Ontem à noite, no telejornal da Sic, constatei alegremente que a escritora portuguesa que mais vezes usa a palavra "imenso" (Margarida Rebelo Pinto) lançou mais uma compilação das suas crónicas.
Até aqui nada de mais: hey, eu não tenho nada contra a literatura light: nem toda a gente gosta de andar sempre a comer pain au chocolat. Às vezes um Bollycao compensa perfeitamente. Já um afiambrado nem por isso... mas este assunto está demasiado conversado e a qualidade ou falta dela na escrita de quem quer que seja, incluindo a minha, não está aqui em causa. É por isso que não me vou calar.
Ora a nova obra da literatura portuguesa chama-se "Vou contar-te um segredo", e apenas este pormenor apela a toda a minha atenção, que é uma coisa que só por si se deixa apelar por quase tudo o que mexe, especialmente títulos de livros em português. Assim, vou agora assumir um tom mais... intelectual. Para entenderem melhor a minha análise por favor imaginem-me com um grande bigode, sentado num sofá do século XIX, com um cachimbo numa mão, um copo de conhaque noutra e um charuto noutra.
Sim, leram bem, visualizem-me com um charuto numa terceira mão. Imaginar-me crítico literário não me impede de me imaginar como super herói mutante com três braços e correspondentemente com três mãos também, pois não? Acho bem. É que assim tenho no total quinze dedos para folhear páginas e páginas de inúmeros livros, para poder perceber melhor as coisas. É inteligência sem intelecto.
Adiante.
Ponto número um: o livro chama-se "Vou contar-te um segredo". É chique a valer, nomeadamente porque nem sequer é original. "Vou contar-te um segredo" resulta da tradução literal de um documentário sobre Madonna, "I'm going to tell you a secret". "Vou contar-te um segredo" é quase como se Margarida Rebelo Pinto começasse a cantar e dançar cheia de coreografias. "Vou contar-te um segredo" não se usa em Portugal, em detrimento do "Óve lá ó nha badalhoca". "Vou contar-te um segredo" parece que é coisa que só os estrangeiros dizem. E meus caros, como todos nós sabemos, tudo o que é estrangeiro é bom. Ainda mais se for traduzido.
Ponto número dois: há um ponto de ruptura no tipo de escrita da autora. Reparem que o sujeito poético parece falar para o leitor na segunda pessoa. Pese embora tratar uma pessoa por tu ser uma piroseira, um horror, o apelo parece ser mais interessante. É que toda a gente sabe que se quiser ser bem tem que tratar tudo e todos na terceira pessoa. O menino, a menina, o senhor do pão, o senhor Alberto, o senhor pénis, por aí. Tutear o possível comprador do livro não só é uma excelente estratégia de marketing como também uma maneira de mostrar ao mundo que se está mais acessível no diálogo. Parabéns.
Ponto número três: "Vou contar-te um segredo"? Que segredo, Margarida Rebelo Pinto? Que o livro tem folhas? Será que já não é super caturreiro apaixonar-se, sei lá, por um estranho e encontrar o amor num lugar insuspeito? Será que os homens afinal já não são todos uns filhos da p*ta nem uns c*br**s do c*r*lh*? E p*rque raio é q*e esto* a usar *steriscos n* meio das p*lavras, h*?
Resumindo, recomendo a leitura desta nova e empolgante obra. Contudo já devem ter a noção dos meus limites e por isso têm que me dar um certo desconto no que toca a recomendações literárias. Afinal de contas eu também recomendo o meu blogue. E já que estou numa de Professor Marcelo, também recomendo a leitura dos panfletos das testemunhas de Jeová, dos anúncios íntimos do Correio da Manhã e do jornal Destak. Ah, e também do título do jornal Sol (aquilo também é só uma palavra). Leiam, leiam, leiam, porque é a ler que a gente aprendemos a esquerevêr.