sábado, janeiro 21, 2006

Eu voto. E você?

Hoje é um dia mítico. É aquele dia em que ninguém sabe muito bem o que fazer, pois todos estamos muito compenetrados na nossa reflexão política. Eu não gosto deste conceito. Verdade seja dita, eu gosto cada vez menos da reflexão política e cada vez mais da reflexão acerca dos fartos e generosos seios de Carmen Electra, por exemplo. Graças a Deus ninguém proíbe a propaganda disso.
Pelo contrário, hoje é supostamente proibido falar de candidatos presidenciais, já que amanã vamos a votos. E a mim até apetecia cumprir isso. Acho que os inúmeros três leitores do meu blogue merecem isso. Por essa razão não digo nomes, nunca me engano e raramente tenho dúvidas. Agora tenho é que deixar o meu ponto de vista.
Se há temas que estão sempre em voga nos artigos de opinião como este são com certeza coisas como religião, economia, um reality show da treta que esteja a passar na TV e política.
De facto, em relação ao (des) governo do nosso belo país, toda a gente tem sempre um ponto de vista para dar. No entanto, e analisando bem as coisas, parece-me que eu sou uma excepção. Digamos apenas que a minha noção de regime político não é grande coisa: desde que aos 8 anos escrevi numa redacção que se podia ganhar as eleições a Rei, especialmente no país das fadas, comecei a desconfiar de alguma coisa que eu achasse muito certa. Feitas bem as contas é melhor não opinar em demasia, a Cautela é amiga da Prudência. E o Prestígio é padrinho da Discrição, que é casada com o irmão da Justiça.
A verdade é que eu adoro a época das campanhas eleitorais, porque as pessoas andam juntinhas com as cores iguais, mandam piropos defendendo o seu partido/candidato e fazem uma chiadeira infernal com os automóveis. Onde é que já vi isto? Ah, no futebol, sim. Mas há qualquer coisa de... não direi diferente, direi mesmo foleiro que caracteriza a altura. E há dois importantes sinais que nos podem indicar que dentro em breve iremos a votos.
O primeiro é que toda a gente nos cafés muda de súbito o estilo da conversa. O que dantes era um simples: “Ó Jéssica Susana, já comestes o pastel?”, agora é mais requintado, muito menos burgesso, algo como: “Jéssica S., o que pensa da alteração sistemática dos objectivos propostos por cada um dos candidatos?” É um fenómeno parecido com pegarem no Ali G. e transformarem-no no Papa.
O segundo indicador é mais óbvio: por tudo o que é estrada de Portugal estão espalhadas resmas de cartazes a mostrar o pretendente à cadeira do poder. Basicamente é uma espécie de Miss Calendário Da Oficina do Zé Tóino, mas com miúdas mais feias.
Realmente, eu não sei como é que os responsáveis pela publicidade das campanhas ainda não se aperceberam que ninguém olha para a foto de um senhor velhinho a vender ideias (com todo o respeito e mais algum que eu tenho em relação aos diversos candidatos). O dia que resolverem pôr a Paris Hilton a expor a sua “generosidade” pelos caminhos da nossa nação, aí sim eu vou às urnas. Não faço a mínima ideia acerca de partido algum, mas nela eu voto de certeza. E nos fartos e generosos seios de Carmen Electra também. Vive la democracie!

terça-feira, janeiro 17, 2006

Onde é que a gente íamos?

É um facto consumado: ando sem ideias. Mesmo assim, nas minhas últimas e muito pouco interessantes divagações, facilmente constatei que todo um revolucionário fenómeno intelectual começa a insurgir na nossa terrinha à beira-mar plantada.
Lembram-se da estética pela anti-estética? Não? Quero dizer, eu lembro, foi uma expressão extremamente poética que um professor meu uma vez utilizou para dizer muito elegantemente que o meu trabalho de grupo estava uma porcaria. Uma porcaria muito grande.

O que acontece é o mesmo que se passou com a estética pela anti-estética. Aliás, é muito mais científico do que isso, não fosse eu um homem dedicado a essa área.
Tal como a matéria (protões positivos, electrões negativos) tem como oposição a anti-matéria (protões negativos, electrões positivos), a intelectualidade (cérebro cheio de coisas etéreas) começa a ter a anti-intelectualidade (cérebro cheio de coisas que saem no 24 Horas). Um dos expoentes máximos deste novo movimento é, na minha humilde opinião, esse grupo de grandes comentadoras e analistas socio-políticas que são as senhoras que aparecem no programa do Manuel Luís Goucha, numa rubrica denominada Conversas de Quintal. Senão vejamos:

Todas elas são anafadinhas, sinal de que não devem fazer muito pela vida.
Todas elas dizem portantos.
Não raramente enunciam certas e determinadas coisas, chave essencial para se manter um diálogo que se queira pseudo-anti-intelectualóide.
Já disse que elas dizem portantos?
Do Lat. quintu, num. ord., o que numa série de cinco ocupa o último lugar; s. m., cada uma das cinco partes iguais em que se dividiu um todo; barril que é a quinta parte da pipa;
Aquilo é um arraial da palavra portantos. É quase sinistro.

Com tudo isto e muito mais que não me apetece escrever facilmente concluo que, prontos, a anti-intelectualidade não só existe como prolifera no nosso serviço público.


Como nós não soubéssemos já disso.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Intelectualidade VII

Hoje aconteceu-me algo de tão perfeito que mais adjectivos seriam absolutamente desnecessários.
Ia eu todo contente estrada fora pelo Monte de Caparica quando ouvi uma explosão: a mala que transportava (daquelas com rodinhas atrás) ficou de súbito sem fecho.
De acordo com todas aquelas regras particularmente desinteressantes da Física Clássica, começaram a sair, ou melhor, a jorrar os conteúdos da minha bagagem. O meu centro de reflexão neste post não é o porquê desse acontecimento mas sim o que saiu. Escrevi então algo mais elaborado a caminho de casa:

Hoje andava bem pelo Serrado
Com a mala bem aviada
Dei-lhe um guinete apertado
Saltou tudo de lambada

E eu chorei a minha alma pelo que caiu

Porque poderiam ter sido camisas bem dobradinhas
Porque poderiam ter sido t-shirts mais fashion
Porque poderiam ter sido até os meus cadernos
Mas não foram

Não foram coisas chiques
Foram coisas corriqueiras
mais propriamente BMT

Boxers
Meias
Tupperwares
Muitos tupperwares
que encheram a estrada nacional

Fez-se poesia.

quinta-feira, novembro 10, 2005

É o quê pá? IV

É disto que eu gosto. No outro dia, estava eu em amena cavaqueira com os meus colegas, quando uma miúda do meu curso disse uma coisa absolutamente aterradora.

A verdade é que eu mostrava-me chocado com o facto de ter descoberto que, feitas bem as contas, até Coca-Cola vendiam na Festa do Avante. Esta foi a observação que tive de volta:

"-Dah? Se calhar é a patrocinadora, não?"

Juro que nesse mesmo instante soou no interior da minha cabeça o jingle que dá no final dos sketches de "Os Batanetes".

segunda-feira, outubro 31, 2005

Diário de Caloiro II

Segunda-feira, 26 de Setembro de 2005 - Dia D
20:14
Neste momento estou ensopado, constipado e convenhamos, algo desconfortável. Mas eu explico porquê. Até posso explicar o porquê de neste momento o meu cabelo se assemelhar mais a uma bilis de porco.

Ok, estamos na manhã de hoje. Eu dirijo-me para a faculdade a pé (as minhas mãos, graças a Deus, já não cheiram a banha de porco), entro muito bem pelos portões dentro e encontro todas as pessoas que são do meu curso encostadas à parede e matematicamente numeradas. Junto-me a elas e reparo que o meu curso é essencialmente constituído por raparigas. Com uma percentagem razoável de giras. Já estou mais feliz. Graças a Deus pelo par cromossómico XX.

Estávamos nós tão contentes a ser marcados como peças bovinas e a ser tratados como tal, quando nos informaram que teríamos que dar um passeiozinho. Demos as mãos num puro acto de ioga e equilíbrio (sim, porque cada um de nós tinha que dar a mão ao que ia na frente com esta a passar por entre as pernas), e lá fomos nós.
Passadas duas horas de muita gritaria a roçar o obsceno e de muita mistela bebida, tivemos direito a uma refeição na cantina. Mas atenção, porque tivemos que comer dois bifes com puré só com uma faca. Devo dizer que momentaneamente senti-me uma versão humilhada mas bastante realista de Batusai, o esquartejador.

Passados mais alguns episódios envolvendo comida e miúdas giras (esta era só mesmo para captar a atenção... estas coisas funcionam), lá nos fomos pintar à creche mais próxima. Levaram-nos para um recinto cheio de miúdos de cinco anos e eles próprios fizeram questão de nos salganharem o corpo todo com as suas tintas removíveis com água. E eu entretanto fiz uma descoberta fantástica. As criancinhas de tenra idade têm na verdade um cruel instinto assassino. E perverso. Provas? Primeiro, elas não tinham sido ensinadas. Segundo, deixo aqui o meu diálogo com uma dessas criaturas do Inferno:

"-Olá! Então como te chamas?"
"-Cala-te! Abaixa-te!"
"-Oh, pronto, eu baixo-me! Então o que me vais pintar?"
"-Prossora, dá-me o verde!"
...
(silêncio enquanto que o puto me suja todo)
...

Cá está. Foi uma situação algo embaraçosa, mas o negócio não ficou por aqui. Como já tinha dito, as tintas eram removíveis com água, e os veteranos aperceberam-se disso. Solução? Levámos com dois quilos de laca, batôm e pó de talco em cima. Ah pois. E não nos queixámos.

Passada uma hora, iniciu-se um aconchegador desfile de oito quilómetros até Almada. Agora aqui é que me faltam palavras para descrever as duas horas e meia mais turtuosas dam minha vida. Estão a ver aquele filme, A Paixão de Cristo? Estão a ver aquela pequena cena em que é o próprio Messias a levar cacetada até ao calvário? Pronto, nós estávamos mais ou menos assim, mas sem cruz às costas, vestidos com batas e com latas atadas às pernas. E a gritar :"Ó LEGI, chupa aqui!", claro está. Eu acho que Jesus não gritava coisas dessas pelo caminho, por isso esta foi mesmo a parte mais inovadora, acho eu.
Chegados a Almada, demos um pulinho para a fonte. Aí é que eu gostei de estar no desfile: éramos para aí uns setecentos caloiros a mergulhar alegremente naquelas águas. Digamos também que aquilo não eram exactamente águas. Na realidade, a fórmula química daquela estranha substância era nada mais nada menos do que H2Cócó.
De qualquer das formas, aquele era um cenário verdadeiramente peculiar. Tambores de um lado, cânticos do outro, mais parecia uma revolução. Mas sem florzinhas.

Assim, encharcado e pintado, apanhei um autocarro para casa e cá estou eu a escrever no meu quarto. Apercebo-me agora de quem tem que lavar estas roupas sou eu, e isso faz-me mesmo sentir homesick.
Que cheiro é este? O outro colega de casa está a cozinhar pombo. Agora sim estou deprimido.


E pronto, este foi o relato dos meus primeiros dias enquanto reles, insignificante e mísero caloiro. Claro que as praxes não se resumiram a isto, mas devo dizer que no geral gostei. Afinal de contas fiquei a conhecer muitas pessoas e isso é sempre bom. Devo também dizer que fiz um esforço hercúleo para tentar entender a minha letra e copiar esta blasfémia toda.
Agora é vida nova. Tudo novo. Mas as ideias, essas mudam. E estão sempre cá, estúpidas como sempre!

domingo, outubro 30, 2005

Intelectualidade VI

Ele há jogos de palavras muito subtis:


in O Mirante 28 Out. 2005, edição Lezíria do Tejo


Mais comentários para quê?

sexta-feira, outubro 14, 2005

Diário de Caloiro I

Finalmente, após todas estas semanas de intensa adaptação universitária, tive tempo para escrever qualquer coisinha de mais consistente neste blogue de ideias completamente incongruentes.
O que se passou, e infelizmente ainda se passa, é que eu ando a tomar parte naquele tão afamado ritual de acolhimento para os recém-chegados do ensino secundário, les praxes. Para quem não sabe ou ainda não se apercebeu da minha falta no liceu de Almeirim, entrei agora para a faculdade. Não, não assaltei o bar da escola e fugi com o stock de folhados mistos, vim mesmo para Lisboa. Por isso sinto que tenho algo a dizer sobre os acontecimentos que ocorrem nas mais recentes três semanas da minha vida.
Eu não podia estar mais em desacordo com aquelas pessoas que dizem que praxe é hierarquia. De facto, vou usar este intrépido blogue para desmascarar essa insinuação: praxe não é, nem nunca sonhará sequer ser hierarquia. Praxe é simplesmente humilhação e subversão de todos os valores eticamente aceitáveis. Praxe é meter uma grande rolha na boca dessa gorda senhora que é a dignidade humana. Contudo, praxe é diferente de muitas coisas que as pessoas possam pensar. Praxe não é, por exemplo, uma sandes de queijo. E isso é que a distingue de muita coisa neste mundo.
Por essa mesma razão, publico agora e aqui o meu diário de sofrimento, comdamente separado em vários posts, que eu tenho mais que fazer.

Segunda-feira, 19 de Setembro de 2005 - Dia das inscrições:
23:30
Hoje, vai-se lá saber porquê, fui a primeira pessoa a inscrever-se. Quero dizer, aquilo era por ordem de chegada e eu por acaso cheguei em primeiro. Além de me marcarem como uma mera peça bovina (e isto é ser humilde), ensinaram-me um método linguístico completamente novo. Cada vez que me dirigissem a palavra, a única coisa que poderia afirmar era um poético grunhido. Mais nada. Mas o pior nem foi isso. Eu estava com a minha família, e a família normalmente apoia o coitadinho que está a sofrer. Sim, isso era o que se esperava. Aconteceu? NÃO. Enuqanto eu rastejava de joelhos a venerar veteranos e veteranas, a malta do meu fundo genético ainda se ria com a minha humilhação. Ó meu Deus.

A partir daí fiquei mais conhecido por BAAAH. Ou por cunhas, também vai-se lá saber porquê.
À tarde fui à procura de casa. Grande sorte, calhei num apartamente bem aceitável, no fim de ver bastantes e cujos hábitos de higiene muito ficavam a dever à palavra detergente. Tenho um quarto só para mim, e estou a partilhar a casa com mais dois tipos, ainda não sei quem são. Com um bocado de sorte não cheiram mal dos pés.


Domingo, 25 de Setembro de 2005 - Dia da chegada
22:15
Os tipos que moram comigo cheiram mal dos pés. Vá lá, estamos em quartos separados e eu já enchi o meu com aqueles ambientadores que a minha mãe trouxe de casa. Neste momento estou na minha cama e tudo o resto cheira-me a sabão de limpeza. Que frescura. Sou um tipo esquisito.
Há aqui um café ao pé da minha casa. Vou lá ver os ambientes.

01:30
As praxes já começaram. Conheci vários caloiros que como eu estão a morar ao pé da faculdade. O ambiente estava óptimo no café, até aparecerem uns veteranos com um ar inconfortavelmente tendente para o assassino. Obrigaram os meus recentes amigos a carregar móveis de madeira maciça do segundo andar para o rés-do-chão, e a mim a lavar 50 kgs de loiça que mais pareciam ter participado num ritual de sacrifício humano em tempos que já lá vão. Descobri depois de todo o meu empenho e coragem que o veterano abusador em questão era de Matemática, e sendo eu de Engenharia Química e Bioquímica, ele não estava autorizado praxar-me, segundo umas regras invisíveis que uns tipos com anos a mais por lá fizeram.
Quero matar alguém, mas não hoje que estou cheio de sono. Vou pôr isso na minha agenda. Mas não agora, que não me quero lembrar da fatídica limpeza de pratos.

02:03
As minha unhas ainda cheiram a banha de porco. Meu Deus, tenho que ir lavá-las pela trigésima vez. Bolas.

sábado, outubro 08, 2005

Intelectualidade V

Se há facto que que eu sempre julguei certo é que não se pode criticar a liberdade estilística assim à papo-seco. Se a oralidade difere da escrita, então o comezinho afasta-se e muito do puro trabalho intelectual.
A ver estes exemplos que encontrei apenas no espaço de uma semana, tenho que gritar a alto e bom som para todo o mundo me ouvir:

Ele há coisas poéticas.



in panfleto aleatório


in O Mirante 28 Set. 2005, edição Lezíria do Tejo


Ça, c'est beau.

quarta-feira, setembro 21, 2005

É o quê pá? III

Os nossos militares andam profundamente revoltados com o Presidente da República por não permitir que estes façam greve e mais, por promulgar várias medidas que não estão nada a favor dos responsáveis pela defesa nacional.

Na mesma semana, a TVI lança mais um reality show com "figuras públicas portuguesas", desta vez a brincarem à tropa.

A pergunta que deixo no ar é pura e simplesmente esta:

Não querem bater mais no ceguinho?

terça-feira, setembro 13, 2005

Expressão Escrita

Imagina como foi a vida da fadazinha do país do Sol

Uma vez, num certo país chamado País das Neves, havia uma fada que era um pouco tonta porque em vez de facetar os cristais de gelo que a rainha das fadas lhe mandava facetar preferia ir patinar nos lagos gelados com os seus patins de prata até que um dia deixou derreter os cristais com um pálido raio de Sol.
Zangada, a fada-rainha expulsou a pobre fada do País das Neves.
Então, a fadazinha partiu levando consigo os seus véus, os patins de prata e a varinha de condão.
Passou por picos nevados, florestas brancas até que chegou a um país que já não devia ser o País das Neves pois só havia verduras.
Então, ela foi-se apresentar à fada Rainha daquele país e contou-lhe a sua triste história.
-Está bem, podes ficar. - disse a fada Rainha. - Mas terás por companhia a fadazinha Rosa. Ela ensinar-te-á tudo o que aqui há.
-Concordo em absoluto, Sua Majestade!
Então, a fadazinha Rosa conseguiu habituá-la na sua vida no País do Sol.
Como a fadazinha se habituou depressa conseguiu ganhar as eleições à rainha do País do Sol.
Então, a antiga rainha disse-lhe:
-Parabéns fadazi... rainha fada. Tu mereces porque te esforçaste!
Então, a nova fada Rainha viveu o resto da sua vida feliz a comandar o País do Sol.

David Trincão, 5 de Março de 1997 (8 anos)


Isso mesmo. A criança doentia que escreveu isto foi nada mais nada menos do que eu mesmo, tirando a parte da criança, claro está. A imaginação dos mais novos, particulamente a minha, é perturbante. Bem, por onde devo começar?
Estilisticamente este texto é incomparável, nomeadamente na anaforização da palavra então e na insistência do uso de facetar, que é um verbo que não se ouve todos os dias. Como vi a melhor oportunidade para o poder utilizar, fiz questão de o fazer duas vezes seguidas, que era para deixar a coisa bem sublinhada.
Depois há um certo mistério latente em como o pálido raio de sol chegou ali e derreteu os cristais sem mais nem menos. Mas como eu tinha 8 anos, muito provavelmente achei que era melhor cortar no suspense para não estragar a progressão da narrativa.

Gostaria contudo de dar especial destaque à felicidade da fadazinha aquando na cadeira do poder e para a minha fantástica noção do sistema político vigente numa monarquia:
Como a fadazinha se habituou depressa conseguiu ganhar as eleições à rainha do País do Sol.
Cá está. Dez anos depois vejam só no que deu.

segunda-feira, setembro 12, 2005

Intelectualidade IV

Hoje fui ver um filme, era ele o House of Wax. Devo dizer que a prestação da Paris Hilton é no mínimo invulgar, já que surpreende o facto de esta vez ela estar mais vestida do que nas suas outras actuações. Digamos que a sua componente humana nesta obra é um bocado mais artística e um bocado menos física.

quinta-feira, setembro 08, 2005

Só cascalho

Eu costumo saber muitas coisas, sendo a maior parte delas mais opinada do que propriamente aprendida. O problema é que estava completamente sem tópicos nenhuns, pelo menos até às quatro da tarde do dia de hoje.

O que aconteceu, meus intrépidos e escassos leitores, é que em cerca de 20 rápidos segundos a minha mente, que até então se encontrava na mais solitária escuridão, iluminou-se, e mais, ofuscou-me a mim mesmo. Eu fiquei de tal maneira encandeado que parecia que tinha visto uma explosão. E isto porque vi, já que presenciei o impresenciável: as torres de Tróia a irem à vida.

O 11 de Setembro não cessou o gosto de se ver destruição, nem pouco mais ou menos. Portugal queria mais, estilo reality show.
Se não pudesse ser com sangue, então seria com explosões.
Se não pudesse ser com terroristas, então seria com um representante do governo português.

E nisto eu encontro três razões mais uma (bónus) para achar que isto foi extremamente peculiar, que é uma palavra que a gente desta terra inventou para não se dizer foleiro. Em Portugal este tipo de eventos costumam chamar-se peculiares.

Primeira razão: houve aquela redoma toda de marketing à volta do acontecimento, a que imploro a alguém que me esclareça o facto de ser assim tão importante mandar dois mamarachos abaixo. Chamem-me inculto, porque não sei que aquilo foi um grande investimento no tempo da Maria Cachucha que não resultou, e coitadinha, tanta gente investiu...
Só posso responder :
-Pff! Eu fiz um investimento de 12 anos no ensino público e saí de lá mais parvo do que quando entrei. Alguém me quer aniquilar e filmar o acontecimento?

Segunda razão: aquilo é uma demolição. Uma demolição é costume ser apenas a desconstrução súbita de edifícios velhos. Então porque é que têm que haver lugares VIP? Bem, aquilo deve ser mesmo muito giro. Eu imagino os presentes:

"-Wow."
"-Sim senhoras..."
"-Olha, viste aquele bocadinho de cimento?"
"-É pá, isto sim, é entertainment."

Cá para mim os terroristas bem podiam contactar os media portugueses para avisar quando planeam dar cabo do coiro de alguém, preferencialmente dentro de um edifício, ainda mais preferencialmente se se puserem com explosivos pelo meio. É só telefonar a uma empresa de catering, tendo cuidado para seleccionar os melhores croquetes e que as gambas não estejam muito estragadas.

Terceira razão: os portugueses devem ser muito chiques. Alguém reparou que todas as comunicações estavam a ser feitas antes e após a destruição, não na língua de Camões, mas... EM INGLÊS? O tempo todo. Antes da implosão tinha-se qualquer coisa como:

"Everything's ready? All righ'!"
"Five, four three, two, one..."
KABOOM!

E de seguida ouviram-se mais umas falas, desta vez por puras almas lusas e às quais eu não apelidarei de grotescas, apelidarei apenas de agressivamente pós-modernistas:

"-ÉXCELENT!"
"-VÉRI GÚDE! VÉRI GÚDE!"
"-CÔNGRÁTCHULÂCIÓNES!"

Não só os técnicos eram ingleses, mas os próprios portugueses, talvez perplexados com todo aquele tumulto, desataram a falar estrangeiro. E não se calaram. Não me surprenderia nada se depois do dito espectáculo, já no indespropositado buffet ainda se ouvisse:

"-Oh, my God, I need a piss, and quick!"
"-These rissoles are very good."
"-I liked the explosion. Now I have to go home to smell my Maria's codfish."
"-It's a mini and a saucer of tremoços, please."

São estes pequenos momentos que não têm preço. Chamem-me o António Damásio para analisar esta gente, que pelos vistos assistir a explosões activa partes cerebrais relativas à linguagem que ninguém sabia.

E agora a Razão Bónus! :
Ok, estavam muitas câmaras a filmar o local em diversos ângulos: umas à frente, outras atrás, outras de lado. Mas todas de fora. O que me chamou a atenção foi o facto de terem colocado uma câmara DENTRO de um dos prédios para filmar 1 segundo de derrocada. Visto ter sido tão breve vou analisá-la frame por frame:

Frame 1 : Prédio intacto.
Frame 2 : Vê-se uma luz forte.
Frame 3 : Escuridão.

Fantástico. Cá está um bom uso para uma câmara. Prédio, luz, escuridão, câmara destruída.

De qualquer das formas fiquem atentos, porque a próxima implosão que houver vai-vos gastar a mioleira. A menos que sejam como eu, e se dediquem a coisas mais interessantes como a escrita desiquilibrada em blogues despropositados.

segunda-feira, setembro 05, 2005

É o quê pá? II

Após os trágicos "incidentes" vividos no sul dos Estados Unidos, no rescaldo da passagem do furacão Katrina, anda por aí muito boa gente a acusar o seu peculiar presidente de racismo.

Eu discordo. De facto, penso que George W. Bush considera que todos os homens nascem iguais em deveres e direitos, menos os criminosos, que por acaso são todos pretos.

domingo, setembro 04, 2005

Intelectualidade III

"Filho, eu não trabalho em serviço."
by rapariga da minha turma do 9º ano.


Nunca ninguém esteve tão perto da palavra honestidade.

Já da palavra urinol, mais ou menos.

segunda-feira, agosto 29, 2005

SU DOKUltura

O mundo está oficialmente louco.
Estamos só à espera que a Manuela Moura Guedes faça o seu veredicto, e pronto, estamos todos burocraticamente aptos para entrar no Júlio de Matos. Sem pré-requisitos nem 95 pontos nas específicas.

De facto, a sociedade ocidental ensandeceu completamente rendida ao jogo que os japoneses já utilizavam para fazer coisas tão variadas como brincar, passar o tempo, competir, aprender, contar, ler O Prenúncio das Águas de Rosa Lobato Faria, pintar as unhas e fazerem-se às miúdas. Falo do jogo que que pôs toda a gente a duvidar da sua capacidade de conhecer os números até ao nove, o Su Doku.

O Su Doku é um jogo que remonta ao século XVII, quando um tipo armado em esperto se lembrou de inventar uma coisa do género, baseada no posicionamento de soldados de diferentes infantarias. Como é óbvio, isto soa incrivelmente a sexualidade retraída, já que para um homem que imagina uma coisa destas, ele não devia ter acesso fácil a mulheres nem a ovelhas.
Nos anos 70 saiu num jornal nos Estados Unidos um conjunto de exercícios parecidos, mas como aí as pessoas provavelmente já tinham acesso fácil a mulheres e a ovelhas, não esquecendo os frascos de pickles, também não pegou muito.

Agora no Japão as coisas deviam ser diferentes. Com todas aquelas regras e disciplina, mulheres, ovelhas e frascos de pickles já estavam a uma distância considerável. E isso com certeza favoreceu a proliferação do Su Doku, que na língua do país do sol nascente significa qualquer coisa como "único número" ou "única contagem". E já agora, gostava também de informar metade deste país que Su Doku não tem muito a ver com Son Goku, já que este último era um super-guerreiro do espaço e o primeiro um super-guerreiro da última página do jornal O Público. E aquilo hoje em dia ganhou bastante terreno. Tanto que até eu sou mais uma vítima desse vício terrível.

Sim, eu e o Su Doku temos uma relação entre os ambos tal como o Jim Morrisson tinha com as drogas. Ácidos, haxe, coca, vão-se embora, que isto é muito mais viciante.

O que eu tenho vindo a pensar é numa série de ideias que possam diversificar este incrível passatempo. Um bom exemplo seria a de pôr grelhas de Su Doku no papel higiénico, mas daquelas fáceis, porque também não se pode gastar assim tanto tempo a dar cabo da mioleira. No fim, era só usar para o seu fim óbvio e deitar pela sanita fora.
Pensem bem nisto, porque até tem a sua parte poética. Estarmos mais de meia hora feitos parvos a colocar números para no fim os limparmos de forma veemente ao rabiosque e puxarmos o autoclismo é juntar duas formas de trabalho: o primeiro é trabalho de pensar e o segundo é trabalho de obrar.

O que é ainda de referir é a quantidade de diferentes Su Dokus que agora existem. Vamos a exemplos, uns mais prováveis que outros:

Su Doku Clássico
Su Doku Colorido
Su Doku Mini
Su Doku Mais
Su Doku Menos
Su Doku Mais ou Menos
Su Doku Assim Para O Coiso
Su Doku Sopa da Pedra
Su Doku Samurai
Su Doku Ninja
Su Doku Star Wars
Su Doku Sousa Gomes
Su Doku Expert
Su Doku Fácil
Su Doku Intermédio
Su Doku Entrecosto
Su Doku Big Mac (©)

Agora, ideias ilustradas! E não, eu não recebi isto por e-mail, fui eu que fiz. Aliás, nota-se pela qualidade. Eu nasci para o webdesign.

Su Doku para Loiras (Em qualquer espaço pseudo-humorístico, tem que haver sempre este velho cliché):


Su Doku para Revoltados Contra A Sociedade:


Su Doku para Obcessivos:


Sudoku para Pré-universitários (Obcessivos)


Su Doku para Cromos Da Bola:


Su Doku para Quem Quer Subir De Escalão Social À Força Toda:


Su Doku para Quem Tem A Mania Que Tem Que Ser Diferente:


Su Doku para Filosóficos:


Já têm as ideias, não têm? Agora é só pô-las em prática. Pelo menos devem ser mais interessantes do que, vamos lá ver, observar bichos-da-seda a comerem folhas de amoreira.


D'virtem-se!

quarta-feira, agosto 24, 2005

É o quê pá?

Ouvi dizer que José Cid sempre se considerou a mãe do rock português. Absorvam o significado disto. Isto deve ser daquelas coisas que toda a população devia estar informada.

Eu até acho esta afirmação extremamente profunda e curiosa, já que toda a gente também sabe que Homero foi a mãe da epopeia, o Bin Laden é a tia do terrorismo internacional e que dentro em breve Britney Spears vai ser pai de uma saudável criança.

terça-feira, agosto 16, 2005

Intelectualidade II

Estou no centro de recursos de Peniche.
Estou também rodeado de miúdos com brincos à Cristiano Ronaldo.

De repente, entra uma senhora que diz: "Bom dia."
Eis que oiço do fundo da sala : "Mordia?!"


Isto foi um poema tornado realidade.

quarta-feira, agosto 10, 2005

Surf's up

Os meus agradáveis tempos passados na praia a olhar bifas com seus olhos lânguidos e desejosos pelo meu toque sensual estão-me a dar a conhecer inúmeras reflexões vindas do fundo de mim mesmo. Começo sinceramente a pensar que o povo português conhece a moda. Aliás, o povo português é perito numa moda : a moda de só haver UMA única moda.
Como? Passo a explicar, tomando como referência três anos anteriores ao corrente. Perdão pelos possíveis anacronismos, mas estou mais para pensar em miúdas do que andar aí a lembrar-me de datas.


2000 - A moda dos telemóveis
Toda a gente tinha que ter um telemóvel. Quanto mais avançado melhor. Ao longo do tempo as coisas foram arrefecendo, e hoje em dia comprar um bem high-tech começa a roçar o etnografídico. Mesmo assim, a posse deste objecto é indispensável para se engatar e para ser ser assaltado na linha de Sintra.

Conclusão: está in falar ao telemóvel mas está out andar com muitas luzinhas no bolso.


2002 - A moda da Palestina (e salvem Timor!)
Tudo de lencinho ao xadrez, lembram-se? Hoje em dia quem o ainda usa é da Juventude Comunista Portuguesa ou então é bombista suicida.
As vigílias para a independência de Timor-Leste também ficaram muito em voga. Digo isto porque mal os tipos ficaram livres foram esquecidos.


Conclusão: está in lutar pela independência de quem sofre mas está out gostar de países do terceiro mundo.


2004 - A moda do patriotismo
O povo todo numa euforia do Euro resolveu aderir à colocação da nossa bandeira em todos os locais, algumas com uma certa influência oriental. Exaltar a pátria nunca fez mal a ninguém, menos aos americanos mas esses são as personagens do costume. O pior foi o súbito desaparecimento de tudo o que era orgulho nacional.

Conclusão: está in gostar de Portugal mas está out gostar de Portugal.


E agora em 2005, presenciamos algo avassalador: a revolta da criançada.
Enquanto há uns tempos era fashion ler a Playboy, agora é fashion ver os Morangos com Açúcar. Enquanto o auge do sexy era uma mulher de 30 anos, agora o auge do sexy é uma mulher de 12.
E enquanto o raggae, o surf e o bodyboard eram para quem verdadeiramente gostava e entendia o espírto, agora é para o povo todo, só para a figura. Será que vamos testemunhar, à semelhança do chamado desporto-rei, o aparecimento de cromos do surf?


Enganam-se aqueles que pensam que eu defendo um gosto pessoal, é verdade que aprecio esse tipo de desporto e também a música, mas como mero leigo, apenas e só. Porque quando se gosta verdadeiramente de uma coisa, tem que se perceber o que ela significa. E hoje em dia, mostrar uma prancha ou uns pés de pato tem tanto simbolismo como mostrar o relógio novo que se comprou que é tão giro e depois de amanhã compro outro que vai ser melhor.
Enquanto nação somos peritos nisso. É só mostrar, mas entender, está quietinho.


Conclusão: Sou um bocado crítico, não sou? Pelo menos percebo isso, e mais não digo.

terça-feira, agosto 09, 2005

Quanto é que você vale?

Para mim, os tipos que inventaram as médias escolares deviam arder numa fogueira. Ou isso ou eram obrigados a ver um programa do social. Entre um auto de fé e ver tias a comer croquetes como se não houvesse amanhã, venha o Diabo e escolha. Salvo seja, claro está.

O que não consigo entender é como é que as pessoas podem ser comparadas por um numerozinho com tanta facilidade. Faz-me confusão, é só percentagens, e tem tudo medo de se esclarecer. Querem coisa mais sem graça?
Eu cá até acho que roça o gay. Porquê? Simples: achar piada a um valor de zero a vinte já não é muito másculo em si, agora tu só vais para ali e para acolá com mais de xis, é francamente abichanado, não concordam?

Já imaginaram se este sistema escolar se aplicasse às coisinhas mais comezinhas do dia a dia?
Adoro a palavra comezinho. Faz lembrar almoço.

-Olhe queria uma mine e um pires de tremoços, se faz favor.
-Ai agora é assim, quero e dão-me? Ó amigo, quanto é que teve a Introdução aos Estudos Teologais para a Consciencialização da Ingestão de Imperiais e Tremoços?
-É o quê pá?
-É pá se não concluiu essa cadeira, 'tá feito. Qual foi a sua média do secundário?
-Hã?
-Pois, multiplica-a por 45%, adiciona 32% da nota da específica, mais 16% pelo comportamento, 9% pelos trabalhos de grupo e desconta 2% para o IRS. Se for superior ou igual a 12,3... olhe, tente a taberna rasca mais próxima.

Se é que ainda há coisa estúpidas com mais graça neste planeta, há coisas estúpidas com menos graça que sobram. Até pensar que uma nota faz uma pessoa melhor do que a outra, com mais carisma ou assim. Se calhar o Tino de Rans teve melhor média do que o Fernando Pessoa. É comparar o sucesso dum e do outro em Portugal...

Mas as médias não são só um sinal de popularidade hoje em dia. Elas são um autêntico marco de autoridade.

Jéssica Tatiana, vai arrumar o teu quarto.
-Não vou nada. A minha média é superior à tua, por isso arruma-so tu!
-Mas isso não vale, tu não fizeste específicas!
-Mesmo assim não vou.
-Olha que eu pego no chinelo, Jéssica Tatiana.
-Pegas pegas. Com essa nota a Biologia, vê lá se me tocas.

O mundo está condenado.

Sim, já perceberam que este meu post é um bocadinho menos uma aleatória dissertação disparatada e um bocadinho mais uma traumatizada dissertação disparatada. É que eu candidatei-me ao ensino superior há uns dias e nunca pensei que o processo fosse tão doloroso. Mais doloroso, quiçá, do que ver o Preço Certo em Euros com uma enxaqueca de se rebentaram as têmporas, e ter na mão um exemplar de sado-masoquismo para principiantes.
É que eu ainda não percebi muito bem o que fiz, só sei que mexi em papéis, escrevi o meu nome algures e pintei umas bolihas com números lá dentro.

Esperem...
Mexer em papéis?
Escrever o nome algures?
Pintar bolinhas com números lá dentro?

Não, eu acho que não me candidatei ao ensino pré-primário. Foi ao superior, não foi?

Este mundo está cada vez mais louco. Ou sou eu que estou cada vez mais são. Ou então nem por isso, anda tudo trocado.

terça-feira, agosto 02, 2005

Momento da citação subjectiva



William Shakespeare - A Midsummer Night's Dream - Act 3, Scene 1



Sim, é do anúncio das Levi's. Meu Deus, eu sou tão consumista.