terça-feira, agosto 24, 2004

Le passage des tristes, 1ª parte : O Cenário

Toda a gente que passa uma temporada na praia gosta com certeza de, quando se faz noite, ir dar uma voltinha ou duas no sítio onde se está. Isto é como quem diz vai beber um cafezinho, uma imperialzinha ou até mesmo um bagacinho com quinze vodkazinhos em cima e enfim, apanhar uma bebedeirazinha de caixãozinho à cova. Não interessa, o importante é andar, ou em pé ou a rebolar pelo chão. O lugar onde tudo isto se passa é mundialmente conhecido por O Passeio dos Tristes, e eu resolvi apelidar humildemente de Le Passage des Tristes, porque um nome em francês dá ar que eu sei muita coisa. E até fica mais chic, diga-se de passagem.
O que é certo amigos, é que a qualquer sítio que formos no Algarve, o ambiente é sempre, sempre o mesmo: existe uma avenida à beira-mar plantada, carregada de lojas, que por sua vez estão carregadas dos mesmos souvenirs, com as mesmas mensagens, por todo o lado, e assim sucessivamente. À procura de um postal com uma sueca a fazer topless e a dizer: That's the way I like it in the Algarve? Nada temam, se não há num sítio há em para aí mais 246, fora as versões com espanholas ou turcas a tomar o lugar de miúdas marotas. Não que isso seja mau,claro. É sempre bom sabermos que no Algarve a estrangeirada gosta de andar assim. Ou nem por isso.
Contudo, o que verdadeiramente caracteriza este passeio não são apenas os estabelecimentos: são as pessoas que lá caminham. Como assim? Bem, não têm propriamente ar de deprimidas, mas possuem algo tão secretamente devastador e mortal, que nenhum ser humano é capaz de olhar e não ficar abalado: é O Andar do Desespero!
Querem saber como é? Eu digo, mas prometo que não me responsabilizo pelas consequências caso queiram efectuar esta técnica.

Então é assim:
1º- Mete-se o pé direito à frente; (Temos que começar por algum ponto, não é?)
2º- Olha-se o passeio com olhinhos de carneiro mal morto;
3º- Mete-se o pé esquerdo à frente e dá-se um passo.
4º- Olha-se para o céu, para as lojas, para a sueca que acabou de passar (até pode ser aquela do postal!), não interessa, olha-se, simplesmente, com um sorriso simples e uma expressão de cachorrinho perdido.Oooh!

Estão a ver? Digam lá se as pessoas não parecem umas desgraçadinhas a andar assim! Aí está a razão do Andar do Desespero, e ainda por cima, vemos isto mais vezes do que nos apercebemos! É assustador, não é?
Miúdos a rebolar e a berrar pelo chão fora, velhotas a comerem gelado e a dizer mal de toda a gente, e claro, os tipos que gostam de andar com a bela da camisa desfraldada, exibindo nos pelos do peito o preciosso crucifixo, ao mesmo tempo que coçam a barriga redonda como o Mundo, são elementos bem presentes no Passeio dos Tristes. Uma vez perguntei a um senhor desses se era menino ou menina, e se dava muitos pontapés, mas só depois percebi que aquela protuberância junto ao cinto era a sua barriga de cerveja. Ele não gostou muito. E eu, pronto, fiquei com a dúvida esclarecida.
No entanto, todas estas personagens são só a casca, o embrulho, o palco, para algo bastante mais implacável, que nenhuma lógica ou filosofia em algum tempo poderão compreender...

Não percam a 2ª parte, porque nós também não!

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