quarta-feira, janeiro 10, 2007

Portugal... isn't that spanish for referendums?

Há poucas alturas do ano em que nos unimos em torno de causas comuns. Isto é, não contando o Natal. Nem a Páscoa. E as férias grandes. E os fins-de-semana, vá lá. Bem, mais ou menos unidos, uma das mais lindas causas de união entre os homens é aquela tão natural vontade de nos desancarmos uns aos outros ao pontapé por causa de referendos.
Eu digo referendos porque aparentemente o nosso país facilmente se aborrece se estiver muito tempo sem votar. Verdade seja dia, desde que o Big Brother acabou, a variedade também já não é muita. Hoje em dia já não há Vanessas Flavianas que dizem muitas vezes "prontos" para expulsar de casa e isso ressente-se na sociedade. O mero contribuinte dirige-se às cabines e mete uma cruz para escolher um dos três: o governo, o presidente ou o aborto. Até eu que só exerço o meu dever de cidadão há pouco mais de um ano já me habituei a isto. Honestamente, já chateia.

É por isso que este ano escolho o aborto.

SE ESTÁ A LER ISTO É PORQUE NÃO FOI ABORTADO.
Parabéns. Se consegue ler este texto é porque ou os seus pais não o abortaram ou você ainda não morreu com o bicho da Sida porque decidiu que o preservativo é uma barreira à natureza. De um certo ponto de vista, até o é. Os vírus mortíferos afinal fazem parte da Natureza. Sob o ponto de vista humorístico, José Castelo Branco também.

CONTRIBUIR COM OS MEUS IMPOSTOS PARA FINANCIAR CLÍNICAS DE ABORTO?
É mesmo um horror! E contribuir com os meus impostos para financiar bebedeiras de futebolistas? A Tagus está baratinha, não são precisos grandes salários... mas essa do aborto é que tocou cá no fundo. Bem fundo, lá perto do ponto G.

Ok, ok... estou a ser muito severo, é?

O SIM PELA RESPONSABILIDADE.
Sim, matei um futuro ser humano. Adoro esta responsabilidade. É tão fofa.

MOVIMENTO JOVENS PELO SIM!
Eu sou um jovem pelo sim. Quando estou numa discoteca a mostrar os meus incríveis dotes de sedutor, eu quero ouvir um sim. Mas isso não acontece, e é por isso que surge esta organização: desculpem, movimento dos jovens pelo sim, mas não se importariam de ir à minha faculdade adquirir miúdas giras? Miúdas que, independentemente do que se lhes aparecer à frente, digam sempre sim? Sim, até mesmo a gajos altos, muito magros e com a mania de lançarem piadas forçadas? Por favor, SIM!

Pumba, viram? O outro lado também não perdeu pela demora. Exactamente, o mais engraçado nisto tudo é que temos dois lados. Este lado, o não, e o outro, que é a alternativa. Parece tudo tão fixo e limpinho, não é? Esperem até chegarem os eufemismos... aí vêem que o contrário de não nem é sim nem é o o resto... é aquilo mais ainda.

Vamos lá ver exemplos do que o comum dos leitores poderá pensar e a sua consciência político-social replicar:


1)Sou contra o aborto.
"Ai não digas aborto que soa a morte. E ambos sabemos que se queres ser dos escuteiros não podes falar de morte. Diz antes pró-vida!"
Pronto, pronto, sou pró-vida.

2)Sou a favor do aborto.
"Ai não digas a favor do aborto porque a favor disso não é pessoa alguma e parece mal. Diz antes que és a favor da despenalização da interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas."
Iupi, sou a favor da despenalização da interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas.
"Ai esse nome é muito comprido. Faz como os americanos e vira pró-escolha, que é para não seres contra-vida."
Ai o caraças. Sou pró-escolha.


Agora, caro leitor, reflicta em dois pontos que me parecem essenciais: o primeiro é o facto de a voz da sua consciência político-social começar com um "ai" antes de cada frase. A minha opinião é que isso é um recalcamento qualquer e é melhor consultar um psicanalista. O segundo ponto prende-se com o ser-se contra ou ser-se a favor. Para quê só duas posições se temos aqui tanta terra para semear? Porque não o "Sim, desde que o bebé seja homossexual" ou o "Não, desde que o bebé não vá integrar no suposto Jet Set português"? Urge este tipo de esclarecimento, até porque o que deste país está a precisar é mais um degradé de opiniões acéfalas. Pelo que sei, aquela cena em Lisboa não chega.

1 comentário:

Razumikhin disse...

"CONTRIBUIR COM OS MEUS IMPOSTOS PARA FINANCIAR CLÍNICAS DE ABORTO?"

A esta juntam-se grandes clássicos como:

"CONTRIBUIR COM OS MEUS IMPOSTOS PARA FINANCIAR ESCOLAS PRIMÁRIAS?"

"CONTRIBUIR COM OS MEUS IMPOSTOS PARA FINANCIAR A ARTE E A CULTURA?"

"CONTRIBUIR COM OS MEUS RICOS IMPOSTOS PARA FINANCIAR SEJA O QUE FOR?"

e ainda a típica

"CONTRIBUIR COM OS MEUS IMPOSTOS PARA FINANCIAR ESTÁDIOS DE FUTEBOL PARA O EIRO 2047?"

Aliás, agora que penso bem, corta lá a última.

Eu acho que os portugueses têm um grande carinho pelos impostos e não gostam lá muito de os partilhar com que causa for. Sim, O PROBLEMA NÃO É PAGAR IMPOSTOS, é mesmo que eles contribuam para que se faça alguma coisa. Dá-lhes comichão, ou assim.

Em relação ao resto do post, fui a Lisboa no final do ano passado e tive a oportunidade de apreciar a nova decoração de natal, que consiste em cartazes contra o aborto e cartazes a favor do aborto. É um contraste de cartazes muito estético para o anti-estético, o que ajuda o espírito natalício.
Mas o que interessa é que a democracia tem espaço para imperar no nosso país e estas votações são prova disso. Aliás, referendos.