Segunda-feira, 26 de Setembro de 2005 - Dia D
20:14
Neste momento estou ensopado, constipado e convenhamos, algo desconfortável. Mas eu explico porquê. Até posso explicar o porquê de neste momento o meu cabelo se assemelhar mais a uma bilis de porco.
Ok, estamos na manhã de hoje. Eu dirijo-me para a faculdade a pé (as minhas mãos, graças a Deus, já não cheiram a banha de porco), entro muito bem pelos portões dentro e encontro todas as pessoas que são do meu curso encostadas à parede e matematicamente numeradas. Junto-me a elas e reparo que o meu curso é essencialmente constituído por raparigas. Com uma percentagem razoável de giras. Já estou mais feliz. Graças a Deus pelo par cromossómico XX.
Estávamos nós tão contentes a ser marcados como peças bovinas e a ser tratados como tal, quando nos informaram que teríamos que dar um passeiozinho. Demos as mãos num puro acto de ioga e equilíbrio (sim, porque cada um de nós tinha que dar a mão ao que ia na frente com esta a passar por entre as pernas), e lá fomos nós.
Passadas duas horas de muita gritaria a roçar o obsceno e de muita mistela bebida, tivemos direito a uma refeição na cantina. Mas atenção, porque tivemos que comer dois bifes com puré só com uma faca. Devo dizer que momentaneamente senti-me uma versão humilhada mas bastante realista de Batusai, o esquartejador.
Passados mais alguns episódios envolvendo comida e miúdas giras (esta era só mesmo para captar a atenção... estas coisas funcionam), lá nos fomos pintar à creche mais próxima. Levaram-nos para um recinto cheio de miúdos de cinco anos e eles próprios fizeram questão de nos salganharem o corpo todo com as suas tintas removíveis com água. E eu entretanto fiz uma descoberta fantástica. As criancinhas de tenra idade têm na verdade um cruel instinto assassino. E perverso. Provas? Primeiro, elas não tinham sido ensinadas. Segundo, deixo aqui o meu diálogo com uma dessas criaturas do Inferno:
"-Olá! Então como te chamas?"
"-Cala-te! Abaixa-te!"
"-Oh, pronto, eu baixo-me! Então o que me vais pintar?"
"-Prossora, dá-me o verde!"
...
(silêncio enquanto que o puto me suja todo)
...
Cá está. Foi uma situação algo embaraçosa, mas o negócio não ficou por aqui. Como já tinha dito, as tintas eram removíveis com água, e os veteranos aperceberam-se disso. Solução? Levámos com dois quilos de laca, batôm e pó de talco em cima. Ah pois. E não nos queixámos.
Passada uma hora, iniciu-se um aconchegador desfile de oito quilómetros até Almada. Agora aqui é que me faltam palavras para descrever as duas horas e meia mais turtuosas dam minha vida. Estão a ver aquele filme, A Paixão de Cristo? Estão a ver aquela pequena cena em que é o próprio Messias a levar cacetada até ao calvário? Pronto, nós estávamos mais ou menos assim, mas sem cruz às costas, vestidos com batas e com latas atadas às pernas. E a gritar :"Ó LEGI, chupa aqui!", claro está. Eu acho que Jesus não gritava coisas dessas pelo caminho, por isso esta foi mesmo a parte mais inovadora, acho eu.
Chegados a Almada, demos um pulinho para a fonte. Aí é que eu gostei de estar no desfile: éramos para aí uns setecentos caloiros a mergulhar alegremente naquelas águas. Digamos também que aquilo não eram exactamente águas. Na realidade, a fórmula química daquela estranha substância era nada mais nada menos do que H2Cócó.
De qualquer das formas, aquele era um cenário verdadeiramente peculiar. Tambores de um lado, cânticos do outro, mais parecia uma revolução. Mas sem florzinhas.
Assim, encharcado e pintado, apanhei um autocarro para casa e cá estou eu a escrever no meu quarto. Apercebo-me agora de quem tem que lavar estas roupas sou eu, e isso faz-me mesmo sentir homesick.
Que cheiro é este? O outro colega de casa está a cozinhar pombo. Agora sim estou deprimido.
E pronto, este foi o relato dos meus primeiros dias enquanto reles, insignificante e mísero caloiro. Claro que as praxes não se resumiram a isto, mas devo dizer que no geral gostei. Afinal de contas fiquei a conhecer muitas pessoas e isso é sempre bom. Devo também dizer que fiz um esforço hercúleo para tentar entender a minha letra e copiar esta blasfémia toda.
Agora é vida nova. Tudo novo. Mas as ideias, essas mudam. E estão sempre cá, estúpidas como sempre!
20:14
Neste momento estou ensopado, constipado e convenhamos, algo desconfortável. Mas eu explico porquê. Até posso explicar o porquê de neste momento o meu cabelo se assemelhar mais a uma bilis de porco.
Ok, estamos na manhã de hoje. Eu dirijo-me para a faculdade a pé (as minhas mãos, graças a Deus, já não cheiram a banha de porco), entro muito bem pelos portões dentro e encontro todas as pessoas que são do meu curso encostadas à parede e matematicamente numeradas. Junto-me a elas e reparo que o meu curso é essencialmente constituído por raparigas. Com uma percentagem razoável de giras. Já estou mais feliz. Graças a Deus pelo par cromossómico XX.
Estávamos nós tão contentes a ser marcados como peças bovinas e a ser tratados como tal, quando nos informaram que teríamos que dar um passeiozinho. Demos as mãos num puro acto de ioga e equilíbrio (sim, porque cada um de nós tinha que dar a mão ao que ia na frente com esta a passar por entre as pernas), e lá fomos nós.
Passadas duas horas de muita gritaria a roçar o obsceno e de muita mistela bebida, tivemos direito a uma refeição na cantina. Mas atenção, porque tivemos que comer dois bifes com puré só com uma faca. Devo dizer que momentaneamente senti-me uma versão humilhada mas bastante realista de Batusai, o esquartejador.
Passados mais alguns episódios envolvendo comida e miúdas giras (esta era só mesmo para captar a atenção... estas coisas funcionam), lá nos fomos pintar à creche mais próxima. Levaram-nos para um recinto cheio de miúdos de cinco anos e eles próprios fizeram questão de nos salganharem o corpo todo com as suas tintas removíveis com água. E eu entretanto fiz uma descoberta fantástica. As criancinhas de tenra idade têm na verdade um cruel instinto assassino. E perverso. Provas? Primeiro, elas não tinham sido ensinadas. Segundo, deixo aqui o meu diálogo com uma dessas criaturas do Inferno:
"-Olá! Então como te chamas?"
"-Cala-te! Abaixa-te!"
"-Oh, pronto, eu baixo-me! Então o que me vais pintar?"
"-Prossora, dá-me o verde!"
...
(silêncio enquanto que o puto me suja todo)
...
Cá está. Foi uma situação algo embaraçosa, mas o negócio não ficou por aqui. Como já tinha dito, as tintas eram removíveis com água, e os veteranos aperceberam-se disso. Solução? Levámos com dois quilos de laca, batôm e pó de talco em cima. Ah pois. E não nos queixámos.
Passada uma hora, iniciu-se um aconchegador desfile de oito quilómetros até Almada. Agora aqui é que me faltam palavras para descrever as duas horas e meia mais turtuosas dam minha vida. Estão a ver aquele filme, A Paixão de Cristo? Estão a ver aquela pequena cena em que é o próprio Messias a levar cacetada até ao calvário? Pronto, nós estávamos mais ou menos assim, mas sem cruz às costas, vestidos com batas e com latas atadas às pernas. E a gritar :"Ó LEGI, chupa aqui!", claro está. Eu acho que Jesus não gritava coisas dessas pelo caminho, por isso esta foi mesmo a parte mais inovadora, acho eu.
Chegados a Almada, demos um pulinho para a fonte. Aí é que eu gostei de estar no desfile: éramos para aí uns setecentos caloiros a mergulhar alegremente naquelas águas. Digamos também que aquilo não eram exactamente águas. Na realidade, a fórmula química daquela estranha substância era nada mais nada menos do que H2Cócó.
De qualquer das formas, aquele era um cenário verdadeiramente peculiar. Tambores de um lado, cânticos do outro, mais parecia uma revolução. Mas sem florzinhas.
Assim, encharcado e pintado, apanhei um autocarro para casa e cá estou eu a escrever no meu quarto. Apercebo-me agora de quem tem que lavar estas roupas sou eu, e isso faz-me mesmo sentir homesick.
Que cheiro é este? O outro colega de casa está a cozinhar pombo. Agora sim estou deprimido.
E pronto, este foi o relato dos meus primeiros dias enquanto reles, insignificante e mísero caloiro. Claro que as praxes não se resumiram a isto, mas devo dizer que no geral gostei. Afinal de contas fiquei a conhecer muitas pessoas e isso é sempre bom. Devo também dizer que fiz um esforço hercúleo para tentar entender a minha letra e copiar esta blasfémia toda.
Agora é vida nova. Tudo novo. Mas as ideias, essas mudam. E estão sempre cá, estúpidas como sempre!