A pré-adolescente que acaba de se encontrar com o seu reflexo, num espelho em casa, tem no seu bilhete de identidade um nome pouco vulgar, nada menos que Kátia Alexandra Conceição, denominação que lhe tem causado algum pudor ao longo dos anos, especialmente entre os demais jovens que pensam que Cascais é que é fáchon. Com o Kátia e com o Alexandra até podia conviver a certo ponto, mas era o Conceição que mais armaguras lhe provocava, Conceição era nome de avó, ou de toureira, vá lá, daquelas que são bué antiquadas, Conceição não era bom o suficiente para combinar com Kátia Alexandra, Kátia para os amigos, Káti Beijinhos para o namorado. Surprendentemente, não era Rúben Flávio quem assolava o pensamento de Kátia Alexandra Conceição naquele momento, espantava-se a cara da moça ao ver à sua frente uma rapariga que, mais que sua gémea, poderia até ser o seu duplicado e lhe respondia exactamente com o mesmo tom, exactamente com o mesmo sotaque e exactamente com as mesmas palavras. E ainda que Kátia Alexandra Conceição não se apercebesse que estava a conversar consigo mesma, não deixava de lhe parecer intrigante uma semelhança tão grande. Como se chama, Kátia Alexandra Conceição, Impossível, esse é o meu nome, Também é o meu, e verá que não só nos nomes somos iguais, Como assim, Olhe em frente, somos a imagem no espelho uma da outra, É deveras impressionante, E também respondemos com as mesmas palavras, ao mesmo tempo, Eia. Kátia Alexandra Conceição 1 e Kátia Alexandra Conceição 2 estavam ambas embasbacadas com tamanha verosimilhança, não poderiam deixar passar esta oportunidade de reflexão, por mais despropositada que fosse. É difícil de acreditar nesta nossa igualdade, olhe que até na roupa, Os saldos da Bershka são sempre os mesmos, Pois é, faz pensar o que é afinal a identidade pessoal, Como nas novelas, Sim, e nos filmes, Que filmes gosta mais, Aqueles com actores americanos, Eu também, são os mais giros, Pois é, é a vida, Sim, cá estamos, Fresquinho, não, É a mudança da temperatura, Muito interessante, marcamos encontro, Sim, amanhã à mesma hora, porque depois tenho que ir ter com o Rúben Flávio, Quem é Rúben Flávio, mais uma cópia sua, minha, nossa, Não, é o meu namorado, O seu namorado também se chama Rúben Flávio, Sim, Sua cabra, nem acredito que até o gajo me roubastes, Olha, não tenho culpa de ser mais boa que tu, Estúpida, a ver se te espetas no chão e partes a cara toda, Então adeus, Adeus ó vai-te embora. Kátia Alexandra Conceição resolveu abandonar definitivamente o espelho e ir contar, estupefacta, o seu encontro ao namorado, por SMS porque tinha mensagens grátis, com muito drama e muitos LOLs à mistura.
segunda-feira, julho 31, 2006
terça-feira, julho 25, 2006
Cá se fazem, cá se pagam.
Esta é uma ode ao tipo que me anda a deixar mensagens anónimas pouco construtivas. Pensei no teu caso e resolvi falar sobre ti, mas em verso, não vá a depreciação estragar o momento. Cumprimentos à família.
A bichanesa anónima
Certa bichanesa sorri à janela,
coitada dela
mais pálida que uma aguarela.
Sorri ao amigo,
qual dama mais afamada,
ama o menino
e por menina quer ser tratada!
Trinca aqui e ali,
carninha dura gosta esta donzela,
morde aqui e belisca acolá,
sabe a leitinho esta nossa princesa.
Ai, como o amor é bonito,
nem o pequeno petiz é daí afamado,
lindo senhorito apessoado,
és do outro lado???
Certa bichanesa sorri à janela,
coitada dela
mais pálida que uma aguarela!
Certa bichanesa sorri à janela,
coitada dela
mais pálida que uma aguarela.
Sorri ao amigo,
qual dama mais afamada,
ama o menino
e por menina quer ser tratada!
Trinca aqui e ali,
carninha dura gosta esta donzela,
morde aqui e belisca acolá,
sabe a leitinho esta nossa princesa.
Ai, como o amor é bonito,
nem o pequeno petiz é daí afamado,
lindo senhorito apessoado,
és do outro lado???
Certa bichanesa sorri à janela,
coitada dela
mais pálida que uma aguarela!
segunda-feira, julho 24, 2006
Die Verwandlung
Certa manhã, quando Tiago André acordou de um sonho inquietante, deu consigo metamorfoseado num monstruoso beto surfista. Estava deitado de costas, e ao tentar mexer o corpo constatou, horrorizado, que tinha queimaduras solares de terceiro grau por toda a pele e um fato de mergulho colado na virilha. Levou as mãos à cabeça e sentiu o cabelo abespinhado. Olhou à sua esquerda para o vidro da janela, viu que o seu cabelo normalmente moreno e bem cuidado estava agora louro-amarelado e com um corte algo efeminado. Entrou em pânico.
"O que é que me aconteceu?", pensou. Não era um sonho. O seu quarto, dantes original e de bom gosto, estava agora cheio de posters do Jack Johnson da Bravo e cartazes em jeito de tributo a tudo o que eram derivados de imitações de Bob Marley. À sua frente encontrava-se uma longboard roubada sabe lá Deus onde, com florzinhas havaianas a enfeitar. Olhou à sua direita, para a mesa de cabeceira e viu o seu bilhete de identidade. Não conseguiu ler bem, contudo Tiago André teve o horrível pressentimento de que já não se chamava Tiago André mas sim Tiago Maria. Agora já podia ser escuteiro também. Soltou um grito, desesperado, e por fim tentou acalmar-se. A sua família não o podia ver assim. Assim que os seus pais olhassem para a parede pintada com uma folha de Cannabis sativa com a legenda Legalize, sabendo bem que Tiago André, agora Tiago Maria, não passava de um tosco que se queria armar em fixe, iriam ficar boquiabertos. E assim que reparassem no seu novo estilo, iriam deixar de o tratar como um ser humano e passar a discriminá-lo pelo cordeiro portuguesinho que se havia tornado.
Tinha conseguido converter-se numa cópia maricas de si mesmo. Estava condenado.
Tiago Maria decidiu então saltar pela janela e enfiar-se no casting mais próximo para os Morangos com Açúcar. De entre os trágicos finais possíveis, este seria de todos o mais justo.
"O que é que me aconteceu?", pensou. Não era um sonho. O seu quarto, dantes original e de bom gosto, estava agora cheio de posters do Jack Johnson da Bravo e cartazes em jeito de tributo a tudo o que eram derivados de imitações de Bob Marley. À sua frente encontrava-se uma longboard roubada sabe lá Deus onde, com florzinhas havaianas a enfeitar. Olhou à sua direita, para a mesa de cabeceira e viu o seu bilhete de identidade. Não conseguiu ler bem, contudo Tiago André teve o horrível pressentimento de que já não se chamava Tiago André mas sim Tiago Maria. Agora já podia ser escuteiro também. Soltou um grito, desesperado, e por fim tentou acalmar-se. A sua família não o podia ver assim. Assim que os seus pais olhassem para a parede pintada com uma folha de Cannabis sativa com a legenda Legalize, sabendo bem que Tiago André, agora Tiago Maria, não passava de um tosco que se queria armar em fixe, iriam ficar boquiabertos. E assim que reparassem no seu novo estilo, iriam deixar de o tratar como um ser humano e passar a discriminá-lo pelo cordeiro portuguesinho que se havia tornado.
Tinha conseguido converter-se numa cópia maricas de si mesmo. Estava condenado.
Tiago Maria decidiu então saltar pela janela e enfiar-se no casting mais próximo para os Morangos com Açúcar. De entre os trágicos finais possíveis, este seria de todos o mais justo.
sexta-feira, julho 07, 2006
"Coisa dji póbri"
Como já tive oportunidade de expressar diversas vezes neste blogue, gosto muito da produção nacional a nível televisivo. Chamem-me um viciado no surrealismo, mas eu devoro telenovelas, especialmente as da TVI: para mim elas arrumam os Monty Python a um canto.
Depois da minha insignificante análise da Floribella, chegou a vez de uma aproximação profunda ao universo de Tempo de Viver, a nova aposta do canal televisivo que tantas maravilhas nos dá como o programa do Goucha.
Diz que o novo conto popular mistura terrorismo internacional com a luta de classes em Portugal. Sei que no meio disto tudo entram os ataques do 11 de Setembro em Nova Iorque, de acordo com a novela morreu lá UMA pessoa, cuja mala perdida é muito importante para o enredo, e que mais tarde vai reaparecer. Enfim, são coisas da vida, não são? Gostava de poder dizer mais sobre este assunto tão pertinente. A verdade é que não há nada para dizer. Pulp Fiction, alguém? Enfim, vamos mas é falar da minha Maria Laurinda.
Que coisa é essa, Maria Laurinda? - perguntam agora vocês. - É um secador de cabelo? Isso come-se? E eu digo: Não, é uma pessoa. E ao mesmo tempo também não é um secador de cabelo. Se bem que a parte do comer tem bastante sentido. A Maria Laurinda, ou Laura, como prefere que lhe tratem os seus amigos do country club, é uma mazona. Menina rica mimada, poderão pensar ao princípio... mas nem por isso: a família dela é pobrezinha e por isso Maria Laurinda faz-se passar por rainha da Sabóia, de forma a não se identificar com a gentinha. Claro que isto tudo faz sofrer o seu clã, sempre com a lágrima ao canto do olho: afinal de contas isto é uma coisa à portuguesa.
A verdade é que a Maria Laurinda manipula as pessoas. A Maria Laurinda é cínica. A Maria Laurinda não olha a meios para atingir os fins. A Maria Laurinda é terrível. E os diálogos dela também. Melhor, todos os diálogos de Tempo de Viver são terríveis, daí meterem muito medo e eu gostar tanto da Maria Laurinda.
Atenção: o trabalho da actriz Margarida Vila-Nova, que interpreta o papel desta personagem, não está aqui posto em causa. O cruzar e descruzar de pernas numa cena pseudo sensual encabeçada pela Benedita Pereira é que talvez possam estar. Pelo menos um bocadinho. É que há um filme, pouco conhecido talvez, chamado Instinto Fatal. Estão a ver qual é? É aquele com aquela actriz americana também pouco conhecida, a Sharon Stone, sabem? É que há lá uma cena que é algo parecida. Mas os americanos também imitam tudo. Até vão ao futuro para imitar melhor, vejam lá bem.
Numa nota final sobre o enredo, vi uma cena em que um senhor bem posto na vida se agarrou ao jardineiro (como já expressei antes, é um tema da moda) e depois à Maria Laurinda, no fim de fugir à mulher. Perceberam alguma coisa? Eu também não. Isso, mais do que a mala perdida nas Twin Towers, é outro grande mistério.
Enfim, quanto mais episódios vejo, mais me apercebo de que a guerra entre estações televisivas afinal não é só de audiências: também roda à volta de ideologias. A Floribella diz que é rica em sonhos e pobre em ouro, mas não importa. Já a Maria Laurinda prefere morrer do que ter de trabalhar num supermercado. Estou cerebralmente exausto de tentar seguir estes dois marcos intelectuais antagónicos. Afinal o que é que é bom? Marx, neste momento , deve estar a dar voltas no túmulo. E a pensar que "coisa dji póbri" é esta, também.
Depois da minha insignificante análise da Floribella, chegou a vez de uma aproximação profunda ao universo de Tempo de Viver, a nova aposta do canal televisivo que tantas maravilhas nos dá como o programa do Goucha.
Diz que o novo conto popular mistura terrorismo internacional com a luta de classes em Portugal. Sei que no meio disto tudo entram os ataques do 11 de Setembro em Nova Iorque, de acordo com a novela morreu lá UMA pessoa, cuja mala perdida é muito importante para o enredo, e que mais tarde vai reaparecer. Enfim, são coisas da vida, não são? Gostava de poder dizer mais sobre este assunto tão pertinente. A verdade é que não há nada para dizer. Pulp Fiction, alguém? Enfim, vamos mas é falar da minha Maria Laurinda.
Que coisa é essa, Maria Laurinda? - perguntam agora vocês. - É um secador de cabelo? Isso come-se? E eu digo: Não, é uma pessoa. E ao mesmo tempo também não é um secador de cabelo. Se bem que a parte do comer tem bastante sentido. A Maria Laurinda, ou Laura, como prefere que lhe tratem os seus amigos do country club, é uma mazona. Menina rica mimada, poderão pensar ao princípio... mas nem por isso: a família dela é pobrezinha e por isso Maria Laurinda faz-se passar por rainha da Sabóia, de forma a não se identificar com a gentinha. Claro que isto tudo faz sofrer o seu clã, sempre com a lágrima ao canto do olho: afinal de contas isto é uma coisa à portuguesa.
A verdade é que a Maria Laurinda manipula as pessoas. A Maria Laurinda é cínica. A Maria Laurinda não olha a meios para atingir os fins. A Maria Laurinda é terrível. E os diálogos dela também. Melhor, todos os diálogos de Tempo de Viver são terríveis, daí meterem muito medo e eu gostar tanto da Maria Laurinda.
Atenção: o trabalho da actriz Margarida Vila-Nova, que interpreta o papel desta personagem, não está aqui posto em causa. O cruzar e descruzar de pernas numa cena pseudo sensual encabeçada pela Benedita Pereira é que talvez possam estar. Pelo menos um bocadinho. É que há um filme, pouco conhecido talvez, chamado Instinto Fatal. Estão a ver qual é? É aquele com aquela actriz americana também pouco conhecida, a Sharon Stone, sabem? É que há lá uma cena que é algo parecida. Mas os americanos também imitam tudo. Até vão ao futuro para imitar melhor, vejam lá bem.
Numa nota final sobre o enredo, vi uma cena em que um senhor bem posto na vida se agarrou ao jardineiro (como já expressei antes, é um tema da moda) e depois à Maria Laurinda, no fim de fugir à mulher. Perceberam alguma coisa? Eu também não. Isso, mais do que a mala perdida nas Twin Towers, é outro grande mistério.
Enfim, quanto mais episódios vejo, mais me apercebo de que a guerra entre estações televisivas afinal não é só de audiências: também roda à volta de ideologias. A Floribella diz que é rica em sonhos e pobre em ouro, mas não importa. Já a Maria Laurinda prefere morrer do que ter de trabalhar num supermercado. Estou cerebralmente exausto de tentar seguir estes dois marcos intelectuais antagónicos. Afinal o que é que é bom? Marx, neste momento , deve estar a dar voltas no túmulo. E a pensar que "coisa dji póbri" é esta, também.
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