Eu costumo saber muitas coisas, sendo a maior parte delas mais opinada do que propriamente aprendida. O problema é que estava completamente sem tópicos nenhuns, pelo menos até às quatro da tarde do dia de hoje.
O que aconteceu, meus intrépidos e escassos leitores, é que em cerca de 20 rápidos segundos a minha mente, que até então se encontrava na mais solitária escuridão, iluminou-se, e mais, ofuscou-me a mim mesmo. Eu fiquei de tal maneira encandeado que parecia que tinha visto uma explosão. E isto porque vi, já que presenciei o impresenciável: as torres de Tróia a irem à vida.
O 11 de Setembro não cessou o gosto de se ver destruição, nem pouco mais ou menos. Portugal queria mais, estilo reality show.
Se não pudesse ser com sangue, então seria com explosões.
Se não pudesse ser com terroristas, então seria com um representante do governo português.
E nisto eu encontro três razões mais uma (bónus) para achar que isto foi extremamente peculiar, que é uma palavra que a gente desta terra inventou para não se dizer foleiro. Em Portugal este tipo de eventos costumam chamar-se peculiares.
Primeira razão: houve aquela redoma toda de marketing à volta do acontecimento, a que imploro a alguém que me esclareça o facto de ser assim tão importante mandar dois mamarachos abaixo. Chamem-me inculto, porque não sei que aquilo foi um grande investimento no tempo da Maria Cachucha que não resultou, e coitadinha, tanta gente investiu...
Só posso responder :
-Pff! Eu fiz um investimento de 12 anos no ensino público e saí de lá mais parvo do que quando entrei. Alguém me quer aniquilar e filmar o acontecimento?
Segunda razão: aquilo é uma demolição. Uma demolição é costume ser apenas a desconstrução súbita de edifícios velhos. Então porque é que têm que haver lugares VIP? Bem, aquilo deve ser mesmo muito giro. Eu imagino os presentes:
"-Wow."
"-Sim senhoras..."
"-Olha, viste aquele bocadinho de cimento?"
"-É pá, isto sim, é entertainment."
Cá para mim os terroristas bem podiam contactar os media portugueses para avisar quando planeam dar cabo do coiro de alguém, preferencialmente dentro de um edifício, ainda mais preferencialmente se se puserem com explosivos pelo meio. É só telefonar a uma empresa de catering, tendo cuidado para seleccionar os melhores croquetes e que as gambas não estejam muito estragadas.
Terceira razão: os portugueses devem ser muito chiques. Alguém reparou que todas as comunicações estavam a ser feitas antes e após a destruição, não na língua de Camões, mas... EM INGLÊS? O tempo todo. Antes da implosão tinha-se qualquer coisa como:
"Everything's ready? All righ'!"
"Five, four three, two, one..."
KABOOM!
E de seguida ouviram-se mais umas falas, desta vez por puras almas lusas e às quais eu não apelidarei de grotescas, apelidarei apenas de agressivamente pós-modernistas:
"-ÉXCELENT!"
"-VÉRI GÚDE! VÉRI GÚDE!"
"-CÔNGRÁTCHULÂCIÓNES!"
Não só os técnicos eram ingleses, mas os próprios portugueses, talvez perplexados com todo aquele tumulto, desataram a falar estrangeiro. E não se calaram. Não me surprenderia nada se depois do dito espectáculo, já no indespropositado buffet ainda se ouvisse:
"-Oh, my God, I need a piss, and quick!"
"-These rissoles are very good."
"-I liked the explosion. Now I have to go home to smell my Maria's codfish."
"-It's a mini and a saucer of tremoços, please."
São estes pequenos momentos que não têm preço. Chamem-me o António Damásio para analisar esta gente, que pelos vistos assistir a explosões activa partes cerebrais relativas à linguagem que ninguém sabia.
E agora a Razão Bónus! :
Ok, estavam muitas câmaras a filmar o local em diversos ângulos: umas à frente, outras atrás, outras de lado. Mas todas de fora. O que me chamou a atenção foi o facto de terem colocado uma câmara DENTRO de um dos prédios para filmar 1 segundo de derrocada. Visto ter sido tão breve vou analisá-la frame por frame:
Frame 1 : Prédio intacto.
Frame 2 : Vê-se uma luz forte.
Frame 3 : Escuridão.
Fantástico. Cá está um bom uso para uma câmara. Prédio, luz, escuridão, câmara destruída.
De qualquer das formas fiquem atentos, porque a próxima implosão que houver vai-vos gastar a mioleira. A menos que sejam como eu, e se dediquem a coisas mais interessantes como a escrita desiquilibrada em blogues despropositados.