sexta-feira, outubro 14, 2005

Diário de Caloiro I

Finalmente, após todas estas semanas de intensa adaptação universitária, tive tempo para escrever qualquer coisinha de mais consistente neste blogue de ideias completamente incongruentes.
O que se passou, e infelizmente ainda se passa, é que eu ando a tomar parte naquele tão afamado ritual de acolhimento para os recém-chegados do ensino secundário, les praxes. Para quem não sabe ou ainda não se apercebeu da minha falta no liceu de Almeirim, entrei agora para a faculdade. Não, não assaltei o bar da escola e fugi com o stock de folhados mistos, vim mesmo para Lisboa. Por isso sinto que tenho algo a dizer sobre os acontecimentos que ocorrem nas mais recentes três semanas da minha vida.
Eu não podia estar mais em desacordo com aquelas pessoas que dizem que praxe é hierarquia. De facto, vou usar este intrépido blogue para desmascarar essa insinuação: praxe não é, nem nunca sonhará sequer ser hierarquia. Praxe é simplesmente humilhação e subversão de todos os valores eticamente aceitáveis. Praxe é meter uma grande rolha na boca dessa gorda senhora que é a dignidade humana. Contudo, praxe é diferente de muitas coisas que as pessoas possam pensar. Praxe não é, por exemplo, uma sandes de queijo. E isso é que a distingue de muita coisa neste mundo.
Por essa mesma razão, publico agora e aqui o meu diário de sofrimento, comdamente separado em vários posts, que eu tenho mais que fazer.

Segunda-feira, 19 de Setembro de 2005 - Dia das inscrições:
23:30
Hoje, vai-se lá saber porquê, fui a primeira pessoa a inscrever-se. Quero dizer, aquilo era por ordem de chegada e eu por acaso cheguei em primeiro. Além de me marcarem como uma mera peça bovina (e isto é ser humilde), ensinaram-me um método linguístico completamente novo. Cada vez que me dirigissem a palavra, a única coisa que poderia afirmar era um poético grunhido. Mais nada. Mas o pior nem foi isso. Eu estava com a minha família, e a família normalmente apoia o coitadinho que está a sofrer. Sim, isso era o que se esperava. Aconteceu? NÃO. Enuqanto eu rastejava de joelhos a venerar veteranos e veteranas, a malta do meu fundo genético ainda se ria com a minha humilhação. Ó meu Deus.

A partir daí fiquei mais conhecido por BAAAH. Ou por cunhas, também vai-se lá saber porquê.
À tarde fui à procura de casa. Grande sorte, calhei num apartamente bem aceitável, no fim de ver bastantes e cujos hábitos de higiene muito ficavam a dever à palavra detergente. Tenho um quarto só para mim, e estou a partilhar a casa com mais dois tipos, ainda não sei quem são. Com um bocado de sorte não cheiram mal dos pés.


Domingo, 25 de Setembro de 2005 - Dia da chegada
22:15
Os tipos que moram comigo cheiram mal dos pés. Vá lá, estamos em quartos separados e eu já enchi o meu com aqueles ambientadores que a minha mãe trouxe de casa. Neste momento estou na minha cama e tudo o resto cheira-me a sabão de limpeza. Que frescura. Sou um tipo esquisito.
Há aqui um café ao pé da minha casa. Vou lá ver os ambientes.

01:30
As praxes já começaram. Conheci vários caloiros que como eu estão a morar ao pé da faculdade. O ambiente estava óptimo no café, até aparecerem uns veteranos com um ar inconfortavelmente tendente para o assassino. Obrigaram os meus recentes amigos a carregar móveis de madeira maciça do segundo andar para o rés-do-chão, e a mim a lavar 50 kgs de loiça que mais pareciam ter participado num ritual de sacrifício humano em tempos que já lá vão. Descobri depois de todo o meu empenho e coragem que o veterano abusador em questão era de Matemática, e sendo eu de Engenharia Química e Bioquímica, ele não estava autorizado praxar-me, segundo umas regras invisíveis que uns tipos com anos a mais por lá fizeram.
Quero matar alguém, mas não hoje que estou cheio de sono. Vou pôr isso na minha agenda. Mas não agora, que não me quero lembrar da fatídica limpeza de pratos.

02:03
As minha unhas ainda cheiram a banha de porco. Meu Deus, tenho que ir lavá-las pela trigésima vez. Bolas.

5 comentários:

Anónimo disse...

Sempre quero er o que vai acontecer quando tu fores um veterano...até lá ...Coragem!!!! Vais sobreviver!!!
Muitos beijos e muitos sucessos na tua vida académica.

Daniel disse...

ai ai... todos aqueles que tiverem maior número de matrículas que tu pçodem praxar-te! Ou seja, todos aqueles que não são caloiros (olha que até eu te posso praxar! lolo)... portanto, tens que te aguentar à bronca. E olha, as coisas já estiveram piores do que estão... por este andar vai chegar a altura em que até havemos de tratar os caloiros por tu... que coisa mais absurda... lolol... De resto, não concordo muito contigo: praxe é iniciação, nada mais, nada menos. Ou melhor, se for praxe verdadeira. Caso contrário, é uma estúpida perda de tempo. E, portanto, (verdadeira) praxe é uma amostra de hierarquia.

Anónimo disse...

é ambição do caloiro chegar a veterano, mas tb será verdade que o Dr. Veterano quer regredir a Reles caloiro.
é uma expressão mais unívoca para o veterano do que propriamente para o caloiro( falo como o tempo precede-se para além da 2ªfase ).
sei pk a distância do tempo se emprega exclusivamente à segunda fase, que o alegre momento da praxe é único e singular.
Poderia falar que dignifico o acto de caloiro quando sou praxado, mas certamente o dignificarei ainda mais quando convivo com colegas de todos país (sem herarquias que tu defendes e eu assino)

sem nada mais a acresecentar, mas valorizando a tua escrita respladescente, me despeço

Anónimo disse...

olá.... bem, o meu pai ja ca comentou (no post de 'expressão escrita' penso eu, d kalker maneira, dá pelo nome d 'carlos gil') provavelment n t lembras d mim.... no OTL fost meu monitor (ai esta memoria d elefante...) é só para dizer k gostei muito do teu blog. original. diferente. divertido. inteligente. Fui tb o ano passado colega d turma da Ana Rita Cardoso k julgo conheceres bem (=p)e se kiseres recordar kem sou (se ainda conseguires) vai a www.fotolog.net/_carla13_ e procura uma foto que mostre minimamente a minha pessoa. bem, muitos parabéns parto.m a rir com os teus posts. e voltarei. continua! **

Anónimo disse...

oi. tou a gostar mto do teu diário de caloiro, ainda pra + tb eu sendo caloira e n ter de passar por nada disso. De qualquer forma tá muito interessante. Já mostrei o teu blog aki a algum ppl franciu (claro k tive de traduzir). Agora uma correcção: O termo "praxes" n é o mm em francês; "as praxes" = "La bizutage". A palavra bizutage ficou realmente pa memória,apesar de já n existir em França, pois é proibida por lei. Continua co diário. tá "très jolie".

Jitx. Já deves saber kem sou, n?