Toda a gente que passa uma temporada na praia gosta com certeza de, quando se faz noite, ir dar uma voltinha ou duas no sítio onde se está. Isto é como quem diz vai beber um cafezinho, uma imperialzinha ou até mesmo um bagacinho com quinze vodkazinhos em cima e enfim, apanhar uma bebedeirazinha de caixãozinho à cova. Não interessa, o importante é andar, ou em pé ou a rebolar pelo chão. O lugar onde tudo isto se passa é mundialmente conhecido por O Passeio dos Tristes, e eu resolvi apelidar humildemente de Le Passage des Tristes, porque um nome em francês dá ar que eu sei muita coisa. E até fica mais chic, diga-se de passagem.
O que é certo amigos, é que a qualquer sítio que formos no Algarve, o ambiente é sempre, sempre o mesmo: existe uma avenida à beira-mar plantada, carregada de lojas, que por sua vez estão carregadas dos mesmos souvenirs, com as mesmas mensagens, por todo o lado, e assim sucessivamente. À procura de um postal com uma sueca a fazer topless e a dizer: That's the way I like it in the Algarve? Nada temam, se não há num sítio há em para aí mais 246, fora as versões com espanholas ou turcas a tomar o lugar de miúdas marotas. Não que isso seja mau,claro. É sempre bom sabermos que no Algarve a estrangeirada gosta de andar assim. Ou nem por isso.
Contudo, o que verdadeiramente caracteriza este passeio não são apenas os estabelecimentos: são as pessoas que lá caminham. Como assim? Bem, não têm propriamente ar de deprimidas, mas possuem algo tão secretamente devastador e mortal, que nenhum ser humano é capaz de olhar e não ficar abalado: é O Andar do Desespero!
Querem saber como é? Eu digo, mas prometo que não me responsabilizo pelas consequências caso queiram efectuar esta técnica.
Então é assim:
1º- Mete-se o pé direito à frente; (Temos que começar por algum ponto, não é?)
2º- Olha-se o passeio com olhinhos de carneiro mal morto;
3º- Mete-se o pé esquerdo à frente e dá-se um passo.
4º- Olha-se para o céu, para as lojas, para a sueca que acabou de passar (até pode ser aquela do postal!), não interessa, olha-se, simplesmente, com um sorriso simples e uma expressão de cachorrinho perdido.Oooh!
Estão a ver? Digam lá se as pessoas não parecem umas desgraçadinhas a andar assim! Aí está a razão do Andar do Desespero, e ainda por cima, vemos isto mais vezes do que nos apercebemos! É assustador, não é?
Miúdos a rebolar e a berrar pelo chão fora, velhotas a comerem gelado e a dizer mal de toda a gente, e claro, os tipos que gostam de andar com a bela da camisa desfraldada, exibindo nos pelos do peito o preciosso crucifixo, ao mesmo tempo que coçam a barriga redonda como o Mundo, são elementos bem presentes no Passeio dos Tristes. Uma vez perguntei a um senhor desses se era menino ou menina, e se dava muitos pontapés, mas só depois percebi que aquela protuberância junto ao cinto era a sua barriga de cerveja. Ele não gostou muito. E eu, pronto, fiquei com a dúvida esclarecida.
No entanto, todas estas personagens são só a casca, o embrulho, o palco, para algo bastante mais implacável, que nenhuma lógica ou filosofia em algum tempo poderão compreender...
Não percam a 2ª parte, porque nós também não!
terça-feira, agosto 24, 2004
quarta-feira, agosto 18, 2004
A Pipoqueira
Voltei outra vez da praia, e com muito que dizer. Vou falar agora em algo que, segundo a minha mais recente teoria, é o objecto mais infeliz do Mundo, tal como a iogurteira e a máquina de fazer sumos.
Falo-vos, é claro, da Máquina de fazer Pipocas, ou Pipoqueira, para quem gosta que o nome das máquinas acabe em -eira. Quem não acha graça quando vê o milhozinho a rebentar para se fazerem pipocas com sal, caramelo ou manteiga? Sim é muito giro, por isso é que compramos esses pacotinhos, para as fazermos no microondas. No microondas. Ou então numa panela. Meus caros, nunca, nunca, nunca, numa máquina de fazer pipocas. A menos que sejam sádicos, claro.
Por isso, podem imaginar o meu espanto quando, chegado um belo dia a casa, me deparo com um objecto daquele calibre. Ali estava ela, a olhar-me fixamente num ar que metia dó...
-Então, o que achas?, perguntaram-me.
O que é que eu achei? Achei que a pobre coitada da máquina ia levar uma vida danada, e o olhar de tristeza que ela me fez logo quando saiu da caixa dizia tudo.
-É giro. Vai ser engraçado.
Enfim, vidas.
Ora bem, então a minha tese é a seguinte: a máquina de fazer pipocas tem uma esperança média de vida de cerca de 4 dias. Passo a explicar:
1º Dia:
A Rainha do Lar prepara acaloradamente e cuidadosamente as magníficas pipocas, para pormos mel, porque à última da hora é que toda a gente se apercebeu que o caramelo acabou em casa, e que já não há mais. Todos comem, ai daquele que se recusar. É novo, inaugura-se,todos ficam contentes, pronto.
2º Dia:
As pipocas são comidas só pelos mais velhos da casa, porque os outros não estão com muita vontade. A pessoa mais nova pode dar-se ao luxo de inventar uma valente dor de barriga, que em 68,7% dos casos funciona como desculpa.
3º Dia:
Só a mãe é que as prepara e as come. Se não for a mãe, é o elemento caseiro que serve de Eterno Mártir dos Restos. Coitadinha, é sempre a sacrificada...
4º Dia:
O aparelho é mandado para o caraças!
E pronto, assim é o destino das máquinas de fazer pipocas. São encerradas na dispensa e ali ficam até o tempo as apagar deste mundo cruel. Por isso, se não querem dar um fim tão triste à vida de um objecto caseiro, nunca comprem nem iogurteiras, nem sumeiras, nem pipoqueiras. Tenham misericórdia para com o mundo dos electrodomésticos sem utilidade!
And that, as they say, is that.
Falo-vos, é claro, da Máquina de fazer Pipocas, ou Pipoqueira, para quem gosta que o nome das máquinas acabe em -eira. Quem não acha graça quando vê o milhozinho a rebentar para se fazerem pipocas com sal, caramelo ou manteiga? Sim é muito giro, por isso é que compramos esses pacotinhos, para as fazermos no microondas. No microondas. Ou então numa panela. Meus caros, nunca, nunca, nunca, numa máquina de fazer pipocas. A menos que sejam sádicos, claro.
Por isso, podem imaginar o meu espanto quando, chegado um belo dia a casa, me deparo com um objecto daquele calibre. Ali estava ela, a olhar-me fixamente num ar que metia dó...
-Então, o que achas?, perguntaram-me.
O que é que eu achei? Achei que a pobre coitada da máquina ia levar uma vida danada, e o olhar de tristeza que ela me fez logo quando saiu da caixa dizia tudo.
-É giro. Vai ser engraçado.
Enfim, vidas.
Ora bem, então a minha tese é a seguinte: a máquina de fazer pipocas tem uma esperança média de vida de cerca de 4 dias. Passo a explicar:
1º Dia:
A Rainha do Lar prepara acaloradamente e cuidadosamente as magníficas pipocas, para pormos mel, porque à última da hora é que toda a gente se apercebeu que o caramelo acabou em casa, e que já não há mais. Todos comem, ai daquele que se recusar. É novo, inaugura-se,todos ficam contentes, pronto.
2º Dia:
As pipocas são comidas só pelos mais velhos da casa, porque os outros não estão com muita vontade. A pessoa mais nova pode dar-se ao luxo de inventar uma valente dor de barriga, que em 68,7% dos casos funciona como desculpa.
3º Dia:
Só a mãe é que as prepara e as come. Se não for a mãe, é o elemento caseiro que serve de Eterno Mártir dos Restos. Coitadinha, é sempre a sacrificada...
4º Dia:
O aparelho é mandado para o caraças!
E pronto, assim é o destino das máquinas de fazer pipocas. São encerradas na dispensa e ali ficam até o tempo as apagar deste mundo cruel. Por isso, se não querem dar um fim tão triste à vida de um objecto caseiro, nunca comprem nem iogurteiras, nem sumeiras, nem pipoqueiras. Tenham misericórdia para com o mundo dos electrodomésticos sem utilidade!
And that, as they say, is that.
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