. O partido propõe a extinção do Senado e das funções do primeiro-ministro, a legalização de todas as drogas, leves e pesadas, e a prisão perpétua para os assassinos reincidentes.
O partido, em seu site na Internet, afirma que qualquer pessoa que tiver completado 16 anos deveria poder interpretar filmes pornôs e que a maioridade sexual deveria ser abaixada para 12 anos. (ANSA)

30/05/2006 10:23
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Wow. A sério. Não sei muito bem no que pensar, ou em que sentido dar à coisa. A verdade é que nem quero imaginar como é que eles se vão entreter nos plenários. Nunca o jogo da apanhada foi tão assustador.

domingo, abril 30, 2006

¿Dónde Está Usted, Flor?

Eu gosto muito de mudar de nacionalidade. Às vezes sabe bem poder dizer que no meu país não mandam os cientistas para o catano nem se comem coisas tão inverosímeis como folhados mistos. É por isso que esta semana fui argentino durante 2 minutos e 57 segundos: este foi exactamente o tempo de vida que perdi a observar um episódio na novela infanto-juvenil importada para a Sic(k), Floribella. E aí vi que outras vezes ser português não é assim tão assustador. Só ocasionalmente.
Mesmo assim, não vou fazer como o resto da populaça blogueira e criticar a saga da mocinha que parece uma versão morcona da Agatha Ruiz de La Prada, nem pensar. Eu, como bom jovem que sou, venho até glorificar esta tremenda produção televisiva. Já era finalmente tempo dos miúdos pararem de ouvir as baboseiras dos Morangos com Açúcar para começarem a interessar-se por coisas muito mais maduras como cristais mágicos, fadas do vento e trânsito das classes sociais. Acho que todos estes são pontos fulcrais que precisavam de ser sobranceiramente abordados.

Pelo que conheço, Floribella conta a história de uma menina pobrezinha mas feliz que trabalha para uma família rica. Alto: logo aqui somos transportados para um imaginário altamente original a nível de enredo. Isto é daqueles que nem sabemos se a personagem aterra no chão se se desequilibrar. A própria protagonista é curiosa: reparem que, mesmo tendo sotaque do Norte, a gaiata não manda as pessoas para o caraças por lhe chamarem trinca-espinhas. Isto é muito peculiar visto que parece ter havido uma falha por parte dos argumentistas, mesmo que eles falem espanhol. Eu sou magrinho e odeio de morte quem me chame trinca-espinhas, quanto mais outros nomes. Se fosse à Flor com certeza mandaria a boazona convencida que namora com o dono da mansão ir para uma certa parte anatómica, ainda que isso obrigasse a um tom ligeiramente brejeiro.

Todavia penso que o elemento principal da novela da Sic é a caracterização: aquela gente se se vira para um lado vê flores, se se vira para outro vê arcos-íris. Cores, luzes e alucinações. Não há meio termo, mas também é assim que as coisas também devem ser lá para América do Sul. A estabilidade política, como tudo, deve ter um preço. Pelos vistos na Argentina também.
Resumindo e concluindo: com esta iniciativa tão inovadora e aparvalhadamente colorida, das duas uma: ou o povo luso começa a sofrer massivamente de epiplepsia, ou vira gay. O prognóstico é reservado. Mas a novela, essa dá todos os dias. Por supuesto.

terça-feira, abril 25, 2006

Porque sim

A cada ano que passa, mais tristes parecem ficar as comemorações do Dia da Liberdade. Tudo o que se exagera acaba por fartar, mas há coisas que não devo esquecer. Se por um lado é verdade que já foi há 32 anos e eu nem sequer projecto era, por outro é sempre bom lembrar-me da causa que justificou a liberdade de expressão que sempre me pareceu tão natural. E como qualquer outra, a revolução trouxe coisas muito boas e coisas honestamente estúpidas. Mas o que é o meu blogue face às conquistas de Abril? Fico na dúvida, contudo sei que enquanto homem de barba rija (até no peito), o cravo é a única florzinha que não me envergonho nada de ostentar. Uma rosa é muito cheirosa. Um lírio... que nome do catano. Agora um cravo... sempre.

segunda-feira, abril 17, 2006

É preciso ver

as coisas como é. Mas ninguém quer, há que ter cabeça e eles coiso, mergulham.
Este vídeo não é recente, mas acho que pode ter sempre lugar neste blog. Afinal é disto que nós portugueses, quer queiramos quer não, somos feitos. Fado, Fátima e... hum, Zé Toino? Absorvam a poesia desta conversa amena.


Voz do Povo, voz de Deus. E do Pai Natal também.

sábado, março 25, 2006

Originalizar o Original

Já fui alvo de muitas críticas, umas boas, outras más, outras meio amaricadas porque não se percebe se são boas ou são más. A única coisa que começo a reparar é que o estilo de escrita determina imediatamente a quantidade e o tipo de prestígio que vamos ter. E toda a gente sabe que o prestígio é uma coisa tão boa. Por isso hoje vou ser cativante e mudar a minha esquizofrénica arte literária, sem sequer pensar primeiro no assunto. Vejamos exemplos.

Por exemplos,
Primeiro temos as pessoas que ganham muitos prémios porque escolheram arrotar para os pontos finais, sim eu disse arrotar,é que eu sou muito ilustrativo. E isto só me faz lembrar aquele dia em que me vi ao espelho, passados três quartos de hora para as três da tarde deste vinte e cinco de março de dois mil e seis e os meus olhos, tão bonitos que são de tão escuros que parecem, observavam languidamente o meu reflexo naquele vidro reflector que me mostra a vida, tal e qual como ela não é; Ah David, estás mais velho, diz-me a minha irmã, está parva hoje a minha irmã, Não estou nada, só estou mais crescido, respondo eu, Está bem, mas tens mais barba, Pois, também não sou assim tão subdesenvolvido, Olha o que é o almoço?, Sei lá, estou cá com uma determinada larica, Sim mas a gente por muito que sofra nunca diz a palavra larica, é pá soa mal, Ah diz sim, Não diz não, Diz sim, Não diz não, Vai dar uma curva, Olha vai tu, respondo eu, ou será a minha irmã? Não sei, eu já perdi um bocado o rumo da conversa porque comecei a escrever tudo numa frase, demorada e com muitos advérbios de modo, que é para perceberem que eu sou muito inteligente e assim posso fazer o que me apetecer das regras de pontuação; não, não estou a imitar ninguém, estou só a ser original.

Depois temos a chamada repetição esquizofrénica. Aquela que se repte quase de oração em oração
como uma bufa intelectual.

Quem me dera poder ser quando me apetecesse, livre e barulhento
como uma bufa intelectual.

Lembro-me de como as coisas eram quando eu era pequeno. Tudo era tão simples. Todo o mundo resumia-se a mim e aos naperons da sala de jantar da casa da minha avó. Os naperons são coisas tão bonitas. Mas agora ninguém gosta deles. É uma pena. Porque com eles eu desprendia-me e voava, voava na minha interminável imaginação
como uma bufa intelectual.

Este fluxo narrativo é no mínimo catártico. Ao mesmo tempo vejam só quão literário começa a fica este post à medida que eu emprego expressões profundas como "fluxo narrativo" e "bufa".

Mas eu podia.
Talvez um dia.
Escrever poesia.
Amar é sentir.
Sentir é picar.
Picar é aleijar.
Aleijar o lingrinhas.
Do nosso coração.
Isto não é um poema.
São frases muito curtinhas.
Seguidas de parágrafos.
Como se vê.
Nos blogues poéticos.
Que lá porque o Fernando Pessoa.
Não rimava sempre.
Não quer dizer.
Que tenhamos de escrever textos inteirinhos.
Só assim.
Vazios.

Ok, eu rendo-me, em última análise é-me impossível surpreeder a minha vasta gama de três leitores sem imitar alguém ou algumas coisas. Excepto no que toca ao emprego (e enfim, projecção) de "bufas intelectuais", obviamente isso é meu. Pode ser ligeiramente idiota, vá lá, mas é meu.
Apesar de tudo, honestamente não sei o que me vai acontecer enquanto pseudoescritor. Talvez um dia me ponha a discretear sobre malta super caturreira, divorciada e com montes de amigos que se encontram no Lux e se divertem imenso e comece a pensar que isto realmente não é para mim.
Better luck next time.

quarta-feira, março 15, 2006

PC = Personal Challenge

Há pessoas que acham muita piada aos computadores. Quem me ler agora deve estar a pensar que eu endoideci e resolvi começar a falar de mim próprio, mas desengane-se. Parece que há algo de misteriosamente fascinante numa coisa que funciona à base de se carregar em botões, e eu muito honestamente não percebo porquê.
A verdade é que eu já não confio tanto nas maquinetas como dantes: sem dúvida que são ferramentas úteis, mas na minha opinião têm vindo a transformar-se em autênticos monstros. Coisas ambulantes, sedentas de carnificina,tal e qual como o Chucky (o boneco assassino) ou o George Bush (o assassino abonecado).
Todavia, como a culpa não morre solteira, há um responsável pelo meu mais recente transtorno com o mundo cibernético. Há sempre um responsável para tudo. Até para o onanismo. Esse responsável é o sistema operativo das janelas.O Windows está para o PC assim como o Cornudo está para os cães do Inferno. Não há melhor analogia para uma entidade que me faz coisas que não há direito. Irei agora a um exemplo concreto:

No outro dia estava eu em puro engate no MSN Messenger quando o meu PC aparentemente se meteu de cama: tinha ocorrido um erro fatal, nada mais nada menos. Fiquei em estado de choque: a situação parecia gravíssima, ou ela me bloqueava ou eu ficaria com deixas más para o resto da vida. Isso não aconteceu (ainda), mas aquela coisa (o computador) disse que era fatal. Ora "Fatal", meus senhores, é um termo com um certo grau de seriedade. Utilizamos a palavra "fatal" numa situação em que queremos falar de homens de barba rija, estilo: "O David tem um olhar sedutor fatal. É por causa da fatalidade do seu bom aspecto." Isto é moderadamente aceitável. Agora ouvir ou ler "fatal" de uma coisa que não come, não bebe, não respira e acima de tudo não faz sexo é um autêntico abuso de linguagem. Estas coisas são para serem medidas antes de serem usadas! Senão vejamos: os computadores foram inventados para nos ajudarem. O que eles supostamente fazem é prestar auxílio. Não foram inventados para se armarem em aquilo que tecnicamente se designa de maricas, com "erros fatais" e campainhas de alerta.
Eu bem imagino o que se deve passar naquele cérebro artificial e tecnologicamente dramático...

"-Ai, olha só para mim, tenho tantos programas a correr... a RAM está saturadíssima, que horror! Acho que vou ter um erro fatal! Ai meu Deus! Pronto, já foi, tenho que reiniciar. Agora deixa-me só retocar aqui a "maquilhage"."

E é assim que se passa um vulgar crash com a tecnologia moderna. Depois não querem que as novas gerações sejam como as de antigamente: cheias de simplicidade, valores morais e bem lá no fundo, sexualidade reprimida.
Os técnicos de computação por mim iam trabalhar no campo, para verem quanto custa a vida ante de se lembrarem de fazer máquinas melodramáticas. Até já os imagino a podar as terras, ao mesmo tempo que matam a sede através do cantil comunitário e cantam lindas canções de programador. Ali cheios de pujança a dançar o fadango. Desta maneira já adivinho o meu computador a expressar-se contra o que está mal:

"-Ocorreu um erro, porra! Mas que jeitos? Agora é começar tudo de novo! Ah Quim, passa aí o tintol!"

Faz-te um homem, Informática. Aprende comigo, olha que eu não duro para sempre.