segunda-feira, janeiro 24, 2005

O "Come-as Todas"

Comecei a escrever este artigo, não só por iniciativa minha, mas também a pedido de alguns colegas meus, que comigo partilham a fantástica oportunidade de observar todos os dias um exemplar assumidíssimo da subespécie humana mais conhecida da nossa turma. É que eu bem que ouvia dizerem-me tanta vez :
-"Oh David, põe mas é uma descrição como deve ser de um exemplo de Etnografídeo."
Choviam e-mails. E SMS’s.

Ok, não chovia nada.
Mas que me pediram, pediram, bolas.

Meus amigos, e que maior exemplar do verdadeiro
espírito Etnografídico que o célebre
"Come-as
Todas"
?


Ora bem...

O Come-as Todas é um tipo. Mas não é qualquer tipo. No outro dia sugeriram-me uma palavra que eu acho que lhe assenta que nem uma luva. O Come-as Todas é um Etnossexual.
Agora perguntam vocês: O que será um Etnossexual?
Claro que isto tem tudo a ver com o conceito inicial de Etnografídeo, mas aliado ao engate, estão a imaginar?

Um Etnossexual caracteriza-se pelo facto de ser um Etnografídeo convictíssimo, mas que no caso do Come-as Todas, leva os seus ideiais a um extremo. Estilo terrorista.
Sim, terrorista. Aquilo mete medo. E está sempre disposto a mostrar ao mundo o que são os seus notáveis bailharicos.

Para este espécime, nada é mais romântico e infalível que um bom poema SMS foleiro (Se não sabem a que me refiro, leiam o post de 21 de Outubro de 2004). Quadras que não envolvam "Amor amo-te muito e amar-te-ei como me amarás com todo o amor" caem estendidas no chão, porque definitivamente não são próprias para mandar às miúdas. Tem de ser qualquer coisa que faça reminiscência às origens, qualquer coisa deste tipo:
Ontem eu fui ao arneiro
Vi lá o mê c'nhado
Amor, amor regateiro
É teu bigode mal depilado.

E não só de poesia vivem os telemóveis destes fantásticos seres! Corações, Tweeties e Silvesters, Corações, Anjinhos, Corações, e ah!, a bela da fotografia de um carro artilhado, de preferência cor-de-laranja, fazem parte do gigantesco espólio multimédia que o Come-as Todas envia a toda a gente, por "Blutu", que é o que ele lhe chama. Toque polifónico do mais pimba que Portugal tem para oferecer incluído. Ele parece gostar muito deste tipo de sons.
Claro está que tudo nele muito viril, principalmente porque para este tipo, todas, mas mesmo todas as coisas no mundo são, numa palavra, abichanadas. As flores são abichanadas, o Sol é abichanado, o professor de inglês do 10º ano era abichanado.
Esperem.
O professor de inglês do 10º ano era MESMO abichanado. Mas não interessa.
Tudo o que tenha um encarnado um bocadinho mais claro já é um desafio à sua masculinidade. Chega para lá.
Quanto à apresentação deste exemplar, bem, meninas, façam-se já a ele! Acho que nenhuma miúda lhe deve resistir ao seu fantástico cabelo seboso.
Não, não é sedoso, é mesmo seboso. E pelo que ele diz, toda e qualquer mulher deve-se render a seus pés. Pés esse que não estão bem calçados sem uma inevitável meiinha branca. Olaré.
Como anda sempre com o penteado bem aperaltado e a calcinha ali bem apertada à bom macho ribatejano, esta raridade dos nossos dias tem, em poucas palavras, a mania do engate. Mas elevado a um nível catastrófico. E são aulas e aulas de infindáveis conversas de como as moçoilas são loucas com ele na cama. É como se voassem.
Isto não me admira, porque no fundo no fundo, o Come-as Todas pode ser considerado também uma vertente humana do papagaio. Fala, fala, fala, mas no fim, não come nada. Prova disso, só me consigo recordar da bela conversa que ele teve com a Madalena na aula de Matemática. Esta sim meu caros, é uma Conversa de Engate!


C.T.: "-Oh Madalena, gostas de strip-tease?"
Madalena: (Vira-se para trás) "-O quê?!"
C.T.: "- Já viste algum strip-tease?"
Madalena: "-Desculpa?!"
C.T.: "-Ah, e tal, era para ver se tu fazias um aqui para o pessoal, na próxima visita de estudo, que era para a gente ópois montarmos o bailharico."
...
(Silêncio avassalador)


Foi uma conversa interessante de se ouvir, foi.

Não há hipótese. É tiro e queda. Aprendam que ele não dura sempre. E viva a Etnossexualidade!

Quero dizer...
Cada um consigo.

segunda-feira, janeiro 10, 2005

...E Mais Algum!

Esta sim.
Sim senhores.
Estamos definitivamente a lidar com uma pérola do nosso tempo. A sério. Mas primeiro que tudo, querem um conselho?
Meus amigos, a próxima vez que gravarem um CD com as vossas músicas, tenham cuidado. Eu digo isto porque, antes de darem um nome ao trabalho discográfico, e que tal pensar-se em como se chama? Não, não o CD, o próprio artista. O tipo que canta. Ou tenta.
Quer dizer, é melhor não se preocuparem. Não sigam o meu conselho. É que assim eu nunca encontraria esta… coisa… na biblioteca da escola. Crédito para o António Pedro.

Amélia Muge… Todos os Dias?

Mas será mesmo Todos os Dias? A Amélia também faz Sábados, Domingos e Feriados? Grande mulher. E quem muge assim, perdão, canta assim, não é gago!

sexta-feira, janeiro 07, 2005

O Seu Bilhete, Se Faz Favor

Foi numa suposta pacata viagem ferroviária a Lisboa, juntamente com uns amigos meus, que pude presenciar a existência de algo, na minha opinião, absolutamente avassalador. Meus caros, eu descobri uma linguagem completamente nova: a dos Sr. Picas. Ou Pica-bilhetes, aqueles tipos que picam os bilhetes. É por isso que se chamam Pica-Bilhetes, e não, por exemplo, Come-Suissinhos. Quer dizer, uma coisa não implica a outra, enfim, a ideia é aquela.

Mas afinal que se passa com esses simpáticos funcionários que nos perfuram tão
sanguinária e ferozmente os pobres dos nossos bilhetes de comboio?


Estávamos nós tão bem sentados a ouvir a misteriosa e feminina voz que anuncia as paragens como se tivesse um problema na fala, quando um Sr. Pica se aproxima, e em vez de nos pedir os nossos bilhetes, limita-se a um, e meus amigos, isto é inexplicável:

"Clack Clack"

Ele tinha todo um dicionário recheadíssimo de palavras para escolher. Melhor, tinha uma enciclopédia Larrousse. Mas mesmo assim, para nos pedir os bilhetes limitou-se a não um, mas dois sonoros e onomatopeicos

"Clack Clack"

Vindos da sua lendária máquina de picar bilhetes.

Ao princípio pensei que talvez o senhor sofresse de problemas auditivos. E até me contentava com essa, não fosse um protuberante telemóvel que se encontrava no seu bolso esquerdo do casaco tocar, e o estranho indivíduo o atender.
Ora isto força-me a concluir que eu afinal estava algo enganado, acho eu. Então pus-me a meditar nas várias hipóteses daquela necessidade instintiva de fazer

"Clack Clack"

Com a máquina de picar bilhetes.
A sério, em situações limite como esta, a minha louca cabeça põe-se a pensar em mil e uma coisas, cada uma mais interessante que a outra. E se entenderem interessante como um especial de 5 horas do Natal das Prisões, já me estão a entender.
Primeiro, já imaginaram como seria a comunicação deste senhor em casa, com a família?
"Querida, pus a roupa na máquina."
"João, já fizeste os T.P.C.?"
"Possa, Maria, já te disse para não ouvires a música tão alto!"
Nada disso. O mais parecido que se ouviria seria mais um

"Clack Clack"

Imaginemos agora que o Sr. Pica vai a um café. Em vez de pedir uma sandes de manteiga e fiambre, como qualquer um dos mais comuns dos mortais (a menos que seja como eu e não veja algum sentido em untar um lacticínio em cima do resto do que outrora fora uma perna de mamífero), faria

"Clack Clack"

Ele queria um bagacito, "Oh fáchavore" está completamente fora de questão.

"Clack Clack"

e é se queres.
Será que o dinheiro dele também anda todo picadinho? Era um bocado estranho o Sr. Pica ir ao banco. Ainda o acusavam de cultivar traças para venda ilegal.
Esperem, há quem cultive traças para venda ilegal? Pois, calculo que não. Adiante.
Então e se as traças estiverem em vias de extinção? Podia ser daqueles tipos que se metem nos aviões com ovos de papagaio atados à cintura. Só que em vez de ovos de ave rara, eram ovos de insecto. Hum. Ok, esqueçam.

Mas voltemos à pacata vida do indivíduo em casa. Como é que ele discute? Afinal toda a gente se zanga. No entanto, nem todos devem brigar da mesma maneira. Será que ele fura as cuecas da esposa até ao esfarelamento? Isso até o podia tornar uma versão picadora do Eduardo Mãos-de-tesoura. Em vez de cortar, furava...
Isto, meus caros, é assustador, tremendamente assustador. Acho que o Johnny Depp ia perder uma boa quantidade de fãs.

Bem, para contrariar, há que notar que no relato da minha viagem, o Sr. Pica atendeu o telemóvel. Ele afinal sabe falar, acho. Se calhar usa é essa maravilhosa linguagem, a que eu tão pertinentemente apelidei de Clackês, numa situação em que ambos os interlocutores não se conhecem muito bem.

Sr. Pica #1: "Ah, com este já clacko há cinco meses, já é da minha confiança. Vou-lhe dizer olá!"
Sr. Pica #1: "Então colega, como vai isso? Dê cá um bacalhau!"

Sr. Pica #2:"Clack Clack"

"Bolas, este não quer nada comigo!"- Deve indagar o Sr. Pica #1. Mas, alas, vinga-se!

Sr. Pica #1: "Clack Clack"? Há 20 semanas a levar com a sua cara todos os dias e você só me sabe fazer "Clack Clack"? Sua ingrata! Só gostava é que soubesse que a sua mulher anda a fazer clacks ao prédio inteiro!"

Ainda bem que só oiço o Sr. Pica a falar Clackês, nem imagino o que seria do Universo conhecido se esta intrigante linguagem não existisse, e se estas misteriosas conversas fossem trazidas para o quotidiano dos viajantes ferroviários! Por isso, a próxima vez que entrarem num comboio, dêem graças a Deus pela invenção da máquina de picar bilhetes.

Clack Clack