quinta-feira, junho 30, 2005

Como uma virgem (salvo seja)

É verdade que muitos de nós apresentam alguma... não digo aversão, digo antes, curiosidade repulsiva, em relação à música popular portuguesa, vulgo música pimba. Eu sou uma dessas pessoas.
O que eu tenho vindo a reparar é que este sentimento é impressão nossa. Quantos de nós ainda caem no erro de pensar que tais coisas só existem na nossa língua, na pátria de Fernando Pessoa? Ou que lá porque uma música é cantada em inglês, é mais profunda? Desenganem-se, que eu desta venho desmistificar de uma vez por todas o segredo da música ligeira.

Vamos a exemplos?

Vamos a exemplos:

No outro dia estava eu a estudar pacificamente Biologia, quando oiço este grande êxito daquele não menos conceituado José Malhoa, vindo da telefonia do meu vizinho:

E todo a malta gritou,
E até o padre ajudou,
"Aperta, aperta com ela!"...


Execrável, no mínimo, não parece? Mas isto é só ao princípio. Ora interpretemos isto em inglês:

And all the people shouted,
And even the priest helped,
"Squeaze, Squeaze her tight!"


Já fica mais profundo. Vamos agora estabeçecer um paralelismo entre esta música de José Malhoa e vejamos... a de Madonna. Eu sinceramente acho que estes dois artistas têm muita coisa em comum, já que Malhoa e Madonna começam com a mesma letra. M. Lá está. Alguns dos versos de Music são como se seguem:

Hey Mr. DJ put a record on
I wanna dance with my baby
And when the music starts
I never wanna stop,
It's gonna drive me crazy

Music, makes the people come together, yeah!
Music, mix the bourgeoisie and the rebel!

A-a-a-acid rock!


Que na língua de Camões fica qualquer coisa do género:

Hey, sr. D.J. põe lá um disco
Eu quero dançar com o meu bebé
E quando a música começar
Eu nunca quero parar,
Vai-me pôr doida

Música, faz a malta ajuntar-se, sim!
Música, mistura a burguesia e o rebelde!

P-p-p-pedra ácida!


Eu confesso que até admiro uma artista como a Madonna. Agora o que eu nunca faria era aconselhá-la a cantar em português. É que por estes lados, se as pessoas vêem alguém a dizer que pretende dançar com o seu bebé, comentam. E as pessoas de cá são muito linguarudas.

Admito também que a parte da pedra ácida é um bocadinho rebuscada, mas era para dar mais ênfase à questão. O que sinceramente não consigo assimilar é a concepção da hierarquia social aqui presente. Só há burguesia, e depois o rebelde.

Reparem que na cantiga de José Malhoa temos quatro figuras fulcrais: a malta, o padre, "ela" que tem de ser apertada, e o sujeito lírico. Em Music só temos a burguesia e o rebelde. O bebé e o DJ também existem, mas esses não contam porque não interessam na luta de classes.
Mas se queremos aprofundar ainda mais as diferenças, há que ter em conta os versos seguintes de Aperta, aperta com ela:


A banda sempre a tocar
O povo todo a bailar
Aperta aperta com ela


Fantástico. A banda aparece aqui como que uma revelação e o povo já baila, enquanto o "eu" aperta. Eu gosto destas músicas narrativas, a pessoa está ali parece que a ouvir contar uma história, se bem que me parece um bocadinho surreal. Há coisas que não fazem muito sentido, mas provavelmente devem sê-lo assim.

Nós apertámos os dois
Então aí é que foi
Aperta aperta com ela

Amor, amor pois então
Começou nossa paixão
Nesse baile de verão


E aqui está. Esta é uma das mais significativas produções musicais no âmbito da lírica portuguesa, e a meu ver transmite-nos mensagens tão inesquecíveis como o padre que "ajudou". Não sabemos bem o quê, nem como, mas o padre ajudou.

José Malhoa não está a insinuar que era tão tanso que teve que ser o pároco da sua localidade a encorajá-lo a fazer-se à moça, certo?

Eu espero que não, por isso é melhor fazer que não entendo que o padre não ajudou. Deu uma dica, pronto.

Agora, meus senhores e minhas senhoras, Ashlee Simpson:


You can dress me up in diamonds
You can dress me up in dirt
You can throw me like a line-man
I like it better when it hurts

Oh, I have waited here for you
I have waited...

You make me wanna la la
in the kitchen on the floor
I'll be a french maid
Where I'll meet you at the door
I'm like an alley cat
Drink the milk up, I want more
You make me wanna
You make me wanna scream


Em inglês já se faz ideia, mas vejamos como fica em português. E quando digo português não digo português versão miúdas com menos de 16 anos que possuem photoblogs. Mas falarei disso noutra altura.

Tu podes-me vestir em diamantes
Tu podes-me vestir em sujidade
Tu podes-me atirar como uma coisa
Eu gosto mais quando aleija

Oh, eu esperei aqui por ti
Eu esperei...

Tu fazes-me querer lá lá
Na cozinha, no chão,
Eu serei uma empregada francesa
Onde te vou encontrar à porta
Sou como uma gata vadia
Bebo o leito, quero mais
Tu fazes-me querer gritar


Pois é, mas ver a irmão mais nova de Jessica Simpson a querer fazer lá lá é no mínimo supreendente. E confesso que me agrada a ideia da gata vadia: é... arrojada. Acho que me vou tornar fã de Ashlee Simpson.

De qualquer das formas, após a análise destes pequenos excertos de algumas músicas que se podem ouvir no quotidiano, posso concluir que o povo português é extramamente previsível: não estou a ser, nem quero ser anti-patriótico, mas não sei se já repararam que nós temos um comportamento igualzinho não só nos sons que ouvimos, mas também na roupa que vestimos, na comida que compramos, nos detergentes que usamos, e até nos amigos com quem andamos. Roda tudo à volta do invólucro, quando na realidade é exactamente a mesma coisa por dentro.

Quero dizer, com os amigos já é um bocadinho diferente.

Mas na pornografia não, por exemplo.

A pornografia é um ramo artístico em que eu acho que as discriminações mais se aplicam. Afinal, porque é que Giovana, a colegial, é melhor que Sheyla, a garota gulosona? Hã?
É porque a última, por ser gulosa, deve ser obesa? Isto tem que se interpretar tudo no seu contexto, não pode ser assim.

Depois deste desesperado momento de esquizofrenia sexual, acabo assim este post sobre música. Tudo a ver, não acham?
Este blogue está cada vez mais enriquecedor. Começa-se com José Malhoa, acaba-se com ídolos do Sexy Hot. Até era capaz de continuar, mas é melhor parar, que isto já vai muito à frente.

Concluindo, cada vez que ouvirem uma musiquinha, seja ela ligeira, seja ela pop, atentem na letra. Poderão encontrar mensagens úteis para a vida. Eu aprendi a apertar com ela.

...

Meu Deus, falar em apertar com ela no fim de se falar de sexo, já é abusivo, no mínimo. Over and out.

sábado, junho 25, 2005

Há palavras que não deviam desaparecer

Venho por este meio expressar o meu mais profundo sentimento de defesa para com alguns dos vocábulos que, infelizmente, se encontram em sérias vias de extinção. Ou nem por isso.
É verdade, tenho repararado que há palavras que estão a deixar de ser ouvidas nos nossos dias, e esta cruel ostracização, no meu mais sincero ponto de vista, é profundamente injusta.
Muito boa coisinha nunca seria o que é se não fossem as palavras que lhe deram origem. Origem essa como a palara "arrebentar". Por esta razão, depois de algumas semanas de pesquisa em vários dialectos (alguns mais etnografídicos que outros), consegui encontrar verdadeiros tesouros da língua portuguesa. E, meus poucochinhos leitores, aproveito este glorioso momento para vos pedir, melhor, para vos implorar, que não deixem nunca morrer estas expressões.

Podemos começar com uma palavra que eu gosto muito.Eu gosto muito de muitas palavras, mas esta é muito bonita, é a palavra carrapeta.
A própria sonoridade de carrapeta é mágica: é que a tudo o que seja menor que um cotonete podemos chamar isto com a maior das descontracções.

Exemplo 1:(este dito por uma simpática etnografídea da minha turma)
"No outro dia gamaram as carrapetas das jantes do carro do meu namorado!"

Exemplo 2:
"Bem tentei consertar a lâmpada, mas tinha a carrapeta estragada.
"Não queres dizer o casquilho?"
"Pois... isso. A carrapeta, prontos."

Temos também a expressão açambarcar, que é uma coisa linda.
De acordo com o dicionário, esta alegre palavrinha significa acumular mercadorias em grande quantidade para provocar a sua falta no mercado e vendê-las depois por preço elevado. Monopolizar, digam antes.
O pior é que na actualidade muito pouca gente monopoliza. Quero dizer, monopoliza, só que eu pelo menos só o faço quando preciso, ou seja, quando estou a jogar ao jogo que se chama Monopólio. E não é todos os dias, nem todas as pessoas estão dispostas a isso, já que eu acho que é preciso muita falta de amor próprio para se deixar representar em jogo por coisas como um ferro de engomar, uma bengala, ou um outro brinde do bolo rei. Eu pelo menos não estou.
Agora imaginemos que açambarcar começa também a significar coçar as partes baixas. Acredito que a partir deste momento muitos grandes empresários começem a falar de açambarcar à séria e que muitas das multinacionais já o façam com todo o orgulho.
Construir um império económico inteirinho por puro açambarcamento não deve ser pêra doce.

Arrebita e bardajona são dois termos engraçados, e que na minha opinião não se podem separar. Se uma pessoa diz a palavra arrebita numa frase, 99,98% das hipóteses indicam que, mais tarde ou mais cedo, vai usar a palavra bardajona. É fatal como o destino.

Exemplo:
"Aquela modelo arrebita bastante, pena é ser tão bardajona."


Muito provavelmente devem-se estar a questionar como raio me vou eu lembrar destas expressões. E eu digo-vos. É fácil. Não precisei assim de tanta investigação: eu vejo o "Fiel ou Infiel".
É que neste "pograma" as pessoas falam como se ouvia no tempo em que a revista Gina ainda era famosa. Para dizer a verdade, eu acho que os grandes estudiosos da gramática não devem dormir nas Sextas-feiras à noite, tão desertinhos que devem estar para ouvir novas construções, e assistir a uma verdadeira ressurreição de palavras nunca mais ouvidas.
É que são verdadeiras cataratas de insultos uns a seguir aos outros. Para comprovar a fonte de toda a minha inspiração, deixo aqui um excerto do discurso de um suposto namorado traído.

Exemplo:
"Olha para aquilo! Olha para aquilo! Bardajona! Porcalhona! Queres é que to apalpem!Arrebita-so pouco, arrebitas! Queres é mexerem-te nas mamas! Olha! Eia! Eu tas digo ó minha vaca leiteira, eu tas digo! Olha, já está só a mostrar a carrapeta ao outro! Porca!"


Carrapeta. Cá está. E é assim, cabe-nos a nós, e a alguém com sotaque abrasileirado, perpetuar estes conjuntos fonéticos que tanto nos identificam. Mai' nada!