segunda-feira, outubro 31, 2005

Diário de Caloiro II

Segunda-feira, 26 de Setembro de 2005 - Dia D
20:14
Neste momento estou ensopado, constipado e convenhamos, algo desconfortável. Mas eu explico porquê. Até posso explicar o porquê de neste momento o meu cabelo se assemelhar mais a uma bilis de porco.

Ok, estamos na manhã de hoje. Eu dirijo-me para a faculdade a pé (as minhas mãos, graças a Deus, já não cheiram a banha de porco), entro muito bem pelos portões dentro e encontro todas as pessoas que são do meu curso encostadas à parede e matematicamente numeradas. Junto-me a elas e reparo que o meu curso é essencialmente constituído por raparigas. Com uma percentagem razoável de giras. Já estou mais feliz. Graças a Deus pelo par cromossómico XX.

Estávamos nós tão contentes a ser marcados como peças bovinas e a ser tratados como tal, quando nos informaram que teríamos que dar um passeiozinho. Demos as mãos num puro acto de ioga e equilíbrio (sim, porque cada um de nós tinha que dar a mão ao que ia na frente com esta a passar por entre as pernas), e lá fomos nós.
Passadas duas horas de muita gritaria a roçar o obsceno e de muita mistela bebida, tivemos direito a uma refeição na cantina. Mas atenção, porque tivemos que comer dois bifes com puré só com uma faca. Devo dizer que momentaneamente senti-me uma versão humilhada mas bastante realista de Batusai, o esquartejador.

Passados mais alguns episódios envolvendo comida e miúdas giras (esta era só mesmo para captar a atenção... estas coisas funcionam), lá nos fomos pintar à creche mais próxima. Levaram-nos para um recinto cheio de miúdos de cinco anos e eles próprios fizeram questão de nos salganharem o corpo todo com as suas tintas removíveis com água. E eu entretanto fiz uma descoberta fantástica. As criancinhas de tenra idade têm na verdade um cruel instinto assassino. E perverso. Provas? Primeiro, elas não tinham sido ensinadas. Segundo, deixo aqui o meu diálogo com uma dessas criaturas do Inferno:

"-Olá! Então como te chamas?"
"-Cala-te! Abaixa-te!"
"-Oh, pronto, eu baixo-me! Então o que me vais pintar?"
"-Prossora, dá-me o verde!"
...
(silêncio enquanto que o puto me suja todo)
...

Cá está. Foi uma situação algo embaraçosa, mas o negócio não ficou por aqui. Como já tinha dito, as tintas eram removíveis com água, e os veteranos aperceberam-se disso. Solução? Levámos com dois quilos de laca, batôm e pó de talco em cima. Ah pois. E não nos queixámos.

Passada uma hora, iniciu-se um aconchegador desfile de oito quilómetros até Almada. Agora aqui é que me faltam palavras para descrever as duas horas e meia mais turtuosas dam minha vida. Estão a ver aquele filme, A Paixão de Cristo? Estão a ver aquela pequena cena em que é o próprio Messias a levar cacetada até ao calvário? Pronto, nós estávamos mais ou menos assim, mas sem cruz às costas, vestidos com batas e com latas atadas às pernas. E a gritar :"Ó LEGI, chupa aqui!", claro está. Eu acho que Jesus não gritava coisas dessas pelo caminho, por isso esta foi mesmo a parte mais inovadora, acho eu.
Chegados a Almada, demos um pulinho para a fonte. Aí é que eu gostei de estar no desfile: éramos para aí uns setecentos caloiros a mergulhar alegremente naquelas águas. Digamos também que aquilo não eram exactamente águas. Na realidade, a fórmula química daquela estranha substância era nada mais nada menos do que H2Cócó.
De qualquer das formas, aquele era um cenário verdadeiramente peculiar. Tambores de um lado, cânticos do outro, mais parecia uma revolução. Mas sem florzinhas.

Assim, encharcado e pintado, apanhei um autocarro para casa e cá estou eu a escrever no meu quarto. Apercebo-me agora de quem tem que lavar estas roupas sou eu, e isso faz-me mesmo sentir homesick.
Que cheiro é este? O outro colega de casa está a cozinhar pombo. Agora sim estou deprimido.


E pronto, este foi o relato dos meus primeiros dias enquanto reles, insignificante e mísero caloiro. Claro que as praxes não se resumiram a isto, mas devo dizer que no geral gostei. Afinal de contas fiquei a conhecer muitas pessoas e isso é sempre bom. Devo também dizer que fiz um esforço hercúleo para tentar entender a minha letra e copiar esta blasfémia toda.
Agora é vida nova. Tudo novo. Mas as ideias, essas mudam. E estão sempre cá, estúpidas como sempre!

domingo, outubro 30, 2005

Intelectualidade VI

Ele há jogos de palavras muito subtis:


in O Mirante 28 Out. 2005, edição Lezíria do Tejo


Mais comentários para quê?

sexta-feira, outubro 14, 2005

Diário de Caloiro I

Finalmente, após todas estas semanas de intensa adaptação universitária, tive tempo para escrever qualquer coisinha de mais consistente neste blogue de ideias completamente incongruentes.
O que se passou, e infelizmente ainda se passa, é que eu ando a tomar parte naquele tão afamado ritual de acolhimento para os recém-chegados do ensino secundário, les praxes. Para quem não sabe ou ainda não se apercebeu da minha falta no liceu de Almeirim, entrei agora para a faculdade. Não, não assaltei o bar da escola e fugi com o stock de folhados mistos, vim mesmo para Lisboa. Por isso sinto que tenho algo a dizer sobre os acontecimentos que ocorrem nas mais recentes três semanas da minha vida.
Eu não podia estar mais em desacordo com aquelas pessoas que dizem que praxe é hierarquia. De facto, vou usar este intrépido blogue para desmascarar essa insinuação: praxe não é, nem nunca sonhará sequer ser hierarquia. Praxe é simplesmente humilhação e subversão de todos os valores eticamente aceitáveis. Praxe é meter uma grande rolha na boca dessa gorda senhora que é a dignidade humana. Contudo, praxe é diferente de muitas coisas que as pessoas possam pensar. Praxe não é, por exemplo, uma sandes de queijo. E isso é que a distingue de muita coisa neste mundo.
Por essa mesma razão, publico agora e aqui o meu diário de sofrimento, comdamente separado em vários posts, que eu tenho mais que fazer.

Segunda-feira, 19 de Setembro de 2005 - Dia das inscrições:
23:30
Hoje, vai-se lá saber porquê, fui a primeira pessoa a inscrever-se. Quero dizer, aquilo era por ordem de chegada e eu por acaso cheguei em primeiro. Além de me marcarem como uma mera peça bovina (e isto é ser humilde), ensinaram-me um método linguístico completamente novo. Cada vez que me dirigissem a palavra, a única coisa que poderia afirmar era um poético grunhido. Mais nada. Mas o pior nem foi isso. Eu estava com a minha família, e a família normalmente apoia o coitadinho que está a sofrer. Sim, isso era o que se esperava. Aconteceu? NÃO. Enuqanto eu rastejava de joelhos a venerar veteranos e veteranas, a malta do meu fundo genético ainda se ria com a minha humilhação. Ó meu Deus.

A partir daí fiquei mais conhecido por BAAAH. Ou por cunhas, também vai-se lá saber porquê.
À tarde fui à procura de casa. Grande sorte, calhei num apartamente bem aceitável, no fim de ver bastantes e cujos hábitos de higiene muito ficavam a dever à palavra detergente. Tenho um quarto só para mim, e estou a partilhar a casa com mais dois tipos, ainda não sei quem são. Com um bocado de sorte não cheiram mal dos pés.


Domingo, 25 de Setembro de 2005 - Dia da chegada
22:15
Os tipos que moram comigo cheiram mal dos pés. Vá lá, estamos em quartos separados e eu já enchi o meu com aqueles ambientadores que a minha mãe trouxe de casa. Neste momento estou na minha cama e tudo o resto cheira-me a sabão de limpeza. Que frescura. Sou um tipo esquisito.
Há aqui um café ao pé da minha casa. Vou lá ver os ambientes.

01:30
As praxes já começaram. Conheci vários caloiros que como eu estão a morar ao pé da faculdade. O ambiente estava óptimo no café, até aparecerem uns veteranos com um ar inconfortavelmente tendente para o assassino. Obrigaram os meus recentes amigos a carregar móveis de madeira maciça do segundo andar para o rés-do-chão, e a mim a lavar 50 kgs de loiça que mais pareciam ter participado num ritual de sacrifício humano em tempos que já lá vão. Descobri depois de todo o meu empenho e coragem que o veterano abusador em questão era de Matemática, e sendo eu de Engenharia Química e Bioquímica, ele não estava autorizado praxar-me, segundo umas regras invisíveis que uns tipos com anos a mais por lá fizeram.
Quero matar alguém, mas não hoje que estou cheio de sono. Vou pôr isso na minha agenda. Mas não agora, que não me quero lembrar da fatídica limpeza de pratos.

02:03
As minha unhas ainda cheiram a banha de porco. Meu Deus, tenho que ir lavá-las pela trigésima vez. Bolas.

sábado, outubro 08, 2005

Intelectualidade V

Se há facto que que eu sempre julguei certo é que não se pode criticar a liberdade estilística assim à papo-seco. Se a oralidade difere da escrita, então o comezinho afasta-se e muito do puro trabalho intelectual.
A ver estes exemplos que encontrei apenas no espaço de uma semana, tenho que gritar a alto e bom som para todo o mundo me ouvir:

Ele há coisas poéticas.



in panfleto aleatório


in O Mirante 28 Set. 2005, edição Lezíria do Tejo


Ça, c'est beau.