Se há alturas em que eu tenho vergonha por pertencer à espécie humana, há com certeza outras em que eu me sinto absolutamente orgulhoso de ser catalogado como Homo sapiens sapiens. Tirando a parte do Homo claro, a ambiguidade da linguagem é uma coisa extraordinariamente irritante.
A verdade é que a nossa superioridade é notável, até porque toda a gente diz que os seres mais evoluídos de todos são os humanos. Isto no fundo é em si já um bocado para o egoísta. com certza que as baleias de bossa, por exemplo, dizem que são elas as que merecem ser donas do planeta, o que é perfeitamente ridículo, visto que nenhum animal com bossa no nome merece seja o que for.
De qualquer das formas, os últimos acontecimentos vividos à custa de umas certas caricaturas nuns determinados jornais dinamarqueses fizeram-me mesmo mudar de opinião em relação ao funcionamento da Natureza. E eu estou feliz por ver que afinal a minha espécie está muito mais próxima das outras do que eu pensava.
Quero então deixar aqui a pergunta: após milhares de milhões de anos de evolução, quais são os únicos seres vivos que se querem provocar e exterminar uns aos outros à conta de bonecada? Pondo de parte os fãs de O Meu Odioso e Inacreditável Noivo só restamos nós, as pessoas. E é essa extraordinária capacidade que nos distingue da parafernália dos animais ditos irracionais. Ditos, claro, não sei bem é por quem.
É que já pensaram nas dimensões que esta coisa dos cartunes está a tomar? Francamente tudo isto me assustou, principalmente a parte de descobrir que afinal na língua portuguesa se escreve cartune e não cartoon. Já estão como os blogues e os blogs.
Mesmo assim, será possível enfurecer assim tanto alguém por causa de um desenho ou de uma descrição a puxar para o parvo? A mim há coisas que me tiram muito mais do sério. Palhaços, por exemplo. A generalidade das gentes acha imensa piada àqueles traquinas que se fazem de estúpidos. Eu nunca me rio com palhaços. Os palhaços enervam-me já desde criancinha. Todavia, eu não acho que seja razão para eu querer matá-los, até porque nem conheço pessoalmente o sr. George W. Bush.
Cá para mim há aqui uma certa mensagem subjacente à destruição de embaixadas por parte de fanáticos e à contínua provocação dos media. É sem dúvida uma coisa bem arquitectada, senão vejamos: com o passar do tempo, temos andado a ficar cada vez mais civilizados; mais vestidinhos, a viver mais tempo, a fazer sexo mais imaginativo. Tudo isto é puxar um bocado o limite: é que acima de tudo somos animais. Faz-nos falta grunhir, faz-nos falta fazer cocó onde bem nos apetecer, faz-nos falta andar por aí a dar pancada a quem não gostamos. Sobretudo faz-nos falta não dizer mais vezes a palavra cocó. Por isso há pessoas que se preocupam com isso. Eu acho muito bem que os jornais continuem a chatear os religiosos e que os fanáticos continuem a querer destruir os símbolos dos países que indirectamente os ofenderam. Assim é como se fosse sempre um lembrete para as nossas origens. E não é a primeira vez, o mesmo já aconteceu com a invenção da pólvora, da energia nuclear e claro, da pornografia.
Na minha humilde opinião, o próximo passo para o nosso desenvolvimento é definitivamente misturarmo-nos outra vez com a bicharada. Não duvidem muito disso. Com este ritmo, mais cedo ou mais tarde chegaremos ao nosso derradeiro objectivo. E aí o Homem vai provavelmente etender que não passa de um macaco avariado, que por acaso sabe resolver puzzles por vontade própria.